DEV Community

loading...
Cover image for Filosofia pra quê?

Filosofia pra quê?

Henrique Lobo Weissmann (Kico)
Progr(amo), logo existo. Fundador da itexto.
・9 min read

Texto escrito em 2014

Ao comentar que meu primeiro curso (que quase terminei) de graduação foi Filosofia é comum observar reações divertidas em meus interlocutores: alguns esbugalham os olhos, outros dizem que isto "justifica o fato de eu ser louco assim", muitos riem e a esmagadora maioria me diz que está surpresa com o fato de eu ter terminado em uma área tão diferente (Ciência da Computação).

Aguardei muito tempo para escrever este post, no entanto após ouvir este podcast (entre 20:15 a 22:40) com Neil deGrasse Tyson sobre Filosofia o teclado me sequestrou. Basicamente o que nosso astrofísico popstar e seu host sem noção dizem é o seguinte:

  • Os filósofos questionam em excesso.
  • O filósofo acredita que está fazendo perguntas profundas sobre a Natureza mas na prática está falando besteira.
  • Filosofia não tem progressos e que na realidade pode ser vista como uma traso para a ciência.
  • Que os questionamentos são ridículos mas que não são problema pois não há quem os ouça (esta doeu).

Se Neil de Grasse fosse um ninguém não teria importância alguma o que foi dito, mas por ser um importantíssimo e extremamente popular divulgador da ciência e, portanto, um formador de opinião forte, alguém tem de se manifestar (e não estou sozinho).

Talvez você o conheça por causa deste meme. Talvez você o conheça por causa deste meme.

O que é Filosofia afinal?

Você vai a uma livraria e pega diversos manuais introdutórios à Filosofia: todos terão esta pergunta: "o que é Filosofia?". E todos irão responder "Você vai a uma livraria e pega diversos manuais introdutórios à Filosofia: todos terão esta pergunta: "o que é Filosofia?"".

É um loop que ao desavisado pode dar a impressão de completa perda de tempo: "nem os filósofos sabem o que é Filosofia!" mas que expõe a essência filosófica. O agir filosófico é o agir questionador que busca as melhores definições acerca do seu objeto de estudo. É um questionar essencialmente polemizante: quando pergunto a um sapateiro o que é um sapato se este não me fornece uma definição satisfatória daquele objeto abalo seu status quo, o faço questionar-se a si mesmo e seu ganha pão.

Quando lemos Platão ou qualquer outro filósofo vêmos de forma clara emergir a mais simples e terrível (na minha opinião) das perguntas: o quê é isto? E a partir da primeira tentativa de resposta inicia-se um diálogo em que, caso seus participantes realmente estejam interessados em resolver o problema, isto é, chegar à melhor definição do objeto tratado, inúmeros outros questionamentos virão à tona em um ciclo que jamais chegará ao fim, exatamente como a ciência.

Mais que a busca pelo significado, o ato filosófico é polemizador. Estou pondo em dúvida o senso comum: a definição que tenho do sapato dada a mim pelo sapateiro é de fato a mais apropriada? Estaria o sapateiro errado? EU estaria errado? A sociedade estaria acreditando dizer uma coisa quando na realidade diz outra? O que de fato tenho em meus pés???

Este fator polemizante da Filosofia na minha opinião é o que a torna tão impopular e lhe fornece este aspecto arrogante e desagradável. Convenhamos, o filósofo pode ser visto como um chato: o sapateiro sabe o que é um sapato. Lida com isto o dia inteiro, o que o questionar sobre a definição do termo pode agregar a mais? Melhores sapatos: uma melhor compreensão a respeito de sua essência e portanto uma fabricação e produtos otimizados. O problema é que o sapateiro teria de mudar seu modo de agir. Aí complica né?

Ludwig Wittgenstein - 1889 - 1951 Ludwig Wittgenstein - 1889 - 1951

Na minha opinião o ano em que a melhor definição da Filosofia emerge é 1921 quando Wittgenstein publica o Tractactus Logico-Philosophicus. Este livro de 90 páginas (pode ser lido gratuitamente em inglês e alemão aqui) tinha por objetivo resolver todos os problemas filosóficos (arrogância extrema) que, para Wittgenstein, eram o resultado da má compreensão da linguagem. O papel do filósofo seria portanto o de compreender melhor como a linguagem funciona: o que pode ou não ser dito. De novo: o filósofo buscando melhores significados aprofundando-se na sua ferramenta essencial que é a linguagem.

Alguns anos depois Wittgenstein irá além ao descrever o papel do filósofo. É o sujeito que levanta as questões, e a ciência que se vire para resolvê-las.

Há também aquela definição etimológica da filosofia como "amor à sabedoria" mas, sinceramente, prefiro ver o filósofo como Wittgenstein o retratou. Aquele que busca a essência através do real significado das palavras e com isto gera o desconforto que de uma forma ou outra acabará nos empurrando em novas direções.

Voltando ao nosso amigo deGrasse

É comum a postura arrogante da ciência em relação à Filosofia. Afinal de contas vêmos o progresso desta de forma nítida: cada vez sabemos mais a respeito das coisas, temos computadores melhores, etc. É feita a seguinte afirmação: "o filósofo está sempre fazendo as mesmas perguntas".

É verdade, mas o mesmo pode ser dito a respeito da ciência. Peguemos, por exemplo, a especialidade de deGrasse: astrofísica. Estão tentando responder o mesmo questionamento há milênios: qual a origem do Universo? E ei: não pense que este desenvolver é acumulativo. De tempos em tempos há um reboot (e portanto retrocesso), tal como já escrevi a respeito aqui quando falei sobre o "Estrutura das Revoluções Científicas" escrito por Thomas Kuhn. Então o primeiro argumento foi vencido fácil: como podem ver a ciência se comporta exatamente da mesma maneira.

