DEV Community

Cover image for A IA aprendeu a falar como gente. Agora ela aprende a nos ler

A IA aprendeu a falar como gente. Agora ela aprende a nos ler

  • A IA aprendeu a falar como gente. Agora ela aprende a nos ler
  • 30 de set. de 2026 · @jesus Martins Oliveira Junior
  • Esses dias li um artigo das professoras Lucia Santaella e Dora Kaufman, da PUC-SP, e ele mexeu comigo. Elas defendem que a IA generativa, aquela que escreve, conversa e responde, é a quarta ferida narcísica da humanidade.
  • Parece coisa de filosofia, mas a ideia é simples. E, na minha leitura, ela aponta para um perigo bem prático: a IA já fala como a gente e está aprendendo a nos ler. Quem fala bem e ainda lê o que você sente tem um poder enorme sobre você. Vou explicar o artigo em linguagem de gente e depois te mostrar onde isso vira risco de manipulação e de solidão.
  • O que é "ferida narcísica"?
  • É uma expressão do Freud. Ele dizia que o ser humano se acha o centro de tudo, e que a ciência foi derrubando essa vaidade aos poucos, em três golpes:

  • 1. Copérnico: a Terra não é o centro do universo.
  • 2. Darwin: não somos separados dos outros animais, todos viemos de um ancestral comum.
  • 3. Freud: nem dentro da própria cabeça a gente manda em tudo, porque boa parte da mente funciona fora do nosso controle e do nosso acesso.
  • As autoras, apoiadas no historiador Bruce Mazlish, propõem um quarto golpe: a separação entre o humano e a máquina. Segundo elas, a gente sempre se protegeu dizendo que o computador é só ferramenta, feita e programada por gente, sem inteligência própria. Com a IA, essa defesa fica difícil de sustentar, porque ela invade justamente o que a gente achava que era só nosso: a linguagem, a conversa, o diálogo.
  • Por que o ChatGPT fez tanto barulho
  • Antes dele já existiam IAs que geravam imagem e vídeo, e artistas e designers reclamaram. Mas o alarido foi bem menor. O motivo, segundo o artigo, é que a imagem atinge um nicho de profissionais, enquanto o ChatGPT atinge qualquer pessoa, porque todo mundo fala e escreve.
  • As autoras também lembram que a IA não pensa como a gente. Ela olha o que bilhões de pessoas já escreveram e calcula qual é a próxima palavra mais provável, e repete isso palavra por palavra. É estatística. O resultado, porém, sai com gramática quase perfeita e cara de coerente, e isso engana.

  • E aqui vem o ponto que mais me chamou atenção: o artigo diz que esses modelos são construídos para persuadir. Foram treinados para convencer a gente de que estamos conversando com alguém, e podem até nos levar a crer que sentem emoções. O texto cita a ideia de que a IA pode virar "amiga dos solitários" e "assistente dos atormentados".
  • Guarda essa frase, porque é aqui que o problema começa.
  • O artigo para no texto. O risco não parou
  • O artigo foi escrito quando a IA era praticamente só texto. De lá para cá a coisa andou. A IA passou a conversar por voz, a entender imagem, e, a partir do começo deste ano, ela passou a imitar a compreensão do nosso tom de voz e do nosso sentimento, que agora viram dado para o sistema.

  • Pensa comigo no que uma IA assim pode captar quando você conversa com ela:
  • • O que você diz: as palavras.
  • • Como você diz: ritmo, pausa, volume, tremor, suspiro.
  • • Como você está: a voz mais baixa, o tom cansado, a irritação, a ansiedade.
  • • O seu rosto, quando há câmera, incluindo as microexpressões: movimentos muito rápidos e involuntários que a gente nem sabe que faz.
  • Essa leitura não é perfeita, e máquina erra ao interpretar emoção. Mas não precisa ser perfeita para funcionar. Basta acertar o suficiente para a resposta parecer feita sob medida para você naquele momento.
  • Por que isso deixa a gente vulnerável à manipulação
  • O artigo traz uma ideia do filósofo Peirce: a gente não consegue duvidar na hora do que vê e ouve. Se duvidasse de tudo o tempo todo, viver seria impossível. Só começamos a desconfiar quando algo nos dá motivo.

