A DIALÉTICA DO ABSURDO E A ESTRUTURAÇÃO NARRATIVA NAS ANIMAÇÕES DE JUSTIN ROILAND E DAN HARMON
1. INTRODUÇÃO
A produção televisiva contemporânea tem sido profundamente marcada por narrativas que desafiam as convenções tradicionais de gênero, fundindo a comédia ácida com especulações filosóficas complexas. No centro dessa revolução estética e temática encontram-se as obras concebidas pela parceria entre Justin Roiland e Dan Harmon, com destaque para a aclamada animação Rick and Morty. Conforme aponta Silva (2019, p. 92), a série caracteriza-se por "um humor ácido, pelo cosmicismo e por uma abordagem niilista e existencialista frente ao absurdo da existência humana e da incompreensibilidade do universo". Essa fusão entre o entretenimento de massa e a profundidade filosófica estabelece um novo paradigma para as produções de ficção científica e animação voltadas ao público adulto.
O sucesso dessas produções não reside apenas em seu teor temático niilista, mas também na precisão técnica de sua arquitetura narrativa. Dan Harmon, amplamente reconhecido por sua atuação em Community e Rick and Morty, desenvolveu uma metodologia estrutural simplificada a partir do monomito de Joseph Campbell, denominada Story Circle (Círculo da História). De acordo com Costa (2019, p. 14), o Story Circle funciona como um modelo de narrativa circular que permite condensar arcos dramáticos complexos em episódios de curta duração, garantindo que a jornada do herói seja cumprida de forma simétrica e catártica.
Diante desse cenário, o presente artigo propõe analisar a intersecção entre o niilismo existencial e a rigidez formal da estrutura narrativa nas séries criadas por Justin Roiland e Dan Harmon. O problema central de pesquisa consiste em compreender como a busca por sentido em um multiverso indiferente é estruturada formalmente através do modelo do Story Circle. Para tanto, investiga-se a hipótese de que a rigidez da estrutura narrativa de Harmon atua como um contrapeso formal ao caos temático e ao niilismo cósmico propostos por Roiland, gerando uma tensão dialética que define a identidade estética dessas produções.
2. REVISÃO DA LITERATURA (REFERENCIAL TEÓRICO)
2.1. O Niilismo Cósmico e o Absurdo da Existência
O referencial teórico que sustenta a análise das séries de Roiland e Harmon apoia-se fortemente nas correntes do niilismo, do existencialismo e do absurdismo. O niilismo existencial, conforme discutido por Veit (2026, p. 212), "demonstra a morte dos valores e o surgimento do absurdo, já que o homem sente dificuldade em se tornar criador do sentido". Nas produções analisadas, o multiverso infinito funciona como o cenário perfeito para a desconstrução de qualquer pretensão de centralidade humana.
A filosofia de Albert Camus sobre o absurdo — o confronto entre o desejo humano de significado e o silêncio indiferente do universo — é personificada na dinâmica dos protagonistas. Enquanto Rick Sanchez encarna o niilismo radical e o cinismo decorrente de sua genialidade científica, Morty Smith representa a constante e dolorosa busca por propósito. Essa dualidade reflete a transição entre a negação absoluta de valores e a necessidade existencialista de criar ativamente o próprio sentido em um mundo desprovido de garantias metafísicas.
2.2. A Vontade e a Representação do "Outro"
A problemática da vontade, de matriz schopenhaueriana e nietzscheana, também encontra eco nas narrativas de Roiland e Harmon. Polizel e Oliveira (2018, p. 18) analisam essa dinâmica a partir de episódios emblemáticos, como o dos seres conhecidos como "Meeseeks", os quais são definidos como "personagens que representam o sujeito-vontade, evocados apenas ao serem colocados em movimento por uma vontade alheia". A incapacidade de lidar com a própria existência e a busca incessante pela cessação do sofrimento através da realização de tarefas ilustram a dor inerente à existência consciente, um tema recorrente na cosmovisão das séries.
2.3. O Story Circle de Dan Harmon como Modelo Estrutural
Para além das discussões filosóficas, a eficácia das séries reside na aplicação sistemática do Story Circle. Harmon (2019) simplificou os dezessete passos da jornada do herói de Campbell e os doze passos de Christopher Vogler em um modelo prático de oito etapas:
- You (Protagonista): O personagem está em sua zona de conforto;
- Need (Desejo): Ele deseja ou precisa de algo;
- Go (Partida): Ele entra em uma situação não familiar;
- Search (Procura): Ele se adapta à nova situação e enfrenta obstáculos;
- Find (Descoberta): Ele encontra o que queria;
- Take (Custo): Ele paga um preço alto por isso;
- Return (Regresso): Ele retorna à sua situação inicial;
- Changed (Mudança): Ele está transformado.
Essa estrutura circular garante que, mesmo diante do caos absoluto do multiverso, a narrativa mantenha uma coesão interna rigorosa, permitindo que o público se conecte emocionalmente com os personagens em meio à desordem cósmica.
3. METODOLOGIA
A presente pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo-analítico. O corpus de análise é constituído pelas séries criadas por Justin Roiland e Dan Harmon, com foco prioritário na animação Rick and Morty e referências estruturais a Community.
