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Eu e algumas justificativas para piratear livros

Henrique Lobo Weissmann (Kico)
Progr(amo), logo existo. Fundador da itexto.
・9 min read

Texto escrito em 2014
Acho que foi segunda feira que vi meu nome sendo citado no Facebook em uma frase mais ou menos assim: "é uma sacanagem o que você está fazendo com o Henrique Lobo Weissmann (...)". Cliquei no link para ver do que se tratava e isto deu início a uma experiência deprimente.

Um post em um grupo bastante conhecido de desenvolvedores web no Facebook em que um sujeito postava um link para o site mega.com. Acessando o site estavam presentes diversos livros (incluindo o meu). Primeiro li os comentários, diversas pessoas agradecendo o sujeito pelo seu feito (frases como "CARA, EU TE AMO!") e o sujeito respondendo a quem o criticava ironicamente dizendo que "só queria ajudar :)". Até aí nada de surpreendente: tolos e suas tolices.

O surpreendente (ao menos pra mim) veio na sequência quando resolvi baixar o meu próprio livro daquela lista. No rodapé de cada página é impresso o nome de quem o comprou. Não estava lá. Na mesma lista vi outros livros que possuo cópia legal. A mesma coisa. Da trabalho fazer isto: alguém gastou seu tempo removendo as marcas d'água daqueles documentos para em seguida disponibilizá-los na Internet. Trabalho de programador: colega de profissão ferrando colega de profissão. E provavelmente o tempo que o sujeito gastou fazendo isto saiu mais caro que o preço do livro: o meu custa R$ 29,00. Chamo isto de vandalismo.

Este fato sozinho já é suficientemente deprimente. O que veio depois é ainda pior: resolvi postar no mesmo grupo um texto mais ou menos assim: "Seguinte pessoal, vi aqui meu livro, junto com outros, ser pirateado. Sei que é algo que parece normal para muitos de vocês, mas aqui está minha opinião sobre o assunto. Leiam este texto que escrevi (link)". De início vieram as pessoas se solidarizar e tal (o que se espera). Logo em seguida veio uma série de argumentos pró-pirataria. Não satisfeitos, alguns inclusive vieram com ataques a mim por Facebook, etc.

Até aquele momento pra mim parecia óbvio que piratear livro digital é errado (e pela nossa constituição é inclusive crime). Hoje vejo que não é. Sendo assim, neste post vou responder a uma série de argumentos que li.

Por que vou fazer isto

Eu poderia simplesmente me calar (como a maior parte das pessoas), mas acredito que no caso acima, mais que um crime, é uma questão de respeito. Assim como o Fernando Vieria muito bem disse em seu blog, quando pirateiam um trabalho meu, não é "apenas um livro": aquele trabalho sou eu.

Se é estipulado o modo como o acesso aquele trabalho é feito (por pior que pareça), e este é transgredido, estão invadindo meu espaço sem autorização, ou seja, estão me desrespeitando. E mais ainda e acima de tudo: como já disse antes, isto apenas ferra o nosso país e nossa profissão.

E o papo de que "não adianta fazer nada" é falso. Sim, eu posso: se falo a respeito, ajudo a mudar esta cultura. E ei: um dos tolos que me pirateou (espalhando para outros grupos) talvez tenha sido até mesmo honesto ao me mandar esta mensagem:

Da coceira pra liberar o nome deste aqui. Da coceira pra liberar o nome deste aqui.

Minha linha argumentativa

Vou usar o princípio da Navalha de Occam. Resumindo, é o seguinte: se começou a enrolar ou dar voltas demais é por que tá errado de alguma maneira. Se consegue ser descrito de forma sucinta é por que a probabilidade de estar correto é enorme.

Se foi estipulada uma forma de se obter meu trabalho, esta se encontra de acordo com a lei vigente em meu país (Brasil), não causa dano a ninguém e esta foi burlada de alguma forma, então a lei foi quebrada e o desrespeito afirmado à minha pessoa e a dos envolvidos na produção daquele trabalho.

O argumento da hipocrisia

"Quem é o autor para nos dizer que não podemos pirateá-lo? Afinal de contas, aposto que ele também já pirateou alguma coisa na vida!"
Contra argumentação

Um erro não justifica outro e um alheio não justifica os meus.