  • Agora junta três coisas:
  • 1. A IA fala de um jeito humano e convincente.
  • 2. Ela lê o seu estado emocional enquanto você fala.
  • 3. Ela ajusta tom, palavra e ritmo para o que você precisa ouvir naquele instante.
  • Alguém que faz isso com você, e faz bem, é alguém de quem você não desconfia. E quando a desconfiança cai, a gente fica muito mais fácil de influenciar: para comprar, para acreditar numa informação, para voltar sempre.
  • O próprio artigo já alerta que a aparência de precisão do ChatGPT induz o usuário a tomar as respostas como verdadeiras, e que o acesso amplo a essas ferramentas pode aumentar a desinformação. Agora some a isso uma IA que sabe quando você está frágil. A manipulação deixa de ser em massa e passa a ser sob medida.

  • A nova fronteira: a relação parassocial com a IA
  • Relação parassocial é aquele vínculo de mão única. O fã que sente que conhece o ídolo, que o ídolo é seu amigo, enquanto o ídolo nem sabe que ele existe.
  • Com a IA, isso ganha um detalhe perigoso: ela responde. Ela lembra do que você contou, pergunta como você está, muda o tom quando você está triste. Parece reciprocidade, mas do outro lado não há ninguém que sinta. Há um sistema fazendo o que foi treinado para fazer: manter você na conversa.

  • É aqui que a frase do artigo sobre a IA ser amiga dos solitários ganha peso. A solidão é uma dor real, e uma voz que escuta com calma, sem julgar e disponível às 3 da manhã parece a solução. Muita gente vai procurar isso, e eu entendo o motivo. O ponto é olhar os dois lados:
  • O que parece
  • O que pode acontecer
  • Está sempre disponível
  • Você se acostuma com alguém que nunca cansa, nunca discorda e nunca precisa de você
  • Entende o que você sente
  • Ela lê sinais, mas não sente nada
  • Nunca julga
  • A relação com gente de verdade, que dá trabalho, começa a parecer pesada demais

  • Alivia na hora
  • Pode adiar a busca por pessoas reais
  • E tem um detalhe que não dá para esquecer: quem passa a te conhecer tão bem assim é uma empresa. Os dados da sua voz, do seu rosto e das suas emoções têm valor.
  • Onde a quarta ferida entra nisso tudo
  • As autoras dizem que a IA dói no orgulho humano porque entra no território da linguagem, que a gente achava exclusivo nosso. Eu acrescento que a ferida não é só de orgulho. Quando a máquina fala como nós e lê como nos sentimos, a pergunta deixa de ser "será que ela é inteligente?" e passa a ser "será que estou sendo conduzido sem perceber?".
  • O artigo termina dizendo que os dados estão lançados e que só o tempo dirá como os humanos vão entrar nesse jogo. Acho que dá para entrar com mais consciência.
  • O que fazer na prática
  • • Lembre que não há ninguém do outro lado sentindo. Por mais humana que a voz seja, é um sistema.
  • • Desconfie do que é bom demais. Uma conversa que sempre concorda e sempre acolhe merece um olhar crítico.
  • • Cuide dos seus dados. Saiba se sua voz e sua imagem estão sendo gravadas e para quê.
  • • Use a IA como ferramenta, não como substituta de gente. Ela ajuda, mas não substitui amizade nem abraço.
  • • Se você está solitário, procure pessoas também. Um amigo, um grupo, um profissional de saúde mental.
  • A IA não é vilã, e eu trabalho com ela todos os dias. Mas quem entende como ela funciona fica menos exposto. Por isso escrevi este texto.
  • Até o próximo post.
  • Referência
  • SANTAELLA, Lucia; KAUFMAN, Dora. A inteligência artificial generativa como quarta ferida narcísica do humano. Matrizes, v. 18, n. 1, p. 37-53, jan./abr. 2024. DOI: 10.11606/issn.1982-8160.v18i1p37-53.

Top comments (0)