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Helder S Ribeiro
Helder S Ribeiro

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A distância das letras

Por volta do ano 1000 da Era Comum, um rei inglês queria coletar mais impostos e resolveu fazer algo inédito (na Inglaterra pelo menos?): mandou gente para tudo quanto é buraco do país para registrar timtim por timtim quanta terra produtiva tinha, quantas pessoas, quantas cabras, ovelhas, arados, galinhas, porcos, e tudo o mais que pudesse ser de valor, e o que era de quem, para depois poder cobrar impostos em cima.

Registrou onde? Num livrão gigante (acho que era um só). O livro ainda existe, eu nunca vi foto, e como resolvi escrever tudo de cabeça sem consultar fontes nem nada, imagina um tomo de meio metro de altura de papel envelhecido com aquelas capas de couro e madeira.

Que valor tem o que é basicamente uma planilha velha nos dias de hoje? Muito valor! Até hoje antropólogos, historiadores, linguistas, economistas e estudiosos de todo tipo extraem desse livro informações sobre como era a sociedade na época, as origens de sobrenomes e palavras, o clima, e um sem número de outras curiosidades. É uma relíquia preciosíssima daquele país.

Aí por volta da virada do milênio atual, o governo inglês resolveu comemorar “o livro de mil anos” criando uma versão atual dele, registrando para os próximos mil anos detalhes que pintassem um quadro equivalente da Inglaterra dos anos 2000.

Só que nos anos 2000 a gente tem coisa melhor do que papel, tinta, madeira e couro né? Vamos fazer a parada em estilo: comissionaram um monte de gente pra desenvolver uma super cápsula do tempo digital, com hardware, sistema operacional, software e mídia de armazenamento de última geração!

Registraram um monte de dados sobre o país e, como cabe muito mais coisa numa mídia digital do que num livro, gravaram também relatos de gente comum do país inteiro sobre como eram suas vidas, etc.

Dezesseis anos depois, ninguém mais conseguia ler o Novo Livro Modernex de Mil Anos.

De-zes-seis.

Como isso minha gente??

Foi mais ou menos assim: a mídia que usaram (algum tipo de HD ou CD-ROM ou algo assim) não era mais vendida. Não tinha mais drive pra ler. Acharam um drive, mas não tinha mais driver. O computador pifou, e não vendia mais um igual e ninguém fabricava mais. Emularam o computador, mas o sistema operacional customizado bambambam estava no HD de um dos programadores, que era de uma empresa terceirizada que fez o projeto, depois faliu, e ninguém tinha mais cópia. O que sobrou foi um complicado e caríssimo tijolo com dados inescrutáveis.

Enquanto isso, em algum lugar, a velha planilha de papel seguia firme nos seus mil e poucos anos, legível por qualquer um com boa visão e conhecimento da caligrafia e linguagem da época.

Essa é uma história real e extrema que ilustra um problema enorme dos dias de hoje: a ameaça que os entendidos chamam de Idade das Trevas Digital (procure por Digital Dark Ages).

É extrema porque eles realmente se esforçaram para dar o maior tiro no próprio pé no menor tempo possível. Quem decidiu que fazer um sistema operacional customizado só pra isso era uma boa ideia?

Mas mesmo que você grave tudo em formatos livres, usando software livre, hardware livre, tudo documentado e replicável, imagina que um grupo de sobreviventes do apocalipse zumbi climático nuclear ache seu pen drive daqui cem anos.

Nele está guardado tudo o que eles precisam para reconstruir a civilização e pararem de morrer aos 20 anos de fome e cólera. O que eles fazem?

Simples: é só construir uma cadeia global de produção e comércio com mineração e refino avançado de dezenas de elementos químicos raros e fábricas de semicondutores em escala nanométrica. E reinventar não só toda a computação do zero mas reproduzir, bug por bug, exatamente os sistemas operacionais, programas e formatos necessários na combinação certa para ler aqueles arquivos específicos. Não basta só reinventar talvez até algo melhor, tem que fazer engenharia reversa e emular tudo igualzinho era antes.

Essa é a distância entre os seus olhos e as letras.

Pensa quanto tempo você precisa jogar Civilization pra chegar nesse ponto.

Basicamente todo o conhecimento gerado nas últimas cinco décadas (que é tipo 99% de todo o conhecimento da humanidade ever, pelo menos o científico) está guardado nesse fragilíssimo castelo de cartas digital, com a exceção de algumas cópias em papel de um bilionésimo de um bilionésimo da informação relevante, concentrados em duas dúzias de bibliotecas e museus nacionais espalhados pelo mundo (com sorte mais bem cuidados que o do Rio de Janeiro).

Papel rasga fácil, dá traça, mofa, é pesado, espaçoso, e tem uma atração obscena por fogo, mas quando ele sobrevive, o que ele tem a dizer está ali a um ricochete de fóton de distância do seu olho nu. Zero intermediários.

Por isso eu virei um arquivista amador e estou fazendo um bunker epistemológico de papel. Eu dou preferência a livros que ajudem a construir, refutar ou validar conhecimento, em vez de os que só registram o que já foi descoberto sem descrever como redescobri-los do zero. Mas qualquer coisa que você achar importante vale. Compre livros, presenteie livros, guarde e preserve livros, mesmo os que você nunca vai ter tempo de ler na vida. (Se você quiser.)

Pode não ser um apocalipse. Pode ser uma Revolução Iraniana, uma caça às bruxas, ou o Jeff Bezos deletando remotamente cópias de 1984 dos Kindles de todo mundo contra sua vontade (aconteceu). Algum dia, em algum lugar, alguém pode te agradecer ao encontrar a última cópia sobrevivente no formato mais resiliente e visível a olho nu já inventado pela humanidade.

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