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Matheus de Camargo Marques
Matheus de Camargo Marques

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Eu não fui votar no primeiro turno.

Eu não fui votar no primeiro turno. Não por descrença na democracia, mas porque precisava de um tempo para processar tudo o que aconteceu nos últimos anos — a pandemia, o desmonte de políticas públicas, o ataque às instituições em 8 de janeiro de 2023, a fome voltando a assombrar o país. Mas depois de ver o que está em jogo neste segundo turno, tenho clareza: meu voto será no Lula.

Não se trata de um voto apaixonado, mas de um voto consciente. Trata-se de escolher entre um projeto de país que volta a investir em quem mais precisa e outro que flerta com o autoritarismo e com práticas que já mostraram a que vieram. Este artigo é minha justificativa — e um convite à reflexão.

As conquistas dos últimos anos: o que Lula reconstruiu desde 2023

Lula assumiu em 1º de janeiro de 2023 um país devastado. Instituições sob ataque, políticas públicas desmontadas, fome de volta. Em três anos de gestão, os números mostram uma recuperação concreta.

Entre 2023 e 2024, 26,5 milhões de pessoas saíram da fome, e o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da ONU — uma conquista que parecia distante no fim do governo anterior. No mesmo período, 8,7 milhões de brasileiros saíram da pobreza e 3,1 milhões da extrema pobreza. A pobreza caiu de 31,6% para 27,4% da população, e a extrema pobreza atingiu o menor índice da série histórica: 4,4%.

O desemprego caiu para 5,4% entre novembro de 2025 e janeiro de 2026 — o menor patamar da história, com 102,5 milhões de brasileiros ocupados. A renda média do trabalhador cresceu quase 10% em termos reais, e o PIB cresceu 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024, colocando o Brasil novamente entre as dez maiores economias do mundo.

Na saúde, foram mais de 14,5 milhões de cirurgias eletivas pelo SUS em 2025, um aumento de 37% em relação a 2022. O programa Mais Médicos ampliou o atendimento para 27 milhões de pessoas. Na educação, 2.972 novas escolas e 3.707 creches foram construídas, com R$ 24,2 bilhões investidos. O Minha Casa Minha Vida atingiu a meta de 2 milhões de moradias contratadas.

Além disso, a isenção do Imposto de Renda foi ampliada, tornando a tributação mais justa para os mais pobres, e o programa Desenrola Brasil ajudou milhões de endividados a renegociarem suas dívidas. O Bolsa Família foi reestruturado e atingiu 20,86 milhões de famílias em 2024.

Como era o Brasil antes do PT: o retrato de um país desigual

Para entender a importância dessas conquistas, é preciso lembrar como era o Brasil antes dos governos do PT. Em 2002, ano da primeira eleição de Lula, o país vivia sob a sombra de uma crise econômica profunda. A inflação acumulada em 2002 foi de 12,5%, e a taxa de desemprego nas regiões metropolitanas girava em torno de 13%. A taxa Selic chegou a 23% ao ano, e o Brasil era um dos países com os juros reais mais altos do mundo.

A desigualdade era estrutural. Em 2001, o índice de Gini do Brasil era de 0,594, um dos mais altos do planeta — o país era frequentemente citado como a nação mais desigual da Terra. Cerca de um terço da população vivia em estado de pobreza nos anos 1990. A renda do trabalho correspondia a apenas 39% da renda nacional, e o crescimento econômico era medíocre: entre 1994 e 2002, o PIB cresceu em média apenas 2,2% ao ano, enquanto a dívida pública aumentava mais de dez vezes.

Foi nesse cenário que Lula foi eleito em 2002 com 61,27% dos votos no segundo turno. A partir de 2003, o país iniciou um ciclo de redução da desigualdade que durou mais de uma década. Programas como o Bolsa Família, o aumento real do salário mínimo e a expansão do crédito popular tiraram cerca de 20 milhões de pessoas da pobreza entre 2003 e 2010.

O “plano maligno” de Flávio Bolsonaro: a saúde como negócio

Agora, o que está em jogo neste segundo turno é também o projeto de Flávio Bolsonaro para a saúde pública. E aqui, os sinais são alarmantes.

Durante o governo de seu pai, Flávio Bolsonaro não tinha cargo oficial, mas exerceu forte influência política nos hospitais federais do Rio de Janeiro entre 2019 e 2022. Gestores, ex-gestores, parlamentares e servidores ouvidos pela Agência Pública descrevem um esquema de indicações políticas e contratos suspeitos. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, chamou Flávio de “o poderoso chefão” dos hospitais federais, afirmando que “passava por ele a indicação de quem seria diretor e todas as decisões relacionadas a hospitais e contratos”.

O deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ) foi ainda mais direto: acusou Flávio de ter liderado um esquema de corrupção nos hospitais federais do Rio, afirmando que “toda a estrutura de poder e de indicação política, e as empresas que participariam de licitações, que ganhariam ou perderiam, tudo isso estava dentro do grupo cuja cabeça era o senador Flávio Bolsonaro”.

Em 2024, já como senador, Flávio destinou R$ 3,1 milhões para a atenção básica de saúde em Mesquita, na Baixada Fluminense. Desse total, R$ 666 mil foram pagos ao Instituto de Medicina e Projeto (IMP) — uma entidade que a Receita Federal classificou como “inexistente de fato”, com indícios de ter sido criada para prática de fraude fiscal. O Tribunal de Contas do Estado do Rio investiga o instituto, e o processo registra que uma das pessoas que assinavam documentos do IMP já estava morta desde 2017.

A lógica é clara: trata-se de transformar a saúde pública em um balcão de negócios, com entidades fantasmas, contratos superfaturados e indicações políticas. Se esse modelo fosse levado para o país inteiro, seria o fim do SUS como o conhecemos — um sistema que atende milhões de brasileiros e que, sob Lula, voltou a receber investimentos recordes.

Por que meu voto é no Lula

Não voto no Lula por idealismo, mas por pragmatismo. Os números não mentem: em três anos, seu governo tirou 26,5 milhões de pessoas da fome, reduziu o desemprego ao menor nível da história, voltou a investir em saúde, educação e moradia. O Brasil voltou a crescer, a ser respeitado internacionalmente e a cuidar de quem mais precisa.

Do outro lado, está um projeto que já mostrou o que faz com a saúde pública — e que quer levar esse modelo para todo o país. Um projeto que flerta com o autoritarismo, que atacou as instituições em 8 de janeiro de 2023, e que não tem compromisso com a democracia.

Meu voto no segundo turno é no Lula. Não porque ele é perfeito, mas porque o Brasil já viu o que acontece quando o outro lado governa. E não queremos voltar atrás.

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