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Ana Rodrigues
Ana Rodrigues

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Enfrentar os medos e voltar a blogar

Uma versão deste post foi originalmente publicado a 14 de Novembro de 2018, em inglês, no meu blog pessoal. Esta é uma versão adaptada e traduzida.


Comecei a escrever para blogs há mais de 10 anos mas, infelizmente, parei por algum tempo quando comecei a trabalhar como web developer. Apesar de ter imensas ideias para postagens de blogs, eu estava com muito medo de ser julgada pelas minhas capacidades.

Recentemente, comecei a ver mais palestras e a ler posts em blogs que incentivaram-me imenso a voltar a escrever. Apesar disso tive que contornar alguns medos para conseguir novamente partilhar na comunidade.

As redes sociais e os blogs

As redes sociais são excelentes para abranger mais audiência e para criar oportunidades com colegas da industria mas teve um impacto altamente negativo nos blogs.

Afinal de contas, temos que nos perguntar: o que aconteceria se, de repente, o Twitter fosse completamente apagado? Ou se certas contas são, inesperadamente, suspensas? Ou se simplesmente vivemos num país que, inesperadamente, proíbe o acesso a essas redes sociais?

A realidade é que perderíamos para sempre conteúdo de extrema qualidade. Muitos pensamentos, dicas e conteúdo são partilhados em sites fora do nosso controlo.

Mas na realidade é mais fácil e rápido partilhar nas redes sociais. É também menos intimidante e o conteúdo que queremos ver está todo num local só.

Eu acredito que podemos ter ambos e não são mutualmente exclusivos. E não so a única: comunidades como a IndieWeb promovem o mesmo conceito.

Neste post quero tentar chegar às pessoas que gostariam de ter um blog mas que se sentem intimidadas ou sentem que é uma perda de tempo. Eu não acredito na ideia de que para alguém ter sucesso na sua carreira, é necessário ter um blog (ou ser muito presente nas redes sociais). Este post é para quem gostaria de tentar escrever mais mas que precisa de um pequeno incentivo.

O que é que me estava a impedir de blogar mais?

Encontrei um tweet que coloca em palavras de uma melhor forma do que eu poderia:

Tweet de Azeria:

"Recebo regularmente mensagens de pessoas com medo de publicar seu próprio blog técnico, porque têm medo de ser julgadas ou acham que as pessoas vão dizer que é inútil porque não é nada inovador ou de elite".

Eu queria partilhar o que sei sobre a web porque trabalhar para a web tornou-se a minha ocupação principal (cerca de 8 horas por dia).

Mas mesmo assim eu limitava-me porque eu achava que era muito júnior: qualquer coisa que eu dissesse, já todo o mundo sabia.

Então decidi fazer uma lista dos meus medos e pensei nas consequências.

Problema 1: "Todas as pessoas já sabem isto!"

Esse foi o primeiro pensamento que me passou pela cabeça sempre que eu pensava em escrever algo técnico no meu blog. A lista de pensamentos variava entre "todo o mundo já sabe isto" e "todas as pessoas vão criticar-me por escrever isto". Demorei muito tempo para contornar estes pensamentos, mas uma maneira que funcionou para mim foi abstrair-me do cenário (ou desse medo) e me perguntar-me: realisticamente, o que é que acontece quando eu estou à procura de alguma coisa num motor de pesquisa?

A resposta realista é: eu uso um motor de pesquisa, procuro o que preciso, abro 20 tabs, verifico cada tab e se não é a resposta que eu estou à procura, apenas fecho a tab e continuo com a minha vida.

Não há outra consequência. Eu não critico o autor do artigo, porque é que alguém haveria de, especificamente, criticar o meu artigo? Eu estava sempre a criar cenários na minha cabeça com situações que são improváveis de acontecer e isso impediu-me de escrever coisas que poderiam até ter sido úteis para outra pessoa.

Este conselho de Jeremy Keith para A Book Apart adiciona outro ponto importante:

Tweet de A Book Apart citando @adactio:

“Partilhe o que aprendeu. E o melhor momento para partilhar é quando você está a aprender. (Você terá uma voz na cabeça dizendo: 'Todo mundo já sabe disso'... ignore essa voz.)”

Não apenas isso, mas a tua voz interior, que está a aprender, é única e pessoas diferentes aprendem mais rapidamente com diferentes meios. Eu, por exemplo, tenho mais dificuldade em aprender quando vejo os tutoriais em vídeo. Se tudo lá fora fosse apenas vídeos, eu teria imensa dificuldade. Mas o seguinte tweet de Angie Jones explica muito melhor:

Tweet de Angie Jones:

“Se você pensou em escrever um post no blog, mas não o fez porque já estava escrito por outras pessoas, por favor, reconsidere. Estou à procura de um tutorial sobre um tópico e já fechei cerca de 5 deles até agora, porque o estilo deles não se encaixa na maneira como eu aprendo. Precisamos de opções 😊”

Problema 2: "Tenho ___ do meu conteúdo."

