O que o psicólogo pode (e não pode) publicar sobre o próprio trabalho
O elogio que não pode ir ao ar
Um paciente manda uma mensagem depois de uma sessão difícil. "Você mudou a minha vida." Está escrito por conta própria, com nome, pronto para uma peça do Instagram.
Essa peça não pode ser publicada. Não porque falte qualidade, nem porque o elogio pareça falso. O Conselho Federal de Psicologia trata depoimento de paciente como risco mesmo quando é verdadeiro, mesmo quando a pessoa autorizaria por escrito se fosse perguntada.
A regra não nasceu em 2022. Vem se somando desde 2005, numa sequência de normas em que nenhuma revogou a anterior: o Código de Ética de 2005, a consolidação de 2007, o direito ao nome social em 2018 e a nota técnica de 2022 que estendeu tudo isso às redes sociais. Uma peça publicada hoje responde pelas cinco ao mesmo tempo.
O que pode ser divulgado, e como
Formação, público atendido, abordagem teórica e metodologia de trabalho podem aparecer, desde que toda peça traga nome completo (ou nome social), a palavra "psicólogo" e o número do CRP. Isso vale para site, perfil de rede social, cartão e qualquer outro formato, sem exceção.
A regra é avaliada peça a peça, não pelo perfil inteiro. Uma clínica com vários psicólogos e um único Instagram erra exatamente aqui: a bio identifica a marca, mas cada post que fala do trabalho de uma psicóloga específica precisa trazer o nome e o CRP dela, não só uma vez em algum lugar do perfil.
As sete vedações do artigo 56
O Código de Ética lista, desde 2007, o que nenhuma peça pode conter: previsão de resultado, técnica sem comprovação científica, atividade fora da função do psicólogo, honorário usado como concorrência desleal, autopromoção em detrimento de colega, invasão de outra área profissional e conteúdo falso ou sensacionalista.
Quase todo conteúdo popular sobre "o que psicólogo pode postar" fala só de depoimento e de preço. As outras quatro vedações raramente aparecem, e são justamente as que mais faltam nas listas de marketing escritas por quem nunca abriu a resolução.
Por que nem o consentimento resolve
Aqui está o ponto que mais surpreende quem só leu um resumo da norma. Mesmo com consentimento expresso e por escrito, a orientação de 2022 é não usar depoimento nem foto de paciente. Ela não proíbe de forma terminante. Desaconselha, porque o risco de exposição continua existindo depois que a pessoa autorizou, sobretudo quando se trata de criança ou adolescente.
Um paciente que autoriza por escrito não torna a publicação recomendada. A nota técnica separa "permitido" de "recomendado": tecnicamente permitido, mas desaconselhado pelo risco de exposição da pessoa atendida. E a representação ética não depende de o paciente se incomodar depois. Qualquer um pode representar contra a peça, inclusive um terceiro que nunca teve relação com aquele atendimento.
O médico, pela mesma situação, segue outra régua. A resolução do CFM de 2023 passou a permitir elogio espontâneo e sóbrio, sem promessa. Dois conselhos de saúde, o mesmo tipo de conteúdo, calibração de risco oposta. Copiar a norma de uma profissão regulada para outra vizinha, mesmo as duas em área de saúde, é o erro mais fácil de cometer.
Preço como propaganda, não como informação
A nota técnica de 2022 veda termos como "preço social", "desconto", "pacote promocional", cupom e sorteio. Convênio com instituição e trabalho voluntário continuam liberados, desde que o voluntariado não seja usado como isca de captação.
A linha não está em mencionar valor, está no enquadramento. Uma peça que informa, de forma neutra, quanto custa a sessão não vira irregular só por citar número. O que muda de categoria é apresentar o preço como vantagem comercial, comparado com o de outro profissional ou amarrado a prazo de validade.
Quem responde quando a peça nasce em outro lugar
Terceirizar a redação não terceiriza a responsabilidade. Mesmo quando a divulgação é feita com apoio de agência, plataforma ou ferramenta de inteligência artificial, continua sendo dever do psicólogo verificar se o conteúdo cumpre a norma antes de publicar. Ele responde pela peça mesmo sem ter escrito uma linha dela.
Isso já apareceu, fora da psicologia, de um jeito concreto. Um texto explicando oito condições clínicas foi escrito para o site de uma profissional de área regulada, em tom informativo, sem promessa de resultado, com aviso de que não substituía consulta. Mesmo assim, foi entregue marcado como pendente de revisão e aprovação dela, antes de qualquer publicação, porque era conteúdo técnico de uma profissão com conselho. Quem assina o registro responde por ele, não quem redigiu o rascunho.
O que sobra, na prática
Depois de tirar depoimento, preço como propaganda, previsão de resultado e autopromoção, ainda sobra bastante espaço. Formação, abordagem, metodologia, público atendido e conteúdo educativo sobre a ciência psicológica seguem liberados, e são, na prática, o que sustenta a maior parte de um perfil profissional sério.
O que muda o centro de gravidade de uma peça é o fechamento. "Ansiedade tem tratamento, e a abordagem que eu uso trabalha o pensamento automático por trás da crise" informa. A mesma frase, fechada com uma chamada direta para marcar sessão, muda de categoria e entra na régua inteira da publicidade.
This article is a condensed version of a deeper analysis I published at https://chipak.com.br/artigos/o-psicologo-nao-pode-publicar-nem-o-elogio-do-paciente
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