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    <title>DEV Community: Tech Contra Bolsonaro</title>
    <description>The latest articles on DEV Community by Tech Contra Bolsonaro (techcontrabolsonaro).</description>
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      <title>Mulheres Negras na Tecnologia (#1): Enedina Alves Marques - A Pioneira Brasileira</title>
      <dc:creator>Natália Granato</dc:creator>
      <pubDate>Fri, 16 Oct 2026 04:25:32 +0000</pubDate>
      <link>https://dev.to/techcontrabolsonaro/mulheres-negras-na-tecnologia-1-enedina-alves-marques-a-pioneira-brasileira-4iai</link>
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      <description>&lt;p&gt;Bem-vindas, bem-vindos e bem-vindes ao &lt;strong&gt;primeiro artigo da série Mulheres Negras na Tecnologia&lt;/strong&gt;. Este espaço nasce com um propósito claro e urgente: resgatar a memória, celebrar o legado e dar visibilidade a nós, mulheres negras, e às nossas contribuições fundamentais para a engenharia, a ciência e a tecnologia ao longo da história. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Durante séculos, o racismo e o machismo estruturais tentaram apagar os nossos nomes dos livros e dos grandes marcos científicos. Olhar para quem veio antes e abriu caminhos à força de muito conhecimento e coragem é essencial para entendermos que a tecnologia também é — e sempre foi — o nosso lugar.&lt;/p&gt;

&lt;h3&gt;
  
  
  Quando a tecnologia era feminina: da maioria ao apagamento histórico
&lt;/h3&gt;

&lt;p&gt;Para quem observa o mercado de tecnologia hoje — ainda maioritariamente masculino e branco —, pode parecer que sempre foi assim. Mas a história conta outra verdade: &lt;strong&gt;as mulheres já foram maioria na computação&lt;/strong&gt;. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Desde o século XIX, com o primeiro algoritmo processável por uma máquina, até meados do século XX, o desenvolvimento de software, a programação dos primeiros computadores eletrónicos (como o ENIAC) e os cálculos complexos de balística e exploração espacial eram funções desempenhadas maioritariamente por mulheres — muitas delas cientistas e matemáticas negras, as chamadas &lt;em&gt;"computadores humanos"&lt;/em&gt;. Naquela época, o hardware (a máquina física) era visto pela sociedade patriarcal como a parte "nobre" e masculina, enquanto programar e calcular eram atividades associadas ao trabalho de escritório, de catalogação ou de telefonia, sendo delegadas às mulheres. No Brasil, até à década de 1970, as primeiras turmas de Ciência da Computação em grandes universidades chegavam a ter maioria feminina.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Porque deixámos de ser maioria?&lt;/strong&gt; &lt;br&gt;
Essa mudança não aconteceu por falta de interesse ou aptidão, mas por um processo histórico de exclusão à medida que a área ganhou prestígio económico e poder:&lt;/p&gt;

&lt;ol&gt;
&lt;li&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Valorização financeira e elitização:&lt;/strong&gt; A partir das décadas de 1960 e 1970, quando ficou evidente que o software era o verdadeiro coração da revolução tecnológica e uma indústria altamente lucrativa, a programação passou a ser redefinida como uma carreira de elite, atraindo em massa o público masculino e empurrando as mulheres para fora dos cargos técnicos e de liderança.&lt;/p&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;A cultura do computador pessoal nos anos 1980:&lt;/strong&gt; Com a chegada dos primeiros PCs, a indústria de tecnologia e publicidade passou a direcionar os computadores e os videojogos exclusivamente para o público masculino, vendendo-os como "brinquedos de rapazes". Isso criou o estereótipo cultural do &lt;em&gt;nerd/hacker&lt;/em&gt; homem, branco e antissocial, afastando as mulheres das salas de aula de exatas nas décadas seguintes.&lt;/p&gt;&lt;/li&gt;
&lt;/ol&gt;

