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    <title>DEV Community: Evelyn Lacerda</title>
    <description>The latest articles on DEV Community by Evelyn Lacerda (@evelyndsl).</description>
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      <title>DEV Community: Evelyn Lacerda</title>
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    <language>en</language>
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      <title>Como uma gestão despreparada pode custar a sua carreira</title>
      <dc:creator>Evelyn Lacerda</dc:creator>
      <pubDate>Fri, 25 Sep 2026 19:00:15 +0000</pubDate>
      <link>https://dev.to/he4rt/como-uma-gestao-despreparada-pode-custar-a-sua-carreira-1k9k</link>
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      <description>&lt;p&gt;Quantas vezes você já ouviu a seguinte frase "a empresa é assim, lide com isso" e engoliu seco porque parecia a única opção? Essa frase costuma ser tratada como "algo comum", como "personalidade de gestor". Raramente mencionam o termo correto que é &lt;strong&gt;despreparo para gerir pessoas&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A história abaixo não é sobre uma grande empresa com RH ineficiente, ou uma startup sem controle. A empresa era pequena, que seguiu pequena, onde o gestor era o dono e não havia ninguém acima dele para trazer à tona um despreparo que era evidente.&lt;/p&gt;

&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Os fatos descritos aqui aconteceram com uma pessoa próxima, que chamarei de Maria, e que autorizou o uso da sua história na carreira tech.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;




&lt;h2&gt;
  
  
  O início do conflito: Quando a pressa substitui o planejamento
&lt;/h2&gt;

&lt;p&gt;O projeto era grande: &lt;strong&gt;refazer um SaaS inteiro, com frontend e backend construídos do zero&lt;/strong&gt;. Quando ela entrou na equipe, o backend já estava encaminhado, faltava o frontend. A decisão do gestor foi comprar um template pronto e construir tudo em cima dele. Parece prático, mas não é: um template genérico, feito para qualquer tipo de aplicação, carrega dependências e estruturas depreciadas que nada têm a ver com o projeto proposto, e boa parte do tempo da equipe acaba consumida limpando código desnecessário e torcendo para tudo continuar funcionando.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Maria ficou de analisar o primeiro template. Percebeu que a quantidade de dependências depreciadas e bugs atrasaria o projeto, e sugeriu construir o frontend do zero. A sugestão foi aceita, e &lt;strong&gt;ela passou os 7 meses seguintes construindo sozinha uma base sólida, eficiente e confiável&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Com a entrada de um novo desenvolvedor sênior na equipe, o que Maria esperava ser uma colaboração alimentada pela experiência do colega, se transformou em &lt;strong&gt;mais 14 meses de trabalho em cima de uma nova compra de template&lt;/strong&gt;. Imposto sem debate técnico prévio, e que resultaram no descarte de todo o trabalho prévio de Maria com desenvolvimento de uma base correta.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A decisão não foi tomada com base em qual abordagem era tecnicamente melhor, foi tomada com base em &lt;strong&gt;quem falou por último e com mais anos de experiência no currículo&lt;/strong&gt;. Isso não é um erro técnico, é um erro de processo. Quando a palavra de quem tem mais cargo ou mais tempo de casa pesa mais do que meses de entrega comprovada, a equipe aprende que &lt;strong&gt;propor, testar e validar não importa tanto quanto convencer quem decide&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;É esse tipo de ambiente que ensina gente boa a parar de sugerir.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;

&lt;p&gt;O risco real apareceu 4 meses antes da nova e última data de lançamento, já sem margem para mais adiamentos. Uma das tecnologias base do template sofreu uma atualização de versão, o gestor pediu a atualização no projeto, e &lt;strong&gt;o template simplesmente parou de funcionar&lt;/strong&gt;. Nem o sênior conseguiu resolver os erros de incompatibilidade gerados. Reverter para a versão anterior lançaria o projeto já obsoleto, então tudo foi &lt;strong&gt;refeito pela terceira vez&lt;/strong&gt;, em um terceiro template diferente que também trazia depreciações e erros na base.&lt;/p&gt;

&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Um projeto com prazo de lançamento de menos de 1 ano chegou a 2 anos sem estimativa de conclusão.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;

&lt;p&gt;Em nenhum momento houve uma avaliação real do risco de construir a base inteira de um SaaS em cima de templates prontos e genéricos. Comprar pronto parece economizar tempo, mas só empurra o custo para frente, e quando ele chega, vem maior. &lt;strong&gt;É gestão de projeto amadora tratar prazo e tecnologia como decisões independentes uma da outra&lt;/strong&gt;, e quem paga por essa desconexão não é quem decide, é quem está na ponta reescrevendo o mesmo projeto pela terceira vez.&lt;/p&gt;

