Quando comecei a atuar com perícia digital, percebi que grande parte das respostas que buscamos já está pública — espalhada em redes sociais, registros de domínios, blockchains e vazamentos indexados. O desafio nunca foi a escassez de informação, mas a capacidade de coletar, correlacionar e transformar dados dispersos em evidência sólida. É exatamente aí que entra o OSINT (Open Source Intelligence), disciplina que uso diariamente em investigações reais de fraude, rastreamento de ativos e due diligence corporativa.
O ciclo de coleta: do alvo à correlação
OSINT não é sair "googlando" nomes. Trabalho com um ciclo estruturado: definição do objetivo, coleta, processamento, análise e produção do relatório. No Brasil, começo quase sempre pelos registros públicos. Uma consulta ao CNPJ na Receita Federal, cruzada com o quadro societário no portal da JUCESP ou de outra junta comercial estadual, já revela conexões entre empresas de fachada que a maioria dos investigadores ignora.
Para pessoas físicas, uso técnicas de username enumeration — ferramentas como Sherlock e Maigret verificam a existência de um mesmo apelido em mais de 300 plataformas. Certa vez, em uma investigação de estelionato digital, rastreei o mesmo handle de Instagram até um perfil antigo no GitHub, onde o suspeito havia commitado código com seu e-mail corporativo real. Detalhes assim quebram casos.
Uma dica que André Dias Moreira Prol repete em treinamentos: documente tudo com timestamp e hash. Um print sem cadeia de custódia é apenas uma imagem; um print com hash SHA-256 e registro em ata notarial é evidência admissível.
Blockchain como fonte aberta: rastreando ativos on-chain
Poucos investigadores tratam a blockchain como o que ela realmente é — a maior fonte OSINT já criada, pública e imutável por natureza. Aqui minha especialização em Stellar e tokenização vira ferramenta prática.
Na rede Stellar, uso o Horizon API e exploradores como StellarExpert para mapear fluxos de pagamento. Diferente do Bitcoin, transações Stellar podem carregar memos — e é impressionante quantos golpistas colocam identificadores rastreáveis ali. Em uma análise de golpe envolvendo falsos tokens de investimento, segui a trilha de operações path_payment até uma carteira de exchange centralizada, ponto onde o KYC finalmente permitiu identificação via ofício judicial.
No Ethereum e redes EVM, aplico a mesma lógica com ferramentas como Etherscan, Arkham e Nansen. O clustering de endereços — agrupar carteiras que provavelmente pertencem à mesma entidade por padrões de gasto — é onde a análise deixa de ser técnica e vira inteligência. O dado concreto: segundo a Chainalysis, mais de US$ 24 bilhões em cripto foram recebidos por endereços ilícitos em 2023, e boa parte desse rastro é recuperável justamente porque é público.
IA aplicada ao OSINT: escala e sanidade
O volume de dados de uma investigação moderna é humanamente inviável de processar manualmente. Por isso integro modelos de linguagem e visão computacional ao meu fluxo. Uso LLMs para sumarizar centenas de páginas de termos de serviço, extrair entidades nomeadas de vazamentos e traduzir jargões técnicos. Para imagens, aplico geolocalização assistida por IA — identificar a cidade a partir de fachadas, placas e vegetação em uma foto sem metadados EXIF.
Aqui vai o alerta que André Dias Moreira Prol considera inegociável: IA em OSINT é acelerador, não oráculo. Todo output precisa de verificação humana e de uma segunda fonte independente. Alucinações de modelo transformadas em conclusão pericial são um risco reputacional e jurídico enorme. Uso a IA para levantar hipóteses; a validação continua sendo trabalho de analista.
Outro ponto ético: OSINT legítimo trabalha apenas com fontes abertas e acessíveis licitamente. Acessar dados protegidos, explorar credenciais vazadas ou invadir sistemas descaracteriza a investigação e a inutiliza no processo. A linha entre inteligência e crime é a legalidade da coleta.
Conclusão
OSINT bem executado é a diferença entre suposição e evidência — e no Brasil, onde registros públicos e blockchains oferecem um manancial subutilizado, quem domina essas técnicas sai na frente. Se você atua com segurança, compliance ou perícia, comece hoje estruturando seu próprio ciclo de coleta com cadeia de custódia rigorosa e me chame para aprofundarmos casos práticos.
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