DEV Community

Cover image for O que é Gemba? E como aplicar em times de DevOps remotos
Luis Cruz
Luis Cruz

Posted on • Edited on

O que é Gemba? E como aplicar em times de DevOps remotos

Gemba (現場) é um termo japonês que significa, literalmente, "o lugar real" ou "onde as coisas acontecem". Popularizado pelo Lean Manufacturing, o conceito é simples: para entender um problema de verdade, você precisa ir até onde ele acontece, não confiar apenas em relatórios ou reuniões.

Mas o que isso tem a ver com times de DevOps, engenharia de software e ambientes remotos? Muito mais do que parece.


O que é Lean?

Antes de aprofundar no Gemba, vale contextualizar: o Lean (também chamado de Lean Thinking ou Mentalidade Enxuta) é uma filosofia de gestão originada na Toyota que busca maximizar valor e eliminar desperdícios em processos. Nos últimos anos, seus princípios migraram da manufatura para times de tecnologia — e se tornaram base de frameworks como DevOps, Agile e SRE.

O Gemba é um dos pilares práticos do Lean.


O conceito de Gemba

No contexto empresarial, o Gemba é o local onde o valor é criado:

  • Em uma fábrica → o chão de produção
  • Em uma empresa de software → onde os desenvolvedores codificam e operam sistemas
  • Em uma loja de varejo → o piso de atendimento ao cliente

A filosofia incentiva líderes e gestores a irem até esse local para:

  • Observar os processos diretamente
  • Identificar problemas reais, não apenas dados em relatórios
  • Ouvir os colaboradores que estão na linha de frente
  • Tomar decisões baseadas em fatos, não em suposições

Gemba Walk

O conceito associado mais conhecido é o Gemba Walk — uma visita estruturada ao local de trabalho com o objetivo de:

  • Entender o fluxo de trabalho real
  • Detectar desperdícios ou gargalos
  • Promover a melhoria contínua (Kaizen)
  • Fortalecer o relacionamento entre gestão e equipe

Importante: o Gemba Walk não é uma auditoria ou fiscalização. É uma oportunidade de aprendizado mútuo — a ideia é entender, não julgar.


Princípios de uma boa prática de Gemba

Princípio Como aplicar
Ir ao Gemba Visite o local real com frequência, sem intermediários
Observar com propósito Veja como o trabalho realmente é feito, não como deveria ser
Fazer perguntas Entenda os "porquês" por trás dos processos
Ouvir os colaboradores Eles conhecem os desafios diários melhor que qualquer relatório
Agir com respeito A ideia é aprender, nunca expor ou pressionar
Promover melhorias Use os insights para implementar melhorias sustentáveis

Benefícios do Gemba

  • Aumento da eficiência operacional
  • Redução de desperdícios no fluxo de trabalho
  • Maior engajamento e confiança da equipe
  • Tomada de decisão mais assertiva e baseada em fatos
  • Cultura de melhoria contínua enraizada no dia a dia

Como aplicar Gemba e Lean com trabalho remoto e times distribuídos

Essa é a pergunta prática: como ir ao "lugar real" quando o time está espalhado em fusos diferentes?

A resposta é que o Gemba não precisa ser físico — ele precisa ser real. Em times remotos, o Gemba é o espaço digital onde o trabalho acontece.

Redefinindo o Gemba no remoto

O "lugar real" de um time de tecnologia remoto está em:

  1. Repositórios de código — GitHub, GitLab (onde o trabalho é registrado)
  2. Sistemas de tickets — Jira, Linear, ServiceNow (onde o fluxo é visível)
  3. Dashboards de observabilidade — Grafana, Prometheus, Datadog (onde os problemas aparecem)
  4. Ferramentas de colaboração — Slack, Teams, Confluence (onde as decisões acontecem)
  5. Pipelines de CI/CD — onde o valor chega ao cliente

Fazendo Gemba Walks digitais

Ação Como adaptar no remoto
Observar o trabalho em tempo real Sessões de pair programming, compartilhamento de tela, gravações de Loom
Fazer perguntas abertas Check-ins por vídeo ou threads assíncronas no Slack/Teams
Identificar desperdícios Analisar tempo de espera em PRs, filas de aprovação, lead time no Jira
Documentar aprendizados Logs de Gemba Walks no Confluence ou Notion

Aplicando Lean no remoto

Mapeie o fluxo de valor digital (Value Stream Mapping)

Entenda todas as etapas entre a demanda e a entrega. Exemplo em infraestrutura:

Solicitação → Escrita do Terraform → Code Review → CI/CD → Validação → Deploy → Monitoramento
Enter fullscreen mode Exit fullscreen mode

Cada etapa pode ter desperdícios escondidos — tempo de espera, retrabalho, falta de clareza.

Identifique desperdícios remotos

  • Espera por aprovações manuais
  • Retrabalho por requisitos mal definidos
  • Sobrecarga por excesso de reuniões
  • Falta de visibilidade do progresso para o time

Estimule o Kaizen remoto

  • Faça retrospectivas Lean curtas e frequentes (não apenas no fim do sprint)
  • Capture ideias de melhoria em murais colaborativos (Miro, FigJam)
  • Implemente pequenas melhorias rápidas e meça os resultados antes de escalar

Ferramentas para suportar Lean + Gemba em times remotos

Categoria Ferramentas
Gestão visual (Kanban) Trello, Jira, Linear, Asana
Automação e fluxo GitHub Actions, GitLab CI/CD, Jenkins
Observabilidade Grafana, Prometheus, Datadog, New Relic
Colaboração Slack, Zoom, Teams
Documentação de Gemba Walks Confluence, Notion

Exemplo prático: Gemba em uma equipe de DevOps remota

Problema identificado Gemba Walk digital Ação Lean
Demora no provisionamento de VMs Acompanhar fluxo no Terraform + GitLab CI com a equipe Automatizar aprovações com policy as code
Incidentes frequentes em produção Analisar logs no Grafana + entrevistar o on-call Criar runbooks e alertas mais precisos
Backlog sem clareza Revisitar o Jira ao vivo com o time Definir Definition of Ready para cada ticket

Conclusão

O Gemba não é um conceito preso em fábricas japonesas dos anos 1950. É uma mentalidade que permanece relevante em qualquer contexto onde haja trabalho real acontecendo — incluindo times de DevOps, engenharia de plataforma e operações em nuvem.

A chave está em fazer a pergunta certa: onde, de fato, o trabalho acontece no nosso time? E depois ir lá — seja fisicamente ou digitalmente — para observar, ouvir e melhorar de forma contínua.


Referências

Em inglês:

Em português:

Top comments (0)