&lt;h2&gt;
  
  
  Duas vozes que não se alinhavam e o trabalho que não chegava a lugar nenhum
&lt;/h2&gt;

&lt;p&gt;A comunicação interna era um ponto extremo a se questionar, principalmente entre gestor e sênior, raramente consistentes entre si. Quando Maria buscava resolver alguma dúvida, um dizia uma coisa, o outro dizia o oposto. Ela virou &lt;strong&gt;o ponto de contato involuntário&lt;/strong&gt; entre os dois, tentando alinhar o que já deveria estar alinhado antes de chegar até ela. Levou as divergências para um canal aberto a todos, mas raramente isso resolvia algo.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Havia também um desgaste diário nas trocas de direção sem comunicação: PRs ficavam semanas ou meses sem revisão, acumulando conflitos impossíveis de resolver e obrigando Maria a refazer a mesma PR 5, 6, 7 vezes. Via seu trabalho parado, sem avançar nem retroceder, enquanto cobranças chegavam como se ela não estivesse entregando: "&lt;em&gt;você não está entregando o suficiente&lt;/em&gt;" ou "&lt;em&gt;há muitas PRs suas paradas&lt;/em&gt;", as mesmas PRs que esperavam validação de quem simplesmente deixava pra mais tarde.&lt;/p&gt;

&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;Em paralelo, seu trabalho podia ser jogado fora a qualquer momento, sem aviso.&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;

&lt;p&gt;Repare o tamanho da inversão aqui, quando duas pessoas em posições diferentes de decisão que não se alinham entre si. O custo desse desalinhamento não fica apenas com elas, ele chega até quem tem menos poder de recusa para um papel de intermediário. &lt;strong&gt;Cobrar entrega de quem está travado esperando revisão não podemos chamar de gestão de performance, isso é confundir sintoma e causa sem observar quem controla o gargalo.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;

&lt;h2&gt;
  
  
  Um ambiente que normalizava o desconforto
&lt;/h2&gt;

&lt;p&gt;Além dessa instabilidade técnica que ela enfrentava no dia a dia, havia um padrão constante nas reuniões: piadas constrangedoras, algumas colocando Maria como alvo e fazendo dela o "palhaço" da vez. Aparentemente ninguém percebia, ou ninguém se importava com o quanto aquilo a incomodava. Em certo momento ficou implícito, uma piada feita onde todos riram menos ela, o que significava que não merecia aumento. Isso foi verbalizado na frente de todos, e ela ficou sem palavras. &lt;strong&gt;Não rir foi tratado como sinal de que ela não queria aumento ou não queria ser promovida.&lt;/strong&gt; Talvez até uma forma de coação sutil, porém eficaz, o tipo de coisa que ensina a engolir o desconforto.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Isso não é cultura descontraída nem falta de jeito social, é condicionar reconhecimento profissional a uma performance emocional que nada tem a ver com entrega de trabalho.&lt;/strong&gt; Quando rir de uma piada vira pré-requisito informal para crescer na empresa, o problema não é falta de senso de humor de quem não riu, é gestão de pessoas tratando desconforto alheio como moeda de troca.&lt;/p&gt;

&lt;h2&gt;
  
  
  O corpo começou a cobrar
&lt;/h2&gt;

&lt;p&gt;O primeiro episódio de burnout Maria não percebeu, mas o segundo e o terceiro não vieram sozinhos. Acompanhados de ansiedade, noites mal dormidas e depois um quadro depressivo que chegou devagar. A imunidade caiu e a fez verbalizar que estava no limite, um pedido de ajuda. A resposta veio em poucos minutos: "&lt;em&gt;A empresa é assim, lide com isso.&lt;/em&gt;", a mesma empresa que prometia um ambiente familiar, amigável e compreensível quando a contrataram.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Aqui o despreparo deixa de ser só falta de experiência e passa a ser negligência.&lt;/strong&gt; Ninguém espera que um líder de equipe tenha resposta pronta para tudo, muito menos para a saúde mental de alguém. Mas existe uma diferença enorme entre não saber o que fazer e escolher não fazer nada diante de um pedido de ajuda direto, e a segunda opção é omissão.&lt;/p&gt;

&lt;h2&gt;
  
