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Ricardo Mello
Ricardo Mello

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O código não se tornou commodity após a AI. Ele sempre foi

Recentemente eu li algumas notícias apocalípticas sobre a profissão de desenvolvimento após o advento da AI, como esse post do Chris Messina dizendo que código se tornou uma commodity, ou o CEO da Microsoft AI dizendo nesse artigo da Fortune que dá 18 meses pra automatizar todas as profissões de colarinho branco, incluindo a nossa.

Não adianta, basta surgir uma tecnologia disruptiva que os profetas do apocalipse e a galera do hype surgem em pé de guerra. Na prática, toda ferramenta que reduz fricção na criação de software gera um certo pânico no mercado, mas depois vira uma infraestrutura invisível.

O mercado de tecnologia é feito de ciclos, e quem tá nessa há mais tempo sabe bem do que eu estou falando. Delphi, Visual Basic, Dreamweaver, WordPress, low-code, no-code... Todos eles prometeram a mesma coisa: permitir que um único desenvolvedor faça o trabalho de um time inteiro.

E aqui estamos, 20 anos depois, ouvindo a mesma história de novo.

A commodity código

Um dos exemplos mais conhecidos sobre comoditização é o sal, que era considerado um artigo precioso, causou guerras e ergueu impérios, mas hoje é baratinho no mercado e qualquer um pode comprar.

O sal se tornou barato, mas cozinhar não se tornou uma commodity. A skill de saber o que fazer com os ingredientes é o que realmente importa.

O código sempre foi algo básico. Qualquer aluno de primeiro período de faculdade ou de curso técnico consegue criar instruções básicas, rodar um algoritmo e criar um software pequeno. Eu programava desde os treze anos de idade, enquanto meu irmão mais novo o faz desde os oito.

Engenheiros, por exemplo, já usam o tal "disposable software" há muito tempo, criando algoritmos pra resolver cálculos quando o matlab não consegue. Pessoas criavam sistemas inteiros na década de 90 usando MS Access, Delphi, VB e similares.

O que mudou de lá pra cá foi que software se tornou algo muito complexo, e na maioria das vezes um complexo totalmente desnecessário.

O que a IA realmente reduziu foi o custo da produção de código sintático, como boilerplates. O custo de decisão arquitetural continua o mesmo, senão maior.

Os vendedores de complexidade

Eu nunca escrevi aplicações em Ruby, mas tive que ver esse keynote do DHH na RubyConf onde ele mencionou um termo que eu achei sensacional: "merchants of complexity".

Desenvolver código se tornou algo muito complicado e a culpa também é nossa. Muitas empresas acham que precisam separar frontend e backend porque todo mundo tá fazendo e elas não querem ficar pra trás. Isso faz algumas empresas precisarem de um arquiteto, 2 devs backend, 1 dev frontend, DevOps, dois ciclos de QA, PM, entre outros, pra subir uma tela de login básica em 3 meses pra um volume ridículo de usuários.

Se os LLMs vão mudar isso? Com certeza vão, mas não é o fim do mundo.

As mesmas empresas que criaram essa complexidade desnecessária agora estão vendendo a solução. Enquanto o Suleyman disse que vai automatizar tudo em um ano e meio, o mesmo artigo da Fortune traz um estudo da METR que diz que a AI está causando o efeito contrário e deixando os devs 20% mais lentos. Na prática são executivos vendendo um produto. A Borland fez isso com o Delphi, enquanto a Microsoft fez a mesma coisa com o VB.

O que não é commodity

Se código sempre foi commodity, o que não é commodity de fato?

Saber o que fazer, por que fazer, e como fazer isso sobreviver em produção no longo prazo.

A AI pode criar o melhor código pra uma situação, quando na verdade a decisão deveria ter sido remover aquele código, ou em outro cenário ela pode criar uma implementação redundante que vai causar gargalos de desempenho em produção.

Mesmo um dev senior usando AI precisa de julgamento técnico pra tomar as decisões certas. Ela não conhece todas as suas regras de negócio, seus SLAs, ou por que aquele "refactoring bobo" vai quebrar três outros serviços. Nunca foi sobre code vs no-code, mas ser um dev ou um mero digitador.

Um novo ciclo

Devs generalistas vão ascender e ter novamente a possibilidade de criar software em escala para problemas reais, enquanto devs backend que não fazem a mínima ideia de como funciona a aplicação pra qual eles criam APIs, ou devs frontend que não sabem o básico de como o backend funciona vão perder espaço. Um dev fullstack usando Claude Code ou Cursor consegue prototipar em dias (ou horas) o que antes precisava de um squad inteiro durante semanas.

Eu enxergo essas mudanças como o início de um novo ciclo, onde saber fazer código não é o suficiente. Mas pra mim e pra vários desenvolvedores do mercado, nunca foi. A nossa profissão sempre foi mais intelectual do que braçal e isso meus amigos, não é commodity.

Eu uso LLMs diariamente e realmente enxergo a AI como uma ferramenta poderosa para potencializar o desenvolvimento de aplicações por parte de desenvolvedores que levam ao mercado a sério. Porém, eu enxergo esta mesma AI como uma bomba nas mãos de quem não entende os conceitos básicos de desenvolvimento de software. Simplesmente porque quando a gente atinge o limite de até onde ela consegue ir, é o primeiro grupo que vai saber o que fazer, enquanto o segundo vai precisar abrir um ticket de suporte no lovable.

Então basicamente o que está acontecendo não é uma desvalorização acentuada do código ou da profissão de desenvolvedor, mas um novo ciclo que está começando seguindo os mesmos princípios que já vivemos antes. Essa ferramenta é mais poderosa do que todas as outras, mas todas as outras também foram as mais poderosas de suas épocas.

Se você sobreviveu ao Delphi, ao jQuery, ao Angular 1 vs 2 (ou ao React), ao hype do blockchain, você vai sobreviver a esse também.

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