Perdi a conta de quantas vezes eu disse algo assim sobre algo que eu queria partilhar. Podemos substituir esse espaço por palavras como "tímida" ou "envergonhada".

Ironicamente, só tive estes pensamentos quando considerei partilhar algo não relacionado com a web, por exemplo, um post no blog sobre umas férias. Mas eu gosto de ler sobre isso no blog de outras pessoas. Se eu gosto de ler os posts de outras pessoas, porque é que sou tão crítica e insegura com os meus posts? E já que estou a tocar neste tópico, quem é que nos disse que desfrutar de algo não relacionado com tecnologia é mau?

A realidade é um pouco mais positiva do que aquilo que nosso cérebro nos leva a pensar. E, sendo realista, eu não recebo visitas suficientes no meu blog para justificar o medo de publicar qualquer coisa lá. É difícil, mas ajuda praticar as consequências realistas no nosso cérebro. Esses pensamentos, esses medos, surgem na nossa cabeça, e nós sabemos que esses pensamentos estão lá, e por isso conseguimos reconhecê-los. Se calhar, eles estão connosco como uma "habilidade de sobrevivência" e para alertar-nos sobre a pior consequência. Mas não devemos ignorá-los. Devemos trabalhar com eles.

Um dos meus medos é ver alguém a criticar a minhas habilidades em inglês e o meu português escrito. Nesse caso, tento usar os meus medos como uma ferramenta para tentar não publicar erros no meu blog. Não quero deixar que este medo me impeça de escrever. Eu quero usá-lo como um teste. Provavelmente, peço a algumas pessoas que revisem antes de publicar. Ou simplesmente aceito quando cometo erros e depois volto para corrigir. Afinal de contas somos todos humanos. O nossos medos fazem parte de quem nós somos e podemos utilizá-los para nosso benefício.

Problema 3: "Ninguém vai ler"

Eu recomendo tratar um blog como se fosse um passatempo. Se o teu passatempo é cozinhar, tu não estás à espera de ter uma audiência na tua cozinha sempre que estás a cozinhar, certo? Trata o teu blog da mesma maneira. Fazer algo para nós em vez de para os outros.

Problema 4: "Eu não tenho tempo para manter um blog"

Eu não vou mentir: provavelmente a tarefa mais consumidora de tempo seria configurar o blog em primeiro lugar (assumindo que é um blog hospedado e completamente criado de raiz). Mas depois disso, não há contrato para que alguém publique diariamente, semanalmente ou mensalmente. Da mesma forma que uma pessoa não sente pressão para publicar nas redes sociais (espero eu).

Problema 5: "É assustador"

É possível. Os blogs às vezes estão associados a diários escritos e à sensação de que, uma vez que algo é escrito, é para sempre. Partilhar nas redes sociais tem uma "sensação" de que a ação em si é mais leve e menos séria. Hoje em dia, grandes anúncios (geralmente más notícias) são partilhados nos blogs das empresas, enquanto que anúncios felizes são partilhados pelas redes sociais.

Dependendo de como uma pessoa gere o seu blog (se você possui um CMS ou não), pode precisar de um tempo extra para apagar algo que nos arrependemos de publicar. Não sou a melhor pessoa para dar conselhos, mas se existe algum medo, tem que explorar exatamente qual é esse medo e trabalhar nele. Em alturas de dúvida, podemos sempre escrever algo e manter no rascunho.

Eu partilho o medo de expôr o que sei (ou o que não sei) em frente aos colegas da comunidade. Eu tenho este medo em todos os formatos: blogs, palestras, apresentações e redes sociais. Mas na realidade, um dos cenário mais prováveis, é alguém corrigir algo e aprender algo.

Por onde começar?

Depois de ter reflectido nos meus medos comecei a sentir-me menos intimidada com a ideia de re-abrir o meu blog. E agora? Por onde eu começo?

Comunidade

As coisas estão a mudar, ou, como eu prefiro dizer, lentamente a voltar como eram. Partes da comunidade de tecnologia estão cada vez mais a reunir-se e a conversar mais sobre como possuir seu próprio conteúdo. Dois exemplos rápidos são a comunidade IndieWeb e a hashtag #newwwyear.