Consequências do argumento da hipocrisia

O objeto está a venda, se você o obtém por meios ilícitos, sim: está cometendo um crime. Levando este argumento ao extremo, um ladrão jamais poderia dizer que roubar é errado. Pior ainda: todos os crimes passam a ser válidos, uma vez que sempre há alguém que os comete e consegue sair impune. Segundo este argumento eu também posso roubar por que tenho direito à minha parcela de impunidade. Não faz sentido.

O argumento dos melhores modelos de comercialização ou obtenção de ganhos

"Você poderia alugar ou dar de graça ou (imagine sua opção aqui) e obter ganhos de formas muito melhores do que cobrando pelo seu trabalho. Veja a empresa épsilon, por exemplo, é um caso fascinante que funciona e gera lucro para seus participantes."
Contra argumento

Ninguém tem o direito de me impor outro modelo de atuação gerando danos a mim ou ao meu trabalho.

Consequências do argumento dos melhores modelos de comercialização

Sempre haverá modelos alternativos, no entanto é inegável que o modelo de venda simples também funciona. Há o problema da pirataria? Com certeza. Quer uma prova interessante de que funciona? Meu primeiro livro caminha para as 2000 cópias vendidas: destas, bem mais de 90% são digitais e não físicas.

E sabe aquele papo de que caminhamos para uma "economia das coisas gratuitas"? Ainda não aconteceu. Pode até ter indícios, mas as pessoas ainda querem ser pagas pelo seu trabalho.

O argumento da editora exploradora

"Pirateio mesmo pois sei que a maior parte dos lucros vai para a editora e não para o autor!"
Contra argumentos

A maior parte do dinheiro precisa ir para a editora pois esta cuida de uma série de fatores como logística, diagramação, editoração, revisão, gestão, apoio ao escritor, salário dos funcionários e diversos outros custos que o autor não tem.

O autor antes de começar a escrita do livro para a editora recebe uma proposta sob a forma de contrato: este é lido e o autor assina se concordar. Ninguém o obriga a escrever coisa alguma.

Pessoalmente: não preciso ou quero deste tipo de defensor para o meu trabalho. Se eu quiser dar 100% do valor para a editora dou e absolutamente ninguém tem coisa alguma a ver com isto.

Consequências do argumento da editora exploradora

Quem diz este tipo de coisa provavelmente nunca precisou pagar uma conta na vida ou gerir um negócio.  Que fique claro: sem editoras não há mercado editorial. Hoje é possível escrever livros de forma completamente independente (vide LeanPub ou Amazon), mas os benefícios obtidos pelo simples fato de haver uma editora por trás são inegáveis. No caso de livros técnicos, o principal ganho é que uma entidade externa a mim está dizendo que tenho competência para falar sobre aquele assunto e não eu mesmo.

Mais que isto: alguém mais competente está cuidando de assuntos que desconheço como vendas, divulgação, etc. Com isto meu foco fica apenas no que sei fazer: escrever e falar sobre aquele assunto.

O "argumento" da relatividade

"Você não pode dizer que pirataria de livros é um crime, dado que o conceito de crime varia de acordo com o tempo. Algum tempo atrás homossexualidade, por exemplo, era crime, hoje não é mais. Com os novos meios de produção, nada impede que a pirataria também deixe de ser crime."
Contra argumento

Neste tempo, neste país, pirataria de livros é crime.

Consequências do argumento da relatividade

Eu ri. Agora, falando mais sério: relativizar qualquer discussão é desonestidade intelectual, pois a partir do momento em que as coisas se relativizam, pode-se dizer qualquer absurdo, pois "tudo é relativo". Usem isto para detectar o "intelectual" desonesto.

O argumento de que "todo conhecimento deve ser livre"

"Sou da opinião de que todo argumento deve ser livre. Sendo assim não acho errado piratear seu livro pois tenho direito aquele conhecimento"
Contra argumento

Conhecimento é uma coisa e trabalho alheio outra.

Consequências do "todo conhecimento deve ser livre"

Quando você compra um livro está na realidade pagando pelo trabalho que o autor teve de compilar aquelas informações. Aquele sujeito ficou dias, meses, anos trabalhando para que o texto chegasse naquele ponto que pudesse ser comercializado.

