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Maurilo Santos
Maurilo Santos

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GCP e a sensação enganosa de que a nuvem remove responsabilidade

Introdução

Google Cloud Platform costuma ser apresentada como um ambiente onde decisões difíceis já foram tomadas por você. Infraestrutura gerenciada, serviços altamente disponíveis, escalabilidade quase automática. Para quem vem de ambientes on-premise ou setups mais manuais, a impressão inicial é de alívio: menos coisas para cuidar, menos risco operacional.

Esse sentimento dura até o primeiro problema real em produção. Não porque a GCP falha com frequência, mas porque ela muda silenciosamente o tipo de responsabilidade que o time carrega. A infraestrutura deixa de quebrar de forma óbvia e passa a cobrar decisões mal pensadas com custos, latência inesperada e comportamentos difíceis de prever.

A abstração protege, mas também esconde

A GCP é excelente em esconder complexidade. Você cria um serviço, ele sobe rápido, escala, recebe tráfego. O problema é que essa abstração cria uma distância confortável entre o time e o funcionamento real do sistema. Enquanto tudo vai bem, isso é ótimo. Quando algo sai do esperado, entender o que está acontecendo exige atravessar várias camadas que ninguém precisou conhecer no começo.

Muitos problemas em GCP não se manifestam como falhas claras, mas como degradação. Latência aumentando aos poucos, quotas sendo atingidas sem aviso perceptível, retries automáticos mascarando erros reais. O sistema continua de pé, mas começa a se comportar de forma estranha. E como nada “caiu”, a investigação costuma demorar mais do que deveria.

A nuvem não elimina a complexidade. Ela a distribui de forma menos visível.

Escalar é fácil, pagar por isso nem sempre

Um dos choques mais comuns em GCP não vem de indisponibilidade, mas da fatura. Escalar serviços é trivial, limitar esse crescimento de forma consciente nem tanto. Recursos mal configurados, serviços que se comunicam mais do que deveriam, logs excessivos e métricas mal filtradas viram custos reais rapidamente.

O problema é que essas decisões raramente parecem erradas no momento em que são tomadas. Elas só se tornam visíveis quando o uso cresce ou quando um comportamento inesperado se repete milhares de vezes. Em ambientes on-premise, o limite físico impõe um freio. Na GCP, o freio é financeiro — e ele geralmente vem depois.

Esse atraso entre decisão técnica e impacto financeiro cria uma falsa sensação de segurança no início e uma urgência desconfortável depois.

Serviços gerenciados não significam domínio gerenciado

Outro equívoco comum é confundir serviço gerenciado com problema resolvido. BigQuery, Pub/Sub, Cloud Run, GKE: todos funcionam muito bem, desde que usados dentro de um desenho coerente. Eles não entendem domínio, não conhecem prioridades de negócio e não compensam escolhas ruins de arquitetura.

É comum ver pipelines complexos montados com serviços excelentes, mas conectados de forma frágil. Retries automáticos geram duplicidade, mensagens acumulam sem estratégia clara de consumo, jobs são reexecutados sem total consciência do impacto. Tudo está “funcionando”, mas o comportamento do sistema se torna cada vez menos previsível.

A GCP reduz o esforço operacional, mas exige mais clareza arquitetural. Sem isso, ela apenas permite que o sistema cresça mais rápido do que o entendimento sobre ele.

Observabilidade é onde a GCP cobra atenção

A GCP oferece ferramentas poderosas de observabilidade, mas não faz escolhas por você. Logs demais viram ruído. Métricas demais escondem sinais importantes. Alertas mal definidos disparam o tempo todo ou nunca disparam. Nada disso quebra o sistema, mas quebra a confiança do time na capacidade de reagir.

Em produção, muitos incidentes não são causados por falhas graves, mas por falta de visibilidade acionável. O dado existe, mas não está conectado à decisão que precisa ser tomada. E quanto mais distribuído o sistema, maior esse problema se torna.

A nuvem facilita coletar sinais, mas interpretar continua sendo um trabalho humano.

A dependência silenciosa da plataforma

Com o tempo, a GCP se infiltra em decisões que parecem pequenas. APIs específicas, comportamentos particulares de serviços, integrações profundas com o ecossistema. Nada disso é ruim, mas cria uma dependência que raramente é discutida explicitamente.

O problema não é o lock-in em si, mas a falta de consciência sobre ele. Quando uma mudança estratégica aparece, percebe-se que o sistema não depende apenas de infraestrutura, mas de formas específicas de operar que a plataforma incentivou. Reverter isso não é impossível, mas quase nunca é simples.

Conclusão

GCP é uma plataforma sólida e madura, mas não é um amortecedor de decisões ruins. Ela torna sistemas mais fáceis de criar e mais difíceis de entender superficialmente. Funciona melhor quando o time assume que a responsabilidade não desapareceu, apenas mudou de forma.

Quando usada com clareza, a GCP acelera evolução e reduz atrito operacional. Quando tratada como solução automática, ela apenas adia os problemas — e garante que eles apareçam em escala.

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