Descobri a IndieWeb há cerca de dois anos e encontrei uma comunidade que me ajudaria a começar a publicar novamente. Comecei a frequentar as meet-ups da HomeBrew Website Club e até participei do IndieWebCamp. A hashtag #newwwyear ainda tem um canal de slack, no qual qualquer pessoa pode fazer algumas perguntas ou obter feedback.

O que eu quero dizer é: a comunidade está aqui para todos. E ninguém está sozinho. Existem também grupos e iniciativas locais que ajudam iniciantes a programar.

Conectar com pessoas com os mesmos interesses

Há uns anos atrás, fui à View Source e vi a palestra de Jeremy Keith sobre a construção dos blocos da IndieWeb. Eu já tinha ouvido falar sobre a IndieWeb naquela altura, mas nunca tinha visto alguém no palco a falar mais sobre isso. Quando cheguei em casa, comecei a procurar e encontrei mais pessoas a falar sobre sobre blogs. Eu senti-me tão feliz! Eu também recomendo a palestra de Georgie Luhur Cooke com o título "Seu blog - o blog de todos os outros". Eu acho que esses dois vídeos juntos representam uma grande parte do que eu acredito. Esta parte está intimamente ligada a "encontrar uma comunidade". Quando finalmente tive a coragem de dizer "olá" a essas pessoas e conversar sobre o assunto, isso motivou-me imenso.

Existe muitas pessoas que querem motivar os colegas da industria a escrever mais (eu sendo uma delas). Eu recomendo encontrar um colega ou amigo que apoie. Melhor ainda, que seja uma pessoa que não se importe de rever posts antes de publicar.

Fazer a parte técnica

Em termos de tecnologia, isso não importa. Ninguém quer saber o que alguém usa para publicar um blog. Para mim, ter um página em HTML que tenha apenas links para outras páginas HTML conta muito. Seja qual for a plataforma que alguém escolhe para o seu blog é a escolha certa, porque é o caminho certo para essa pessoa e, nesse processo, apenas tu és importante.

Ninguém tem tempo para verificar a fonte de código e quase ninguém se importa. E se alguém inspeciona o código, provavelmente é porque está curioso para saber como o blog foi construído. Se calhar porque querem aprender algo.

Caso estejam curiosos em criar o vosso blog de raiz, eu recomendo visitar esta lista geradores de sites estáticos.

Não pense demasiado sobre o seu conteúdo

Muitas pessoas acreditam que não têm ideias para posts. No fim deste posts, eu recomendo outros posts escritos por outras pessoas com sugestões. Mas aqui estão algumas idéias: algo que aprendeu hoje, viagens, receitas, trabalho, pensamentos, “retrospectivas”, experiências, apenas fotos. TUDO É VÁLIDO.

Se estiverem a precisar de um empurrão extra, leiam este incrível artigo de Sara Soueidan chamado "Simplesmente escreva". Uma das melhores dicas que aprendi nesse post foi remover os scripts de contagem de tráfego e comentários do meu blog para não pensar demais nisso. Não saber se as pessoas visitam meu blog me faz-me sentir livre para ser eu mesma sem censura.

Escrevam algo quando tiveram um bom dia

Eu tenho dias maus com muita frequência e não os escolho. Às vezes digo a mim mesma: "Domingo de manhã, vou escrever um post sobre o que pensei no metro quando estava a ir para o trabalho", mas muitas vezes, quando acordo, o Domingo acaba sendo um dia não tão bom e acabo por não ter energia mental para escrever.

Eu acho que qualquer pessoa se consegue relacionar com isto se usar a idéia de "bloqueio de escritor". Sim, às vezes é bloqueio de escritor mas outras vezes, é minha própria saúde mental. O meu conselho é escrever algo, qualquer coisa, se tiveram um bom dia. Se estão a ter um "dia não tão bom", vai ser mais fácil editar um rascunho em vez de escrever do zero.

Quando tenho dias maus, sou desmotivada e sou o meu pior inimigo e maior crítico, então descobri que esta técnica ajudou-me um bocadinho mais.

Ficar à vontade com a própria voz

Algumas pessoas dizem que temos que "encontrar a nossa própria voz", mas não acho que seja a parte mais importante. Eu acredito que temos que nos sentir confortáveis ​​com a nossa própria voz.

Há algum tempo atrás, escrevi um rascunho e, quando o li novamente, não soava a nada que eu diria em pessoa. Eu odiei essa sensação. Eu estava a tentar soar a algo que eu não sou. Um dos meus pensamentos imediatos foi "se alguém próximo a mim lê isto, eles sabem que eu não falo assim" e fiquei envergonhada. Eu reescrevi. Agora, provavelmente, soa como uma conversa que alguém teria comigo no pub, mas vá, pelo menos é mais real.

