Flávio Bolsonaro é péssimo para o Brasil — assim como seu pai foi
Publicado em 5 de outubro de 2026 · ~20 min de leitura
Há uma pergunta que ronda a cabeça de milhões de brasileiros desde que Flávio Bolsonaro (PL) se consolidou como o candidato da extrema-direita à Presidência da República: será que o filho é diferente do pai?
A resposta curta é: não. A resposta longa é este artigo.
Flávio Bolsonaro não é uma ruptura com o bolsonarismo. É sua continuação. Ele herdou o sobrenome, o capital político e — o que é mais grave — os mesmos métodos, os mesmos aliados e os mesmos objetivos. A diferença é de estilo, não de essência. Jair Bolsonaro era o explosivo; Flávio é o calculista. Mas ambos servem ao mesmo projeto: a captura do Estado brasileiro por interesses privados, a submissão aos Estados Unidos e a destruição da democracia.
Este artigo compara, ponto a ponto, os governos e as trajetórias de Jair e Flávio Bolsonaro. O objetivo não é apenas relembrar o desastre que foi o governo Bolsonaro. É mostrar que Flávio representa a continuidade desse desastre — e que, se eleito, fará o Brasil mergulhar novamente no mesmo abismo.
1. A corrupção como método de governo
Jair Bolsonaro: o governo dos escândalos
O governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) foi marcado por uma sequência ininterrupta de escândalos de corrupção. A Polícia Federal indiciou o ex-presidente por peculato, associação criminosa e lavagem de dinheiro no caso das joias sauditas — um conjunto de presentes de luxo avaliados em R$ 5,6 milhões que foram desviados para o patrimônio pessoal da família.
A CPI da Pandemia concluiu que Bolsonaro teve papel preponderante para que o Brasil alcançasse a trágica marca de 700 mil vítimas de Covid-19. O relatório pediu o indiciamento do ex-presidente por nove crimes, entre os quais charlatanismo, prevaricação, infração a medidas sanitárias e epidemia com resultado morte. Também foram apontados indícios de crimes contra a humanidade, como extermínio e perseguição.
O Ministério da Saúde foi palco de suspeitas de fraudes na compra de vacinas e na contratação de fornecedores, incluindo contratos com empresas de "fachada" para prestação de serviços fictícios. O Tribunal de Contas da União identificou um aumento real de 50,56% nos gastos com cartão corporativo durante o governo Bolsonaro, com indícios de irregularidades que coincidiam com a agenda de campanha do ex-presidente.
E, claro, há a tentativa de golpe de Estado que levou à condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por cinco crimes, incluindo tentativa de golpe.
Flávio Bolsonaro: o herdeiro do esquema
Flávio não é diferente. Ele é, na verdade, o elo que conecta todos os escândalos da família.
O caso Vorcaro e o Banco Master é o mais grave. A Polícia Federal investiga Flávio por sua atuação no financiamento do filme "Dark Horse", uma cinebiografia sobre seu pai. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, teria se comprometido a repassar cerca de R$ 134 milhões para o filme, com pelo menos R$ 61 milhões efetivamente transferidos a pedido de Flávio entre fevereiro e maio de 2025. Flávio é o único presidenciável formalmente investigado nesse escândalo.
O empréstimo do BRB para a compra de uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília é outro foco da PF. Flávio obteve um financiamento de R$ 3,1 milhões com taxa de juros de 3,71% ao ano, abaixo da média praticada pelo próprio banco, que era de 4,85%. O contrato previa 30 anos para pagamento, mas Flávio quitou a dívida em apenas três anos. O banco era presidido por Paulo Henrique Costa, hoje preso por envolvimento no esquema de fraudes de Vorcaro.
O caso da "rachadinha" nunca foi realmente encerrado. Em setembro de 2026, o ministro Gilmar Mendes, do STF, citou indícios de que a conta bancária de Fabrício Queiroz funcionava como "centro de arrecadação de valores provenientes de diversos assessores" do gabinete de Flávio na Alerj. Os relatórios do Coaf apontaram movimentações atípicas, com recebimento reiterado de transferências feitas por servidores comissionados.
