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Lucas F. Souza
Lucas F. Souza

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Sobre cantar quando estiver na lama

Comecei a leitura contrariado, “Make your bed”, o título me trazia curiosidade, mas logo notei que o livro possuia duas características que me desanimam em obras do gênero. A primeira delas, o autor. William H. McRaven, conta que baseou o livro em uma palestra para universitários, onde apresentou lições tiradas de seu contexto militar.

Confesso que tenho uma tendência e a rejeitar estes textos. Sinceramente, não acho que as lições militares no geral sejam aplicáveis no dia-a-dia de forma prática e sustentável. A grande maioria de textos similares que pude ter contato trazem apenas frases que pra mim soam como “Seja disciplinado pela dor, e tudo dará certo!”. Mas, acreditando que o livro me foi recomendado por um motivo, decidi acreditar que este seria algo a mais.

A segunda das características são as infames “frases de coach”, por assim dizer. A frente de cada capítulo, uma frase generalista e propagandista, passando mensagens rasas com um tom motivador. Algumas sendo mais aceitáveis que outras, confesso que o capítulo 04 me deixou incrédulo

“Se você quer mudar o mundo…deixe de ser um injustiçado e siga em frente”

Não pude deixar de rir. “Ora, se você está sendo injustiçado, apenas deixe de ser!” Fui conferir a frase original: “if you wanna change the world… get over being a sugar cookie and keep moving forward.” Apesar de ser mais compreensível, ainda me incomoda. É claro que na vida todos somos injustiçados, em diferentes níveis, e a história de superação apresentada no capítulo é legitimamente inspiradora, mas não posso deixar de sentir um desconfio ao me deparar em frases que resumem injustiças generalizadas como uma escolha de superação.

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Entretanto, com o passar da leitura foi mais fácil relevar tais itens. Fiz meu máximo para relevar as frases de efeito prontas, e coloquei um voto de fé de que as generalizações foram algo entre uma inocência do autor, e uma interpretação errada minha, uma vez que atribuindo o contexto do público alvo, as mensagens eram sim muito válidas. As diferentes histórias militares, que funcionam no livro tanto como analogias as mensagens quanto ilustrações do contexto do autor, se tornam rapidamente conectáveis – mesmo apesar de minha pré estabelecida desconfiança com o tema militar, – e não demorou para que me encontrasse envolvido na tragetória e lições de McRaven.

Agora, escrevo este texto mais tarde da madrugada do que deveria, depois de um dia exaustivo. Refletindo nesta pendência – escrever tal post – percebi o quanto pude internalizar das mensagens do livro.

Refleti primeiramente sobre como comecei o dia arrumando a casa. Apesar de ter conhecimento de minha lista de tarefas, reconheci que começar por esta poderia me ser útil, o que me deixou não somente um sentimento de satisfação ao concluir uma etapa, mas com a própria recompensa de desfrutá-la, segundo dito no primeiro capítulo – que dá nome ao livro.

Uma vez com o livro em mente, pensei sobre aquele que acabou por se tornar meu capítulo favorito: “Dê esperança as pessoas”. O capítulo traz consigo mais uma frase de efeito baseada diretamente nas vivências militares:

“Se você quer mudar o mundo, comece a cantar quando estiver enterrado na lama até o pescoço”.

O autor conta sobre os desafios da “Semana Infernal”, uma semana de intensos exercícios em um pântano, montada com intuito de levar aqueles que não estariam preparados a desistir do treinamento. Em sua história conta sobre como sua equipe conseguiu atravessar os exercícios, atolados em lama, cantando juntos. Um dava esperanças e força aos outros, e todos prosseguiam. Apesar de saberem que o treinamento poderia ser evitado se apenas cinco deles desistissem, o sentimento de persistência coletiva cantava mais alto em cada um dele. Acredito que hoje a lama batia em meu pescoço, e creio que consegui cantar.

Passei o resto de meu dia, correndo atrás de exercícios que precisava entregar para uma determinada matéria da faculdade. Os exercícios em questão necessitavam de um software o qual tive dificuldades para instalar corretamente, o que de início me atrasou. Após semanas corridas com estudos de outras provas, me deparei com o prazo final destes exercícios, os quais não havia nem começado. Estava atrasado, não tinha os conhecimentos necessários para realizar as tarefas e estava já além do limite de meu estresse há tempos. Quando li o capítulo não pude deixar de pensar “como se fosse fácil em uma situação difícil na vida real, simplesmente cantar e enfrentá-la”, percebo agora que ele nunca disse que era fácil.

Uma vez que decidi tentar resolver o problema, comecei a analiza-lo melhor. Dividi as tarefas entre as que eu julgava conseguir começar e as que eu não tinha ideia de como fazer, e dei início ao trabalho. Não demorou muito para encontrar desafios, mas demorou um pouco para perceber que eu não era o único. Buscando alguns documentos em meu celular me deparei com um grupo de amigos da faculdade e descobri que nos encontrávamos em situações similares, apesar de não tão atrasados, também possuíam pendências.

Receber documentos com referências e explicações me ajudou muito, mas acima de tudo, saber que não estava sozinho e encontrar companhia para conseguir rir e cantar na lama, foi o ponto chave. Levou tempo, energia e dedicação, mas cruzei meu “Dia Infernal”. Logo após completá-lo, busquei identificar quem ainda estava na lama, e ajudá-los, para que todos atravassassemos. E agora me encontro satisfeito, não somente com meu desempenho pessoal, mas ao saber que meu batalhão pessoal pode cruzar a lama comigo, sem que deixássemos ninguém para trás.

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Por fim, gostaria de expor os 3 pontos que mais me marcaram neste aprendizado:

1. Se eu quero mudar o mundo… preciso manter minha mente aberta

Todo este texto, que reflete uma lição que pude absorver e por em prática, é proveniente de um livro que fiz pouco caso. Ao acreditar que os padrões que eu conhecia se repetiriam em Make Your Bed não somente tomei uma conclusão precipitada, como fui arrogante. Acreditar que meus conhecimentos eram suficientes para rejeitar a leitura foi fruto de uma prepotência, pois não considerei que a obra poderia me acrescentar algo

2. Se eu quero mudar o mundo… preciso conseguir cantar quando na lama

Reconheço os desafios que venho tendo sem subestimá-los, e sei que cantar nestes momentos é desafiador por si só. Ainda assim, não somente pode ajudar imensamente alcançar este resultado, como ele se faz necessário. Por mais difícil que fosse a equipe conseguir manter os ânimos na lama para cantarem, era também o único modo de se manterem ali.

3. Se eu quero mudar o mundo… preciso entender que não há como fazê-lo sozinho

O ponto do capítulo em si não era sobre cantar na lama, por mais contraditório que isso soe. O ponto feito no capítulo é sobre cantar juntos. O que William expõe ali é que nenhum deles poderia passar por tamanha situação sozinhos. Reconhecer que estavam juntos e estarem dispostos a se ajudarem como uma equipe foi o que possibilitou que todos conseguissem enfrentar os desafios.

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