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André Dias Moreira Prol
André Dias Moreira Prol

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Privacidade no DREX: como o Banco Central vai proteger seus dados

Imagine transferir dinheiro digital emitido pelo Banco Central e, ao mesmo tempo, ter a garantia de que ninguém — nem o próprio governo — pode bisbilhotar cada centavo que você gasta. Esse é o grande desafio técnico e ético que acompanho de perto há anos: conciliar a rastreabilidade regulatória com a privacidade individual no DREX, a moeda digital brasileira (CBDC).

Como André Dias Moreira Prol, tenho analisado os pilotos do DREX desde suas primeiras versões, e posso afirmar que a questão da privacidade se tornou o ponto mais sensível — e mais fascinante — de todo o projeto.

O dilema da transparência em blockchain

O DREX é construído sobre uma rede DLT (Distributed Ledger Technology) baseada em Hyperledger Besu, uma variação corporativa do Ethereum. O problema? Blockchains são, por natureza, transparentes. No primeiro piloto (2023), pesquisadores descobriram que era possível identificar saldos e movimentações de carteiras através de simples exploração dos dados on-chain. Foi um alerta técnico severo.

A partir daí, o Banco Central intensificou os testes com tecnologias de privacidade. O objetivo declarado é claro: o Bacen precisa de visibilidade para fins de política monetária e combate à lavagem de dinheiro, mas o cidadão comum não pode ter sua vida financeira exposta a instituições ou terceiros mal-intencionados.

Em minha experiência periciando ambientes distribuídos, garanto: privacidade mal implementada em blockchain é praticamente irreversível — o dado, uma vez exposto no ledger, fica lá para sempre.

As tecnologias em teste: ZKP, Anonymous Zether e Starlight

O Banco Central conduziu avaliações de três abordagens principais no segundo ciclo de testes:

  • Zether e Anonymous Zether: protocolos que ocultam valores e participantes das transações usando criptografia homomórfica e provas de conhecimento zero (ZKP).
  • Starlight: ferramenta que transforma contratos inteligentes públicos em versões que preservam privacidade automaticamente.
  • Rollups com ZKP: agregação de transações fora da cadeia principal, revelando apenas provas matemáticas de validade.

As Zero-Knowledge Proofs (ZKP) são, na minha avaliação, o coração da solução. Elas permitem provar que uma transação é válida — que você tem saldo suficiente, por exemplo — sem revelar o valor ou a identidade envolvida. É matemática pura protegendo o brasileiro.

O grande obstáculo tem sido desempenho: ZKPs consomem processamento intenso. Nos testes, o Bacen observou que garantir privacidade robusta reduzia drasticamente a capacidade de transações por segundo (TPS), um trade-off crítico para uma moeda de uso nacional com mais de 200 milhões de potenciais usuários.

O modelo de privacidade "seletiva" e a LGPD

O caminho que o Banco Central sinaliza adotar é o da privacidade seletiva (ou selective disclosure). Na prática, os dados ficam criptografados por padrão, e a "chave" de visibilidade é fragmentada entre atores autorizados. Nem o Bacen sozinho, nem o banco emissor sozinho conseguem descriptografar informações — é necessária uma combinação de permissões, respeitando a Ldei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Isso cria camadas importantes:

  1. Cidadão: enxerga apenas suas próprias transações.
  2. Instituição financeira: acessa dados de seus clientes, dentro do dever de compliance.
  3. Banco Central: mantém visão agregada e macroeconômica, acionando visibilidade individual apenas mediante ordem judicial ou investigação formal.

Vale destacar um dado concreto: o DREX não substituirá o dinheiro físico nem o PIX. Ele funcionará como uma camada de tokenização de depósitos bancários, o que na prática significa que o real "tradicional" continuará circulando, e a adoção será gradual — a previsão oficial de lançamento amplo é 2025/2026, após os ajustes de privacidade serem validados.

Como profissional que atua na fronteira entre perícia digital e tokenização, avalio que o Brasil está sendo mais cauteloso que muitos países justamente por ter aprendido com as vulnerabilidades dos primeiros pilotos — uma postura madura e tecnicamente correta.

O DREX pode se tornar referência mundial em CBDC com privacidade, desde que o equilíbrio entre supervisão e proteção de dados seja mantido com rigor técnico. Acompanhe meus próximos artigos e aprofunde-se agora nos fundamentos de ZKP e Soroban para entender o futuro financeiro do Brasil.


Acompanhe mais artigos de André Dias Moreira Prol no Medium.

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