&lt;p&gt;Para nós, mulheres negras, essa barreira sempre foi dupla: além do filtro de gênero nas ciências exatas, enfrentámos o racismo institucional que historicamente tentou restringir-nos ao trabalho braçal e subalterno. É exatamente por isso que abrir esta série com a história de &lt;strong&gt;Enedina Alves Marques&lt;/strong&gt; é tão simbólico: em pleno Brasil da década de 1940, ela rompeu todas essas barreiras de uma só vez.&lt;/p&gt;




&lt;h3&gt;
  
  
  Enedina Alves Marques (1913–1981) — &lt;em&gt;A Pioneira Brasileira&lt;/em&gt;
&lt;/h3&gt;

&lt;p&gt;&lt;a href="https://media2.dev.to/dynamic/image/width=800%2Cheight=%2Cfit=scale-down%2Cgravity=auto%2Cformat=auto/https%3A%2F%2Fdev-to-uploads.s3.us-east-2.amazonaws.com%2Fuploads%2Farticles%2Fdwsm04ou7zbip3mn3ydi.png" class="article-body-image-wrapper"&gt;&lt;img src="https://media2.dev.to/dynamic/image/width=800%2Cheight=%2Cfit=scale-down%2Cgravity=auto%2Cformat=auto/https%3A%2F%2Fdev-to-uploads.s3.us-east-2.amazonaws.com%2Fuploads%2Farticles%2Fdwsm04ou7zbip3mn3ydi.png" alt=" " width="739" height="415"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Enedina Alves Marques foi uma das maiores pioneiras da engenharia nacional e um símbolo inquestionável de resistência e representatividade na ciência brasileira. Nascida em Curitiba em 13 de janeiro de 1913, entrou para a história como a &lt;strong&gt;primeira mulher a formar-se em Engenharia no estado do Paraná e a primeira engenheira negra do Brasil&lt;/strong&gt;, desafiando os padrões raciais, sociais e acadêmicos da sua época.&lt;/p&gt;

&lt;h4&gt;
  
  
  Origem, Infância e Carreira no Magistério
&lt;/h4&gt;

&lt;p&gt;Única menina entre os dez filhos de Paulo Marques e Virgília Alves de Marques (conhecida como Dona Duca) — um casal negro que migrou para Curitiba no período pós-abolição em busca de melhores condições de vida —, Enedina foi criada na casa da família do delegado e major negro Domingos Nascimento Sobrinho, para quem a sua mãe trabalhava como empregada doméstica.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Como Enedina tinha a mesma idade da filha do patrão, Domingos matriculou as duas nos mesmos colégios para que fizessem companhia uma à outra. Assim, ela foi alfabetizada na Escola Particular da Professora Luiza Dorfmund (entre 1925 e 1926) e frequentou a Escola Normal entre 1927 e 1931, formando-se no curso Normal. Diplomada professora normalista em 1932 pelo Instituto Paranaense em Magistério, foi aprovada em concurso e admitida pela Secretaria de Educação e Saúde Pública do Estado do Paraná a 16 de julho de 1932. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Entre 1932 e 1935, lecionou em diversas escolas públicas de municípios do interior — como São Mateus do Sul, Cerro Azul, Rio Negro e Campo Largo (na Escola Isolada de Passaúna) — e também na capital, na Escola da Linha de Tiro do Juvevê, período em que terá integrado redes de resistência da comunidade negra paranaense.&lt;/p&gt;

&lt;h4&gt;
  
  
  A Conquista do Diploma em Engenharia Civil
&lt;/h4&gt;