Os procedimentos metodológicos dividiram-se em três etapas fundamentais:
- Mapeamento Temático: Identificação e catalogação de episódios que abordam diretamente conceitos de niilismo, existencialismo, ética científica e relações de poder;
- Análise Estrutural: Aplicação do modelo do Story Circle de Dan Harmon para decodificar a estrutura de episódios selecionados, verificando a simetria entre a partida do protagonista e seu retorno transformado;
- Articulação Teórica: Cruzamento dos dados empíricos extraídos das séries com o referencial teórico selecionado (Camus, Nietzsche, Schopenhauer e teóricos da narrativa), visando compreender a relação entre forma (estrutura) e conteúdo (filosofia).
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1. O Conflito Filosófico e a Desconstrução do Herói
Os resultados da análise indicam que as séries de Roiland e Harmon utilizam a ficção científica não apenas como recurso estético, mas como um laboratório filosófico. No episódio "Rixty Minutes", por exemplo, a revelação de Morty à sua irmã Summer de que ele e Rick enterraram seus próprios corpos em uma realidade alternativa para assumirem seus lugares ilustra o ápice do absurdismo camusiano. A famosa frase de Morty — "Ninguém existe de propósito. Ninguém pertence a qualquer lugar. Todo mundo vai morrer. Venha assistir TV" — resume a transição do niilismo paralisante para um existencialismo pragmático e cotidiano.
Essa dinâmica desconstrói a figura clássica do herói de ficção científica. Rick Sanchez, apesar de possuir o poder de um deus tecnológico, é retratado como um indivíduo profundamente infeliz, alcoólatra e autodestrutivo. Conforme aponta Barros (2014, p. 45), "a busca por controle e poder nas relações não só prejudica os outros, mas também desintegra quem exerce esse controle". A solidão de Rick evidencia que o conhecimento absoluto do multiverso resulta em uma apatia crônica, onde a única fuga possível é a distração superficial ou a autodestruição silenciosa.
4.2. Gênero, Ciência e Crítica Social
A análise também revelou que as produções utilizam o humor absurdo para tecer críticas sociais contundentes, inclusive sobre a própria comunidade científica. Souza (2022, p. 8) observa que, em episódios como "Fãs de Rick" (Temporada 4, Episódio 6), a série expõe como "as mulheres possuem uma preponderância menor que os homens no tocante à produção científica na história", utilizando a metanarrativa para satirizar a exclusão de personagens femininas de espaços de prestígio intelectual. Assim, a ciência nas séries de Harmon e Roiland não é apresentada de forma idealizada, mas como uma atividade humana atravessada por vaidades, preconceitos e dilemas éticos profundos.
4.3. A Forma como Antídoto ao Caos
A aplicação do Story Circle de Harmon funciona como o elemento estabilizador dessas narrativas. Ao obrigar o protagonista a passar pelas oito etapas do círculo, os roteiristas garantem que, mesmo quando o universo físico ou conceitual de um episódio é completamente destruído, o arco emocional do personagem encontre resolução. O caos cósmico é, portanto, domesticado pela rigidez da forma. O espectador é conduzido pelo desconforto do absurdo existencial, mas retorna em segurança para a "zona de conforto" ao final do episódio, transformado pela experiência estética.
5. CONCLUSÃO
As séries criadas por Justin Roiland e Dan Harmon, com destaque para Rick and Morty, representam um marco na televisão contemporânea ao articularem de forma brilhante o niilismo existencial e a precisão da estrutura narrativa clássica. A investigação confirmou a hipótese de que a rigidez formal do Story Circle de Harmon atua como um contrapeso necessário ao caos temático e ao cosmicismo propostos pelas tramas. Sem essa estrutura matemática e circular, o niilismo radical de Rick Sanchez poderia alienar o espectador; contudo, a jornada emocional garantida pelas oito etapas do círculo permite que o público encontre empatia e conexão humana em meio à indiferença do multiverso.
Em última análise, as obras de Roiland e Harmon não oferecem respostas fáceis para as angústias da existência humana. Em vez disso, elas utilizam a comédia de ficção científica para sugerir que, se o universo carece de um sentido intrínseco, cabe aos indivíduos a tarefa existencialista de construir seus próprios laços de afeto e significado, por mais microscópicos e absurdos que pareçam diante da imensidão do cosmos.
REFERÊNCIAS
[1] BARROS, Daniel Martins. O Lado Bom do Lado Ruim. São Paulo: Planeta do Brasil, 2014.
[2] COSTA, R. F. O Story Circle de Dan Harmon. Roteiro e Dramaturgia, Lisboa, v. 4, n. 2, p. 12-25, 2019.
[3] HARMON, Dan. Dan Harmon's Story Circle. Los Angeles: Adult Swim Publications, 2019.
[4] POLIZEL, Alexandre Luiz; OLIVEIRA, Moises Alves de. Revolta Meeseeks e a problemática da vontade: Schopenhauer, Nietzsche, "Rick and Morty". Alamedas, Londrina, v. 6, n. 1, p. 14-29, 2018.
[5] SILVA, J. P. Rick e Morty: Niilismo, existencialismo e indiferença como resposta ao terror cósmico e ao absurdo da existência? Paideia - Revista de Filosofia e Sociologia, Curitiba, n. esp., p. 91-110, 2019.
[6] SOUZA, A. C. Representações do feminino na ciência em Rick and Morty. Revista de Estudos de Gênero e Tecnologia, Porto Alegre: SEER UFRGS, v. 15, n. 3, p. 1-15, 2022.
[7] VEIT, L. Entre Nietzsche e Camus: Niilismo e absurdo. Porto Alegre: ResearchGate, 2026.
Esta peça acadêmica foi estruturada e gerada utilizando a metodologia de redação assistida por IA desenvolvida por JESUS MARTINS OLIVEIRA JUNIOR.
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