As emendas parlamentares de Flávio também estão sob investigação. Uma reportagem do UOL rastreou mais de R$ 300 milhões em emendas destinadas por Flávio desde 2020 e encontrou pagamentos a entidades com irregularidades graves, incluindo um instituto considerado "inexistente de fato" pela Receita Federal e um instituto ligado a um miliciano condenado pelo assassinato de Marielle Franco. Robson Calixto, o miliciano conhecido como "Peixe", tratou diretamente da liberação de emendas de Flávio com uma assessora do senador.
A comparação é inevitável: Jair Bolsonaro transformou o governo em um balcão de negócios. Flávio Bolsonaro transformou o Senado em um balcão de emendas e favores.
2. As milícias e o crime organizado
Jair Bolsonaro: o padrinho das milícias
A relação de Jair Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro é antiga e documentada. Em 2005, quando era deputado federal, ele visitou na cadeia o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, apontado pelas autoridades como chefe da milícia Escritório do Crime, e entregou a ele a Medalha Tiradentes. A mãe e a mulher de Nóbrega também trabalharam no gabinete de Flávio.
Jair Bolsonaro sempre exaltou as milícias. Durante sua carreira prévia à Presidência, ele não foram poucas as vezes em que exaltou publicamente esses grupos paramilitares. Cerca de 4 milhões de pessoas, 34,9% da população da Região Metropolitana do Rio, viviam em 2024 sob controle ou influência de grupos armados.
O jornalista Paes Manso, autor do livro "A República das Milícias", documentou como as milícias se expandiram no Rio com apoio de inúmeros políticos, deputados e vereadores — e, mais importante, gozavam da simpatia do presidente Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro: o herdeiro do controle miliciano
Flávio não apenas herdou os aliados milicianos do pai. Ele os manteve e os fortaleceu.
O The Guardian publicou, em 4 de outubro de 2026, uma reportagem afirmando que Flávio Bolsonaro tem "ligações com membros das máfias paramilitares do Rio". Uma foto de 2022 mostra Flávio em momento de intimidade com "Sicário", líder da milícia ligada a Daniel Vorcaro.
Uma reportagem do PlatôBR revelou mensagens, áudios e documentos envolvendo Flávio, incluindo relatos de orgias bancadas com dinheiro de origem suspeita, um Rolex de R$ 305 mil pago por um aliado e lobby com o ministro Kassio Nunes Marques, do STF.
Flávio e Carlos Bolsonaro condecoraram ao menos 16 policiais que foram alvos de operações de combate ao crime organizado no Rio de Janeiro. O falecido Raul Jungmann, Ministro da Defesa do governo Michel Temer, afirmou em 2018 que os estudos da intervenção federal na segurança do Rio apontavam que o crime organizado tinha como braço político a família Bolsonaro.
Lula resumiu bem durante entrevista ao Flow Podcast: "Esse menino não tem história política. Esse menino é ligado aos milicianos".
Jair Bolsonaro flertou com as milícias. Flávio Bolsonaro é parte delas.
3. A submissão aos Estados Unidos
Jair Bolsonaro: o alinhamento incondicional
Jair Bolsonaro construiu sua política externa em torno de um alinhamento incondicional aos Estados Unidos. Ele chegou a declarar publicamente sua admiração por Donald Trump e fez do alinhamento com Washington a pedra angular de sua diplomacia.
Durante seu governo, o Brasil abandonou a tradição diplomática de autonomia e se posicionou como um satélite dos interesses americanos. Bolsonaro chegou a oferecer os Estados Unidos como parceiro preferencial em negociações comerciais, muitas vezes em detrimento dos interesses brasileiros.
Flávio Bolsonaro: a entrega do Pix e a sabotagem do BRICS
Flávio não apenas mantém esse alinhamento. Ele o radicaliza.
Em julho de 2026, Flávio enviou ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos um documento de 86 páginas com o timbre do Senado Federal. O conteúdo: uma proposta explícita de proibir o Pix de se conectar com sistemas de pagamento de países "não ocidentais", como os parceiros do BRICS e a China.