&lt;p&gt;Determinada a ir além e ingressar no ensino superior, Enedina regressou à capital entre 1935 e 1937 para frequentar o &lt;em&gt;Madureza&lt;/em&gt; (curso intermediário exigido na época, equivalente hoje a um supletivo) no Novo Ateneu. Nesse mesmo período, passou a morar com a família do construtor Mathias Caron, no bairro Juvevê, e alugou uma casa em frente ao Colégio Nossa Senhora Menina, onde montou classes seriadas de alfabetização e deu aulas particulares para crianças que não tinham acesso à escola pública.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Em &lt;strong&gt;1945&lt;/strong&gt;, aos 32 anos, Enedina diplomou-se em &lt;strong&gt;Engenharia Civil&lt;/strong&gt; na região sul do Brasil (pela atual Universidade Federal do Paraná — UFPR). A sua formatura, realizada no tradicional edifício do Palácio Avenida ao lado de 32 homens, foi tratada com enorme curiosidade pela sociedade curitibana por representar a transposição de um espaço hegemonicamente masculino e branco.&lt;/p&gt;

&lt;h4&gt;
  
  
  Grandes Obras e Liderança Técnica
&lt;/h4&gt;

&lt;p&gt;Em 1947, iniciou a sua trajetória na Secretaria de Viação e Obras Públicas (SVOP) como auxiliar de engenharia, sendo designada para o Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica. Tornou-se a primeira engenheira a chefiar a Divisão de Engenharia da Seção de Estatística do Estado e, após realizar o levantamento de vários rios paranaenses, atuou como Fiscal das Obras da Usina Elétrica de Cotia, onde desenvolveu pesquisas sobre o levantamento topográfico do canal adutor entre os rios Saci e Cotia.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Reclassificada por concurso como Engenheira da SVOP em 1951, ganhou destaque e reconhecimento no cenário nacional ao trabalhar em grandes obras de infraestrutura.&lt;/p&gt;

&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Usina Hidrelétrica Capivari-Cachoeira (Usina Governador Parigot de Souza):&lt;/strong&gt; A sua obra de maior projeção, na qual projetou e conduziu pesquisas topográficas fundamentais.&lt;/p&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Infraestrutura Educacional e Pública:&lt;/strong&gt; Participou ativamente no projeto e na construção de diversos grupos escolares e edifícios públicos no Paraná, incluindo marcos como o Colégio Estadual do Paraná e a Casa do Estudante Universitário (CEU).&lt;/p&gt;&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;

&lt;p&gt;Durante as obras, enfrentando cotidianamente o preconceito de gênero e de raça num ambiente maioritariamente ocupado por homens, Enedina ficou conhecida por ser uma profissional enérgica e rigorosa, que se impunha sempre. Relatos biográficos destacam que, para fazer respeitar a sua autoridade técnica perante operários e subordinados que questionavam o comando de uma mulher negra, ela vestia o macacão e levava uma arma na cintura, disparando tiros para o ar quando precisava de exigir silêncio e respeito na obra.&lt;/p&gt;

&lt;h4&gt;
  
  
  Reconhecimento e Legado para Mulheres na Ciência e Tecnologia
&lt;/h4&gt;

&lt;p&gt;Em 1961, o sociologo Octávio Ianni entrevistou Enedina como parte da sua célebre pesquisa &lt;em&gt;"Metamorfoses do escravo"&lt;/em&gt;, financiada pela Unesco. Em 1962, ao completar 29 anos de serviço público, aposentou-se pelo governo do estado e recebeu o reconhecimento oficial do governador Ney Braga, que, por decreto, admitiu os feitos de Enedina enquanto engenheira e lhe garantiu proventos equivalentes ao salário de um juiz.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Enedina Alves Marques faleceu em 1981, aos 68 anos, deixando um legado imortal para a engenharia e a tecnologia no Brasil:&lt;/p&gt;

