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Isaque Hernandes
Isaque Hernandes

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O que ninguém te conta sobre ser dev em startup

Já li muita coisa sobre trabalhar em startup, mas vejo que é comum cair no extremismo. De um lado o sonho de crescimento acelerado e ficar rico da noite pro dia. Do outro lado exploração disfarçada de oportunidade, burnout e desilusão. Depois de 5 anos nesse mundo, posso dizer que há um pouco de tudo. Sim, os extremos acontecem, mas boa parte do tempo é algo mais equilibrado do que isso.

Essa publicação visa compartilhar pontos que acredito que são centrais sobre a experiência de trabalhar em startups partindo de um relato de quem os viveu. Obviamente o que falarei aqui é um recorte, logo muitos tópicos ficaram de fora e também os presentes são resumidos. Se você se interessa pelo assunto ou tem curiosidade, espero que goste!

Nem sempre vai ser de 9h às 18h

Para abrir com chave de ouro, vale falar sobre a carga de trabalho. Vejo amigos meus que trabalham em empresas grandes batendo ponto e com rotinas bem regradas no trabalho. Nas empresas em que trabalhei era comum ir até mais tarde e volta e meia trabalhar no final de semana porque surgiu algo urgente ou alguma demanda importante está atrasada. Claro que isso não é uma regra geral, mas dado a natureza de uma startup, de ter poucos funcionários e muito a se fazer, é comum que isso aconteça.

Lembro de um caso em especial. Estava trabalhando em um projeto que era um ponto chave para a monetização da empresa. A cada novo dia do projeto em andamento eu sentia mais e mais a pressão para ele ser entregue. Era acordar, ir para o computador, almoçar no computador, jantar no computador e ir dormir tarde da noite para repetir a mesma rotina no dia seguinte. No fim o projeto foi para o ar, deu certo e ganhei um aumento poucos meses depois, mas foram bons dias nesse ritmo. Já teve caso de projetos que foram semanas assim, incluindo trabalho em final de semana.

Esse trabalho intenso de startup na minha carreira me criou uma boa casca, para lidar com situações variadas. Mas sei que não é algo que funciona para todos. Em especial o exemplo citado foi quando estava no começo da carreira, e me proporcionou boas coisas. Até hoje eu encaro de boa esse tipo de situação. Tem seus bons estresses, mas no fim entendo que faz parte desse tipo de negócio.

Mudança de prioridades é comum

Em empresas mais organizadas você terá um processo claro do que será feito nas próximas semanas ou meses. Nas startups que trabalhei levou bastante tempo para chegar a esse ponto e ainda sim com o CEO e o time de produto tentam volta e meia burlar isso, passando algo na frente.

Startups são mais voláteis e isso obviamente vai se refletir no fluxo de tarefas. É comum cenários que você inicia a semana com tarefa A e B para fazer. No início da semana algum cliente faz um pedido de mudança, levando você a pausar a tarefa A e focar em uma nova tarefa C. Pelo fim da semana a tarefa B é despriorizada e você termina a semana com a tarefa C e meia tarefa A concluídas. Em startups o foco é no problema de agora. Se o cliente importante pediu uma mudança, esperar uma semana pode significar perder o cliente. Se o CEO viu uma oportunidade de mercado, não vai esperar dias porque a tarefa "mudar a cor do botão de azul para verde" está em andamento.

Para mim isso já teve seus momentos bons e ruins. Já fiquei bem irritado quando me sentia igual uma bolinha de ping pong sendo jogado de tarefa em tarefa. Porém também teve boas vezes que agradeci a mudança de direção. No fim boa parte dos casos o motivo por trás era devido a demandas realmente importantes e alguns casos, claro, apenas falta de planejamento mesmo.

Você assume áreas/projetos inteiros sozinho ou com pouco suporte

Em empresas médias ou grandes em que você tem um time com vários profissionais e é comum ter uma divisão clara de responsabilidades. Claro que sempre tem algumas pessoas que transitam entre áreas. Porém, quando você tem bem poucas pessoas no time de TI, você não pode se dar ao luxo de não fazer X. A demanda chegou, entende, aprende e faz.

Uma das startups que trabalhei, eu cheguei bem no início, nos primeiros 6 meses. Tinha muita coisa para fazer e 4 devs no time. Nessa empresa eu fiz de tudo um pouco, backend, frontend, mobile, devOps, debater o produto com o CEO, entre outras coisas. Entrei como mais um dev e terminei como responsável por toda plataforma web.

Quando entrei nessa empresa o App era o único produto, a web era apenas uma landing page. Após alguns meses na empresa e bastante estudo por fora de frontend, resolvi sugerir ao CEO dar atenção a plataforma web. O CEO gostou da ideia e fiquei responsável por criar a plataforma web do zero. Ela deveria ter paridade com o App em features, ter suporte a 6 idiomas e ser otimizado para SEO. Foi um projeto e tanto. O planejamento técnico, escolha de stack, desenvolvimento e sucesso técnico do projeto estava todo em minhas mãos. No fim deu certo. Naquela época eu tinha a documentação do NextJS toda na cabeça de tanto lê-la. Descobri até uns bons edge cases dele e como fazer algumas gambiarras marotas.

Proximidade com decisores

Você vai ter muita proximidade da diretoria, CEO e todos do C level. Não é algo como ir almoçar com o chefe e falar sobre o Mengão, mas ele vai te conhecer diretamente. Se a empresa tiver estilo mais vertical, o CTO vai ser seu chefe direto ou no máximo terá um tech lead entre você e ele. Se a empresa for mais horizontal, não é raro o CEO ser o seu chefe direto.

Isso significa que você erra e acerta em público. Não tem camadas e camadas que absorvem os acontecimentos. O CEO eventualmente vai saber que foi você o cara que carregou o projeto X nas costas, bem como também vai saber que foi você que introduziu o bug Y no ar. Na minha experiência isso foi um ponto chave para conseguir me destacar e ter promoções. Claro que fiz minhas boas cagadas, mas no geral ter visibilidade ajuda bastante se você faz um bom trabalho.

Falando além do dia a dia técnico em si, essa proximidade também te faz entender melhor como um negócio acontece por baixo dos panos. Em startups é comum você ver o CEO discutindo com a pessoa de produto durante o dia, ver a diretora de marketing conversando com o time e planejando a próxima campanha, o time de suporte atendendo telefone de cliente reclamando. Já ocorreu boas vezes comigo da pessoa de produto vir conversar para a gente debater algum produto novo, de participar de reuniões de vendas e ver ao vivo o CEO apresentando com todo primor seu pit de vendas. São pontos bem interessantes se você almeja aprender coisas diferentes que dificilmente teria oportunidade em empresas maiores.

Conclusão

Startup tem suas particularidades, mas no fim do dia é um trabalho como qualquer outro. Tem seus bons, ótimos e péssimos momentos. Nessa jornada até aqui tive a oportunidade de trabalhar em projetos incríveis, aprendi muita coisa, tive boas noites mal dormidas e bons momentos de estresse. Na minha experiência nunca trabalhei em um lugar como os exemplos absurdos que se vê por aí, positivos ou negativos.

Eu não sou o bastião das startups, logo a sua experiência pode e vai ser diferente. É apenas um relato sincero e bem resumido dos meus anos trabalhando nesse meio.

Se tiver algo que gostaria de acrescentar ou se quer trocar uma ideia, não deixe de comentar ou me mandar uma mensagem.

Obrigado pelo seu tempo e até uma próxima que espero ser em breve!

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