Aceite o desafio

Tiveste um pensamento e começaste a escrever no Twitter, mas deste conta que não cabe em 280 caracteres? Se calhar então devia ser um post num blog. Se você achou que seria um bom tweet, vale a pena existir em outros lugares também.

Mas de volta ao blogs...

Há algum tempo atrás, encontrei o seguinte tweet:

Tweet de @HeyChelseaTroy:

“Criei um blog anos atrás para registrar o que aprendi sobre programação. À medida que avancei, as minhas postagens começaram a dar-me credibilidade com colegas de tecnologia que não conheço pessoalmente. Esse blog me deu uma voz de escritor. Mas também protegeu minha voz.

Eu acredito que devemos blogar porque queremos, não porque pensamos que devemos. Mas sim, enquanto fazemos isso, não podemos negar que algumas grandes consequências podem surgir (como o tweet acima aponta).

Os blogs podem:

  • Solidifique o que aprendemos;
  • Dar uma voz;
  • Criar confiança;

Bônus:

  • Pesquisável (não conseguimos encontrar conteúdo das redes sociais através da pesquisa nos motores de pesquisa);
  • Memórias que são nossas e estão no nosso controle;

Mas, o que também me ajudou...

Há algum tempo atrás, muitas pessoas da nossa comunidade não partilhavam muito coisa não relacionada com tecnologia. Mas foi a ler e a ver coisas não relacionadas com tecnologia publicadas por algumas pessoas que admiro na industria que me fizeram perceber que meus colegas não são máquinas de código / design. Mas são seres humanos como eu, que também têm dúvidas, medos, alegrias e experiências além do trabalho. Ler sobre como todos nós somos relacionáveis, mantém a comunidade ativa, promove a empatia e tenta eliminar a cultura do excesso de trabalho.

Ler mais

  1. IndieWeb
  2. Your "thread" should have been a blog post
  3. "Just write"
  4. StaticGen
  5. Jeremy Keith’s talk on building the blocks of the IndieWeb
  6. Georgie Luhur Cooke’s talk: Your blog ≠ everyone else’s blog
  7. 5 Reasons You Should Write That Blog Post
  8. A Starting Point for Writing Technical Blog Posts
  9. Welcome to 2019! You Should Write that Blog Post
  10. 7 Reasons to Panic When Writing a Tech Blog Post — and What to Do About It
  11. Some Unsolicited Blogging Advice
  12. Personal Blogs: Don't Call it a comeback!
  13. Personal websites are awesome!
  14. Ladybug podcast: Blogging 101
  15. Into the Personal-Website-Verse
  16. The Benefits of Owning a Personal Blog
  17. Tweet from Coraline Ada Ehmke
  18. Tweet from Charlotte

Top comments (3)

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raphaeldasilva profile image
Raphael da Silva • Edited

A realidade é um pouco mais positiva do que aquilo que nosso cérebro nos leva a pensar.

Isso é um trecho que se conecta com o que passei.

Desde 2015 eu escrevo para mim mesmo para fixar o conhecimento, em 2018 criei um blog para escrever publicamente, só que depois de criar o blog exclui ele meses depois, o motivo foram medos que geraram um receio de exposição.

Em 2019 eu retomei meu blog, nesse mês criei a conta aqui no Dev.to para compartilhar posts mais subjetivos.

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Ana Rodrigues

Recentemente fiz um post um pouco mais técnico e estive muito tempo ansiosa com medo de estar errada, do meu nome estar em todos em lado e de ser criticada. Na realidade, nada aconteceu. Tem algumas visitas sim mas... o meu maior receio não aconteceu.

"Exposição" é interessante. Às vezes penso "será que estou a publicar demasiado no twitter?" e é estranho como pensamos demasiado sobre a nossa imagem. Especialmente porque somos bastante críticos de nós mesmos.

Muito obrigada por partilhares.

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raphaeldasilva profile image
Raphael da Silva • Edited

Eu sempre penso que serei questionado de forma agressiva ao publicar e expor posts mais técnicos, sempre bate uma síndrome do impostor. A exposição no meu caso era um medo ligado a uma espécie de ansiedade, parece que tudo é uma tentativa de antecipação (ansiosa) da mente para antecipar ameaças.

Engraçado que isso não vem com a mesma intensidade em posts mais subjetivos, talvez porque ninguém pode questionar a trajetória mais pessoal e visões mais subjetivas de alguém, diferente do que acontece na parte mais técnica. Felizmente, as pessoas de programação que interagi até hoje foram muito solicitas e receptivas.

Obrigado por me responder.