&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;&lt;p&gt;No ano &lt;strong&gt;2000&lt;/strong&gt;, foi imortalizada ao lado de outras 53 mulheres pioneiras do Brasil pelo &lt;strong&gt;Memorial à Mulher&lt;/strong&gt;, localizado na Praça do Soroptimismo, no bairro Hugo Lange, em Curitiba.&lt;/p&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;p&gt;Em &lt;strong&gt;2006&lt;/strong&gt;, foi fundado em Maringá o &lt;strong&gt;Instituto de Mulheres Negras Enedina Alves Marques&lt;/strong&gt;, em sua homenagem.&lt;/p&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;p&gt;A sua história continua a ser celebrada por conselhos de classe, universidades e projetos de incentivo a mulheres nas ciências exatas e computação — como o projeto &lt;strong&gt;Meninas na Robótica&lt;/strong&gt; (CEFET/RJ) e o &lt;strong&gt;CREA-PR&lt;/strong&gt; —, provando que a nossa presença na tecnologia tem raízes profundas e inabaláveis.&lt;/p&gt;&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;




&lt;h3&gt;
  
  
  Referências Bibliográficas e Fontes Consultadas
&lt;/h3&gt;

&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;BENITE, Anna M. Canavarro.&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;Enedina Alves Marques: Primeira Engenheira Negra do Brasil&lt;/em&gt;. Revista da ABPN, v. 12, n. 33, jun./ago. 2020, p. 688-691[cite: 1, 2, 3, 4].&lt;/p&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;CREA-PR.&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;Enedina Alves Marques: pioneira na engenharia e símbolo de resistência&lt;/em&gt;. Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná, maio de 2025. Disponível em: &lt;a href="https://www.crea-pr.org.br/ws/2025/05/enedina-alves-marques-pioneira-na-engenharia-e-simbolo-de-resistencia/" rel="noopener noreferrer"&gt;https://www.crea-pr.org.br/ws/2025/05/enedina-alves-marques-pioneira-na-engenharia-e-simbolo-de-resistencia/&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;FERNANDES, José Carlos.&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;Negra Enedina, a engenheira&lt;/em&gt;. Gazeta do Povo (Vida e Cidadania). Disponível em: &lt;a href="https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/jose-carlos-fernandes/negra-enedina-a-engenheira-11zwmvt8aj8h2nbi9qb61drr2/" rel="noopener noreferrer"&gt;https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/jose-carlos-fernandes/negra-enedina-a-engenheira-11zwmvt8aj8h2nbi9qb61drr2/&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;GAZETA DO POVO.&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;Conheça a história da engenheira Enedina Alves Marques&lt;/em&gt;. Gazeta do Povo (Vida e Cidadania). Disponível em: &lt;a href="https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/conheca-a-historia-da-engenheira-enedina-alves-marques-8zvma39hdusiu2rc2hmv4cklq/" rel="noopener noreferrer"&gt;https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/conheca-a-historia-da-engenheira-enedina-alves-marques-8zvma39hdusiu2rc2hmv4cklq/&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;INBEC.&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;Conheça a história de Enedina Marques, a primeira engenheira negra do Brasil&lt;/em&gt;. Instituto Brasileiro de Educação Continuada. Disponível em: &lt;a href="https://inbec.com.br/blog/conheca-historia-enedina-marques-primeira-engenheira-negra-brasil" rel="noopener noreferrer"&gt;https://inbec.com.br/blog/conheca-historia-enedina-marques-primeira-engenheira-negra-brasil&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;PEREIRA, Lara de Lanna.&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;Enedina Alves Marques: pioneira na Engenharia brasileira&lt;/em&gt;. Projeto Meninas na Robótica (Categoria: Mulheres na Ciência) – CEFET/RJ, 18 ago. 2026. Disponível em: &lt;a href="https://eic.cefet-rj.br/meninasnarobotica/index.php/2026/08/18/enedina-alves-marques-pioneira-na-engenharia-brasileira/" rel="noopener noreferrer"&gt;https://eic.cefet-rj.br/meninasnarobotica/index.php/2026/08/18/enedina-alves-marques-pioneira-na-engenharia-brasileira/&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;

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      <category>mulheres</category>
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