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Hernán Cortés e o Software Livre

Henrique Lobo Weissmann (Kico)
Progr(amo), logo existo. Fundador da itexto.
・4 min read

Texto escrito em 2012

A questão da conquista da América pelos espanhóis me fascina. Infelizmente, quanto mais leio a respeito mais me identifico com os nativos.

Estou lendo "A Conquista da América - A questão do outro", de Tzvetan Todorov. Seu foco é a formação da imagem do nativo americano aos olhos dos conquistadores espanhóis. E num capítulo chamado "Compreender, Tomar e Destruir" tenta-se responder a seguinte questão: se os astecas eram a fonte de tanta riqueza para os espanhóis, o que os motivaria a aniquilar tão violentamente esta galinha dos ovos de ouro?

Foi quando um golpe sob a forma de frase me derrubou:

"(...) se a compreensão não for acompanhada de um reconhecimento pleno do outro como sujeito, então essa compreensão corre o risco de ser utilizada com vistas à exploração, ao "tomar"; o saber será subordinado ao poder.(...)"

É lindo quando alguém consegue colocar em palavras uma intuição que sempre tive.

Conquistando o Software Livre

O trecho que citei acima pode ser aplicado a qualquer relação de exploração e acredito que se aplique bem na questão do software livre. Posso falar a respeito: afinal de contas não conheço muitos brasileiros que, assim como eu, invistam até financeiramente nesta idéia.

Com o tempo algo foi se tornando claro sobre uma fatia enorme dos usuários de software livre (especialmente desenvolvedores): sim, as pessoas compreendem seu valor e  o usam para gerar riqueza. O problema é que não reconhecem o fato de ser fruto do trabalho de outra(s) pessoa(s).

Alguns exemplos: fulanos  que postam alguma dúvida no Grails Brasil e me contactam por mensagem instantânea imediatamente exigindo que eu lhes responda. Outro? E-mails demandando que eu forneça um patch o mais rápido possível para algum projeto antigo de código aberto, como por exemplo o Miocc ou ODF Easy. Entenda: não tenho nada contra quem apenas usa software livre, mas odeio quem abusa de seus autores ou das pessoas que realmente participam do seu progresso.

Já ouvi muito o argumento de que o simples fato de estar usando o software já é uma forma de apoio. Na boa? Papo furado. Este argumento cai na contradição que expus no meu post anterior. Você está ajudando software livre com publicidade quando fomenta a comunidade, não como quem apenas demanda sem oferecer nada em troca.

Aniquilando o software livre

É importante conhecer a diferença entre a destruição e aniquilamento. Na destruição deformamos algo de forma brusca e contra a sua vontade. Já o aniquilamento implica na remoção da razão da existência do objeto. Vou ser profético: acredito que estamos caminhando para o aniquilamento do software livre.

As pessoas produzem software livre visando reconhecimento que servirá para gerar algum lucro indireto através de consultorias, treinamentos, customizações ou mesmo obtenção de emprego em algum lugar devido à sua expertise. Conforme o abuso aumenta, torna-se economicamente inviável a contribuição para estes projetos, ou seja, aniquila-se o software livre.

Então como eu ajudo o software livre?

Neste caso, acredito que o processo deve ser iniciado a partir da seguinte pergunta: supondo que eu fosse o sujeito que desenvolve este software (que está inclusive me gerando algum retorno financeiro), como eu gostaria de ser ajudado?

Outra pergunta legal: "estou abusando?". A resposta é fácil: se você demanda sem oferecer nada em troca, sim: você está abusando.

Ajudar portanto é simples: dê algo em troca. Pode ser qualquer coisa, desde que contribua. Participa de um fórum? Que tal buscar responder algumas perguntas ao invés de só buscar salvar o próprio rabo? Achou um bug? Não quer dizer que deva solucioná-lo imediatamente, pois muitas vezes não possuímos conhecimento técnico para tal, mas que tal apenas reportar o bug? Aliás, da pra ir um pouco além: que tal além de reportar o bug, também o divulgar para ver se alguém consegue resolver o problema?

Concluindo

O grande problema do software livre é a ilusão de que trata-se de um bem gratuito. Não existe grátis: tudo é feito visando algo em troca. O mínimo que devemos fazer é reconhecer este fato e ajudar quem está nos ajudando.

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