Ele poderia muito bem ter disponibilizado gratuitamente, é verdade, mas também pode achar que merece ser remunerado por isto através da venda dos seus exemplares, e não há absolutamente nada de errado com isto.

O conhecimento está aí, basta que você faça como o autor: ponha a bunda na cadeira e comece a pesquisar por conta própria. Você está pagando é pelo trabalho da pessoa, não pelo conhecimento. Aliás, é interessante observar que quem faz este tipo de afirmação não consegue dizer o que vêm a ser o tal do "conhecimento" cuja liberdade prega tanto.

Pirateando você está desestimulando a produção comercial. Menos produção comercial é menos "conhecimento" sendo vendido e, convenhamos: R$ 29,00 não é acessível???

Argumento da falta de recursos financeiros

"Fiz cópia pirata por que não tenho dinheiro para comprar"
Contra argumento

Se um produto só é acessível a partir da compra, e você o obtém por meios ilícitos, você está roubando.

Consequências da "falta de recursos financeiros"

Simples assim: é roubo. E cá entre nós: no caso que citei o produto custa R$ 29,00. Mesmo se fosse caro, continuaria um argumento inválido. Esta é a essência por trás de qualquer furto.

Pergunte-se: como você justifica o valor de algo como caro? Te dou uma definição: caro é quando algo lhe fornece um benefício inferior ao que você pagou. E sabe de uma coisa? Se é caro, você não precisa roubar, é só agir como uma pessoa correta e ignorar o produto.

Argumento da fama

"Ah, mas o autor escreve um livro para ficar conhecido como o expert naquele assunto. Ele fará dinheiro com palestras, eventos, cursos, etc. Não será uma pirataria boba que o irá lesar. Eu me sentiria honrado em saber que estão pirateando meu trabalho!"
Contra argumentos

A questão não é escolher a forma que lesa menos o autor, mas sim não causar a lesão.

Se o livro está a venda é por que um dos objetivos do autor é fazer dinheiro com aquele trabalho.

Consequências do argumento da fama.

A esmagadora maioria dos autores que conheço diretamente não vivem de palestrar e dar cursos sobre os assuntos tratados. Muitos (e me incluo) publicam seus livros por editoras com o objetivo de, além de ter o reconhecimento citado, também obter um lucro extra com o seu trabalho. Mesmo que lotássemos a agenda do autor com palestras e cursos, acredite: não cobriria o esforço gasto na confecção do livro.

O reconhecimento de um profissional não é obtido apenas a partir de um livro: ele é a menor parte na realidade. Entra aí participação em eventos, artigos publicados, trabalhos reais produzidos, experiência com colegas e diversas outras atividades.

Pra finalizar (e não irá finalizar)

Sei que pirataria é um problema cultural e que jamais será resolvido, mas isto não quer dizer que eu deva ser omisso. Infelizmente sou um dos poucos autores que falam abertamente sobre o assunto. Todos os autores publicados que contactei e foram pirateados concordam com o que disse acima. Sim: também se acharam desrespeitados. Curte o cara? Comece respeitando o trabalho dele.

Tadinho: tão inocente! Tadinho: tão inocente!

Mas se você for me lesar, saiba que não ligo se me acha uma pessoa simpática ou não. Você leu este texto, leu o anterior sobre o assunto e sabe que considero isto desrespeito a minha pessoa. Te considero meu agressor.

Respeito é algo que primeiro espero. No momento seguinte, eu peço por ele. Se não o obtiver, o exijo.

PS: e você, autor?

Você sabe o trabalho que é publicar um livro e, se está a venda, também sabe que o fez para receber pelo seu esforço. Não se cale: não tenha medo de soar antipático perante esse povo que vêm com esta argumentação. Escreva a respeito para conscientizar o público.

Eu quero mais "Casas do Códigos, "DevMedias", "Ciências Modernas" e muitas outras editoras pipocando por aí gerando livros que façam a diferença em nosso mercado. Ajudem nossa classe a progredir lutando contra o comportamento que exponho neste post.

Lembre-se: quem abaixa demais mostra a bunda.

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