Na prática, Flávio quer sabotar uma tecnologia brasileira — criada pelo Banco Central, gratuita e que salvou a vida de milhões de camelôs, motoboys, feirantes e donas de casa — para manter as transações internacionais presas ao dólar. Ele prometeu aos EUA reduzir impostos e diminuir a fiscalização sobre Visa e Mastercard, alegando falsamente que o Pix não consegue cobrir funções como parcelamento e proteção ao consumidor.
O presidente Lula classificou a proposta como "inaceitável": "Querem entregar o Pix a interesses estrangeiros. Não vão conseguir. O Pix é uma conquista do Brasil e não vamos abrir mão dele. Nossa pátria não está à venda. Nossa soberania é inegociável".
O The Guardian foi explícito: "A intenção de Flávio é livrar o pai, Jair Bolsonaro, da condenação por golpe de Estado caso seja eleito". E para isso, ele está disposto a negociar com quem for necessário — inclusive com os Estados Unidos.
Um presidente que negocia contra o próprio país não é presidente. É um agente estrangeiro.
4. A destruição do patrimônio público
Jair Bolsonaro: as privatizações
O governo de Jair Bolsonaro foi marcado por um programa de privatizações que entregou parte do patrimônio nacional ao capital privado — incluindo estrangeiro.
A BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras, foi privatizada. Em julho de 2019, a petroleira se desfez de mais 33,5% do capital que possuía, por R$ 8,6 bilhões, perdendo o controle acionário da empresa. A Eletrobras foi privatizada em 2022. O governo também autorizou o início dos estudos para a desestatização da própria Petrobras.
Flávio, como senador, defendeu publicamente a privatização dos Correios.
Flávio Bolsonaro: a continuidade do desmonte
O plano de governo de Flávio Bolsonaro, com 76 páginas, tem como um de seus eixos a retomada das desestatizações. O documento afirma que fará um "tesouraço" nos gastos públicos, com corte de dez ministérios e revisão do pacto federativo.
O plano não menciona a Petrobras uma única vez. Em contraste, o programa de Lula cita a estatal 11 vezes, posicionando-a no centro da política energética brasileira. Seu coordenador de campanha, Rogério Marinho, não descartou que parte dos ativos da Petrobras possa ser vendida.
Jair Bolsonaro começou o desmonte. Flávio Bolsonaro promete completá-lo.
5. O ataque à democracia e às instituições
Jair Bolsonaro: o golpe e a prisão
Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão por cinco crimes, incluindo tentativa de golpe de Estado. Ele planejou um golpe fracassado após se recusar a aceitar a derrota para Lula em 2022.
Durante seu governo, Bolsonaro troccou chefes da Polícia Federal para impedir investigações que atingissem aliados e familiares. O caso mais emblemático foi a demissão do diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, em abril de 2020, após pressão para que ele trocasse o superintendente da PF no Rio de Janeiro — responsável por investigações que envolviam a família Bolsonaro.
Bolsonaro também atacou a imprensa, tentou censurar críticas e promoveu a propagação deliberada de fake news e discurso de ódio. O ministro Gilmar Mendes afirmou que o governo Bolsonaro disseminou "o discurso de ódio, o fanatismo político e a indústria da desinformação".
Flávio Bolsonaro: a continuidade do autoritarismo
Flávio não apenas defende o pai. Ele promete anistiar o pai e todos os condenados pelo 8 de Janeiro. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que o primeiro ato de Flávio, se eleito, será indultar Jair Bolsonaro e todos os condenados pela tentativa de golpe.
Flávio atacou o atual diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, chamando-o de "pau-mandado de Lula" e "companheiro". Ele também chamou a operação sobre "Dark Horse" de "fajuta" e insinuou uma troca de favores entre o ministro Flávio Dino e o diretor da PF.
O senador acionou judicialmente o deputado Pedro Rousseff (PT) por causa de um post que dizia: "Com Flávio Bolsonaro no poder, esse é o ódio que vai se espalhar pelo Brasil inteiro". Ele também pediu ao TSE a remoção de um vídeo que o ligava a Vorcaro, ao Comando Vermelho e a Adriano da Nóbrega — pedido negado pelo Tribunal.
