A menina que atravessou a cidade
Enedina nasceu em Curitiba, em 13 de janeiro de 1913. Filha de Paulo Marques e Virgínia Alves Marques, veio ao mundo num Brasil que tinha abolido a escravidão havia apenas 25 anos. A mãe trabalhava como doméstica; o pai fazia pequenos serviços. A casa era pobre. Quando os pais se separaram, a mãe foi trabalhar na casa do major e delegado Domingos Nascimento Sobrinho.
Enedina cresceu perto dessa família, mas não como filha adotiva. Cresceu como filha da empregada. Ainda assim, como tinha idade próxima da filha do major, estudou na mesma escola particular que ela. Foi ali que aprendeu uma lição que carregaria para sempre: conhecer o mundo dos ricos não é o mesmo que pertencer a ele.
Depois veio o curso normal, a formação de professora. Enedina dava aulas. Mais tarde foi morar com a família do construtor Mathias Caron, ajudando nos serviços domésticos e cuidando da filha do casal em troca de moradia. Foi nesse ambiente que viu de perto a construção civil — canteiros, plantas, obras — e decidiu que queria engenharia. Não era um caminho para menina pobre, muito menos para mulher negra. Mas ela fez o cursinho, pagou como pôde e entrou na Universidade Federal do Paraná.
Na turma, era a única mulher e a única pessoa negra. Enfrentou perseguição de professores, reprovações e obstáculos que não eram técnicos: eram racismo e sexismo. Levou seis anos para concluir um curso de cinco. Formou-se em 1945. Tornou-se a primeira engenheira civil negra do Brasil.
Depois, trabalhou no serviço público, na Secretaria de Viação e Obras. Passou por obras como a Usina Capivari-Cachoeira. Numa obra, precisou impor respeito num ambiente feito para homens. Não fundou construtora, não administrou contratos privados, não herdou terras nem empresas. Fez carreira pública.
E é aqui que a história responde à sua pergunta: por que ela não ficou rica?
Porque, naquele Brasil, riqueza vinha de herança, propriedade, empresa e redes familiares. Enedina tinha competência, não capital. A proximidade com famílias ricas lhe deu escola, contato e visão de mundo — não lhe deu herança. O racismo e o sexismo cobraram pedágio em cada etapa. E o salário público, mesmo bom, não constrói fortuna de elite.
Ela ascendeu. Teve apartamento, viajou, aposentou-se em 1962 com proventos equiparados aos de um juiz, em reconhecimento aos serviços prestados. Morreu em 1981, com dignidade profissional. Mas não morreu rica no sentido de grande patrimônio. Morreu respeitada.
Para a família, a história não é a de quem enriqueceu. É a de quem atravessou. Se você descende dos irmãos dela, você carrega essa memória por linha colateral: a menina que estudou ao lado dos filhos da elite sem pertencer à elite, e que mesmo assim abriu uma porta que estava fechada para todo mundo que se parecia com ela.
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