  
  O alívio misturado com a perda e a incerteza na carreira
&lt;/h2&gt;

&lt;p&gt;Finalmente a demissão chegou, e o primeiro sentimento foi de alívio. Mas, passadas algumas semanas, veio a famosa &lt;strong&gt;sensação de estar perdida sem saber o que fazer&lt;/strong&gt;. Se 7 meses de trabalho podiam ser descartados com uma conversa, se em 2 anos e meio de trabalho tudo o que fez sempre foi visto como errado e questionável, o que ela realmente sabia fazer? Foi o suficiente para fazer com que ela se afastasse da carreira, por sentir que perdeu todo o seu tempo durante todos esses meses de trabalho, um tempo que foi gasto tentando sobreviver em um ambiente que deveria ser de crescimento profissional e pessoal.&lt;/p&gt;

&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;Depois de quase 6 meses, Maria está retornando aos poucos e entendendo que, ao contrário do que imaginava, ela estava certa em boa parte do tempo, se não o tempo todo.&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;




&lt;h2&gt;
  
  
  O que fica dessa história
&lt;/h2&gt;

&lt;p&gt;Maria terminou esses dois anos e meio se perguntando o que ela realmente sabia fazer, mas &lt;strong&gt;nada do que ela viveu foi sobre incompetência técnica&lt;/strong&gt;. Templates falham, códigos quebram, tecnologias são atualizadas e bugs aparecem, isso faz parte do trabalho de qualquer time. O que a fez duvidar de si mesma não foi o próprio trabalho, &lt;strong&gt;foi ver 7 meses de entrega descartados sem debate, foi ser cobrada por PRs que ela não podia validar sozinha, foi ter o silêncio diante de uma piada usado contra ela como prova de que não merecia crescer&lt;/strong&gt;. Nada disso mede competência. Mede o quanto alguém aguenta absorver a desorganização de quem deveria estar organizando.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Um gestor que tomou decisões sem avaliar o que já havia sido construído, que deixou a palavra de quem falava mais alto pesar mais do que meses de entregas, que não conseguiu alinhar a própria comunicação com a da equipe que ele mesmo montou. Foi esse gestor quem tolerou, quando não incentivou, um ambiente onde desconforto virava moeda de troca por reconhecimento, e que, diante de um pedido de ajuda real, escolheu responder que a empresa era assim. &lt;strong&gt;Essa parte não se dilui em "cultura de empresa", é responsabilidade de uma pessoa específica, e também não é exclusividade de negócios pequenos: é o retrato de um tipo de gestão que existe aos montes&lt;/strong&gt;, seja numa empresa pequena onde o gestor é o dono, seja numa empresa grande com uma liderança que não cumpre seu papel, onde não há ninguém disposto a dizer que aquilo precisa mudar e o despreparo nunca é confrontado.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Liderar bem não é sobre nunca errar numa escolha feita. &lt;strong&gt;É escutar quem está no dia a dia do projeto antes de descartar o trabalho dessa pessoa, alinhar antes de cobrar, garantir que ninguém precise se sentir mal para provar seu valor&lt;/strong&gt;. Quando isso falta, o custo não aparece só em atrasos de cronograma, aparece depois, na carreira de quem saiu de lá achando que o problema era ela. Se você reconheceu esse padrão em algum lugar onde trabalha ou já trabalhou, vale se perguntar se o que te fez duvidar de você foi mesmo o seu trabalho ou foi a bagunça de quem deveria estar te dando direção, e prestar atenção em quem pode estar carregando esse peso sozinho agora.&lt;/p&gt;




&lt;h3&gt;
  
  
  - Agradecimentos
&lt;/h3&gt;

&lt;p&gt;Quero agradecer ao &lt;a class="mentioned-user" href="https://dev.to/clintonrocha98"&gt;@clintonrocha98&lt;/a&gt; pelo feedback quando apresentei minha primeira versão, a &lt;a class="mentioned-user" href="https://dev.to/szaranct"&gt;@szaranct&lt;/a&gt; pelo review minucioso quando a segunda versão chegou, e a &lt;a class="mentioned-user" href="https://dev.to/cherryramatis"&gt;@cherryramatis&lt;/a&gt; que me ajudou muito com seu artigo de &lt;a href="https://dev.to/he4rt/compartilhando-seu-conhecimento-com-o-mundo-como-escrever-artigos-5ghc"&gt;como escrever artigos&lt;/a&gt;. 💜&lt;/p&gt;

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