Enquanto isso, a própria campanha de Flávio distribui conteúdos falsos e ataques a adversários, além de materiais fabricados com IA. O TSE confirmou que é fake news a história de que Flávio tiraria o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil — mas o próprio Flávio repetiu informações falsas e desmentidas em entrevistas e transmissões.
Jair Bolsonaro tentou dar um golpe. Flávio Bolsonaro quer anistiar os golpistas e continuar o projeto.
6. A saúde e a pandemia
Jair Bolsonaro: 700 mil mortes
A pandemia de Covid-19 foi o momento mais trágico do governo Bolsonaro. O Brasil registrou mais de 700 mil mortes pela doença — um dos maiores números absolutos de óbitos no mundo. A CPI da Pandemia concluiu que Bolsonaro teve papel preponderante para que o país alcançasse essa marca.
Bolsonaro ironizou as vítimas com frases como "chega de mimimi" e "e daí?". Ele atrasou a compra de vacinas, promoveu tratamentos sem eficácia comprovada e sabotou as medidas de isolamento social.
Flávio Bolsonaro: a continuidade da negação
Flávio Bolsonaro foi indiciado pela CPI da Pandemia junto com seu pai. Ele não apenas apoiou as políticas negacionistas do pai, como defendeu publicamente as posições que levaram à morte de centenas de milhares de brasileiros.
O legado de morte do bolsonarismo não é apenas de Jair. É de toda a família.
7. O desmatamento e a destruição ambiental
Jair Bolsonaro: a floresta destruída
O governo Bolsonaro foi um desastre para o meio ambiente. Um estudo internacional associou declarações contrárias à conservação florestal feitas por Bolsonaro e integrantes de seu governo a aumentos no desmatamento da Amazônia.
De 2019 a 2022, Bolsonaro enfraqueceu e desmantelou agências responsáveis pela proteção da Amazônia. A média anual de desmatamento sob Bolsonaro foi de 11.396 km², contra 7.145 km² no período anterior. Em quatro anos, foram derrubados 45.586 km² na Amazônia.
Flávio Bolsonaro: a continuidade da destruição
O plano de governo de Flávio não menciona a Amazônia nem o meio ambiente em suas 76 páginas. Ele promete retomar o Programa Nacional de Desestatização e acelerar a exploração de recursos minerais — inclusive na Amazônia.
Jair Bolsonaro destruiu a floresta. Flávio Bolsonaro promete continuar a destruição.
Conclusão: o filho é o pai
Flávio Bolsonaro não é uma alternativa a Jair Bolsonaro. Ele é a continuação de Jair Bolsonaro.
- Jair foi indiciado por peculato, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Flávio é investigado por corrupção, lavagem de dinheiro e ligações com o crime organizado.
- Jair flertou com as milícias. Flávio é parte delas.
- Jair se submeteu aos Estados Unidos. Flávio quer entregar o Pix e sabotar o BRICS.
- Jair privatizou a Eletrobras e a BR Distribuidora. Flávio quer privatizar o que restou.
- Jair tentou dar um golpe. Flávio quer anistiar os golpistas.
- Jair foi responsável por 700 mil mortes na pandemia. Flávio foi indiciado pela CPI da Pandemia.
- Jair destruiu a Amazônia. Flávio promete continuar.
Não se trata de escolher entre o pai e o filho. Trata-se de escolher entre o Brasil e o bolsonarismo. E o bolsonarismo — seja na versão Jair ou na versão Flávio — é péssimo para o Brasil.
Eu não vou votar em Flávio Bolsonaro. E você também não deveria.
Este artigo foi baseado em reportagens do G1, Intercept Brasil, The Guardian, Revista Fórum, Piauí, Correio Braziliense, Poder360, BBC News Brasil, Estadão, Crusoé, IstoÉ, GP1, Estado de Minas, Folha de S.Paulo, Metrópoles, UOL, Agência Brasil, entre outras fontes citadas ao longo do texto. Todos os fatos mencionados são de domínio público e podem ser verificados independentemente.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a posição do dev.to.
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