Um outro argumento comumente usado é o de que a Filosofia não produz resultados palpáveis. Que não há resultados na vida prática. O interessante deste argumento é que ele é essencialmente filosófico também, inclusive é o nome de uma escola filosófica chamada pragmatismo. Segundo esta doutrina o sentido de uma idéia se deduz a partir dos seus resultados práticos. Te parece similar a alguma coisa? Sim: à ciência, de novo, agindo de forma... essencialmente filosófica.

E aí nós avaliamos o modo como um cientista trabalha o seu conhecimento. Vêmos que há a categorização sempre. Pense nos planetas, por exemplo: eles se dividem em diversas categorias, cada uma das quais com suas subcategorias, e por aí vai até que se chega a uma boa categorização das coisas (quem começa com esta história de categorizar o mundo é inclusive um filósofo sabe... chamado Aristóteles). O que o cientista está fazendo nesta classificação? Ele está definindo: está respondendo "o que é isto?". Em suma: está filosofando, e se a definição a que chegar for diferente da corrente sabem o que ele causou? Polêmica.

Tem um trecho desta entrevista com deGrasse que achei particularmente interessante: vou traduzi-lo abaixo:

"Se o filósofo se preocupa com o som do bater de palmas com uma mão só: é uma perda de tempo."

Esta é uma afirmação intelectualmente desonesta pois ignora o fato de que há pesquisa científica tão inútil (se é que este questionamento de fato o é). Basta nos lembrarmos do Darwin Awards. Generalizar a qualidade de todo um campo do conhecimento com base em uma minoria incompetente não é intelectualmente honesto.

E logo em seguida há mais um trecho particularmente fascinante:

O cientista vira para o filósofo e diz: "Olha, eu tenho um mundo todo desconhecido lá fora. Estou te deixando pra trás e seguindo em frente. Você não consegue sequer cruzar a rua por que está distraído com questões que acredita serem profundas."

O bacana é que neste trecho Neil deGrasse expõe exatamente o comportamento que os cientistas conservadores apresentam diante das revoluções científicas que mudam seus paradigmas correntes. Com certeza Nicolau Copérnico escutou frases assim de alguém: "olha Copérnico: eu tenho um monte de estudos pra fazer agora, não tenho tempo a perder com você e esta teoria de que o Sol e não a Terra está no centro tá. Vou te deixar pra trás neste momento e me focar no modo como o Sol gira ao nosso redor".

Mas Copernico era um cientista, certo? Mais que isto: ele estava buscando a essência por trás do movimento dos corpos. Como é o funcionamento dos corpos celestes? O que é? Copernico antes de mais nada estava agindo filosóficamente.

É interessante ver como nosso amigo deGrasse, que em seus programas de TV fica nos expondo a definição de diversos assuntos filosóficos e dizendo que conhecemos as coisas a partir dos seus efeitos ao dizer estas bobagens sobre a Filosofia acaba se mostrando um filósofo pragmático. Não dá pra fugir da própria sombra.

Enquanto o filósofo filosofa o físico está lançando foguetes e...

Como alguém que fez Filosofia e desenvolve sistemas para projetos aeroespaciais acredito que eu esteja em uma posição única para tratar este questionamento com o qual topei recentemente no Facebook (que provávelmente foi inspirado na ignorância de deGrasse). Sou um cientista da computação, mas o ato de projetar sistemas é essencialmente o ato de responder a pergunta primordial: "o que é isto?".

Quando você projeta uma classe em seu código, por exemplo, a classe Pessoa você se questiona a respeito de quais atributos compõem uma pessoa. O que torna um registro no banco de dados uma boa representação de uma pessoa? Quando você pensa arquiteturalmente no sistema, a primeira pergunta é: o que isto deve fazer? O que é este sistema? Qual o seu objetivo? Você busca definições. E claro, há as polêmicas que se manifestam sob a forma dos questionamentos da sua equipe.

Então não foi uma mudança brusca sair da Filosofia e ir para a Ciência da Computação. A diferença foi o ferramental usado na materialização dos conceitos. Na primeira era a palavra, na segunda o computador.

No meu caso o filósofo filosofa e me ajuda a saber para onde devo ir: ele me diz o quê o cientista da computação deve construir. Não tem como chegar a algo sem saber do que se trata, certo?

Concluindo

Muitos tem a visão de que o filósofo é um sujeito isolado que tira idéias da cabeça e fica postando em blogs com o objetivo de conseguir cliques e polemizar por nada. Mentira: temos aí quase 3000 anos de tradição na qual foi desenvolvida metodologia, avanços foram feitos e incontáveis produtos gerados, dentre estes a sociedade ocidental da qual fazemos parte (não foi um cientista em laboratório que a gerou).

O filósofo não é um ser isolado, pelo contrário: está no nosso dia a dia sem que nos dêmos conta disto. Questionou e gerou uma discussão? Você está filosofando, não precisa fazer um curso de Filosofia na faculadade (aliás, o curso de Filosofia na realidade não ensina a "filosofar", mas sim apresenta a história da Filosofia).

A pergunta que fica é: esta visão borrada da Filosofia não seria a manifestação do medo que temos de nossas bases estarem erradas, talvez por estarmos bitolados demais pelo modo de pensar das ciências exatas? Não tem como negar: Spock (exatas) só faria merda sem Kirk (humanas).

kirk_spock

Discussion (0)