Um AirPods funcionando de verdade no Linux: bateria de cada fone e do estojo, os modos de escuta, detecção de ouvido. Nada disso existia fora do mundo da Apple, porque nem o Bluetooth do sistema sabe ler esses números. O GM sentou e fez. O primeiro commit é de anteontem no fim da tarde, e ontem já estava publicado no diretório: 24 commits, menos de um dia, de graça.
Isso teria sido piada dois anos atrás. Hoje é só mais um plugin no diretório, entre outros quatrocentos e quinze.
Explicando pra quem não acompanha: o Omarchy é a distro Linux opinativa do DHH, criador do Rails, e eu uso ela desde o primeiro dia. Sexta passada saiu a versão nova, com um sistema de plugins: pedaços de interface que qualquer pessoa escreve e qualquer pessoa instala na barra do sistema com um comando.
O diretório da comunidade levou dezessete dias pra chegar a cem plugins. Depois de sexta, entraram mais de trezentos em cinco dias: 35 naquele dia, 82 no sábado, 99 no domingo, 80 hoje. São 416 plugins da comunidade publicados até agora.
Um deles é meu.

O mclovin aberto na barra, com as regras que já existem
O que o plugin faz
O problema que ele resolve é bobo e persegue todo mundo que trabalha no computador: você clica num link do Slack e ele abre no navegador errado, ou no perfil errado. O link do trabalho abre no Chrome pessoal, o link pessoal abre no perfil da empresa.
O McLovin põe um seletor no meio da tela quando você clica num link, com uma linha por perfil de navegador. Você escolhe onde abrir. Marca always e aquela escolha vira regra, então o próximo link daquele site já vai direto pro lugar certo. O resto está no README.

O seletor, uma linha por perfil. Marcando always, a linha vira a regra que vai ser escrita
Tudo roda dentro do omarchy-shell, em QML: sem daemon, sem binário, sem processo extra.
E aqui tem uma volta que eu gosto. A primeira versão do McLovin, anos atrás, era um plugin de barra feito só pra mim. Depois eu quis que fosse maior que isso, tirei de dentro do shell e reescrevi em Rust como programa independente, com CLI, TUI e GUI, pensando em rodar em qualquer sistema. Agora ele é plugin de novo, sem carregar uma linha daquele Rust.
O círculo fechou num ponto diferente do que começou: da primeira vez o plugin era só meu, e agora qualquer um instala com um comando. O programa em Rust continua de pé, é o que eu uso nas máquinas sem Omarchy, e o plugin importa as regras dele se você já tiver.
Eu já fazia plugin. Só que pra mim
Isso não começou agora. O plugin da VPN, que troca o país com a bandeirinha do lado, nasceu no Omarchy antigo. Quando comecei a testar o Quattro eu refiz ele pro shell novo, escrevi outro pra alternar o modo de polimento do ditado, e mais um painel de tela cheia no monitor secundário.

O plugin da VPN aberto: filtro em cima, países com bandeira embaixo

O do voxtype, onde eu monto a pipeline que limpa o texto ditado
Os três moram em ~/.config/omarchy/plugins/ e nunca saíram de lá. Não por segredo, e sim porque não existia porta. Eles resolviam um incômodo meu e paravam ali, e eu achava que ia ser sempre assim.
Aí o HANCORE montou o diretório, o Quattro saiu na sexta, e a distância entre "resolvi o meu incômodo" e "resolvi o incômodo de quem usa o mesmo ambiente que eu" virou um comando:
omarchy plugin add https://github.com/guilhermeyo/omarchy-mclovin.git --enable
A diferença não é técnica. O código do plugin de VPN não ficou melhor por existir um diretório. O que mudou foi o destino dele.
Um amigo, quatro plugins, uma noite
Um amigo meu instalou o Omarchy ontem. Terminou o setup umas oito e meia da noite. Sete da manhã ele já tinha quatro plugins que achava que faltavam na máquina dele, um deles cem por cento pronto e já submetido pra aprovação no diretório.
Isso é o que me impressiona, mais do que o meu próprio plugin. O ciclo entre "isso aqui tá me incomodando, podia ser melhor" e "pronto, resolvi, e agora tá lá pra quem quiser" cabe numa noite.
O que o Mac cobra pela mesma coisa
Tenho um MacBook e preciso dele pro Xcode e pra publicar pra iOS. Voltei a usar ele com mais frequência esses meses, e a diferença de atrito é grande: tudo pede autorização, tudo pede uma permissão em algum painel. Depois de um tempo de Omarchy, onde você simplesmente faz, isso incomoda.
Como não quero viver dentro dele, montei uma barra pro macOS parecida com a do Omarchy, em Swift e AppKit. São umas 7.500 linhas, com relógio, calendário, bateria, workspaces e abas de janela escritos por mim. Ela continua só minha, e não é por falta de open source no Mac: o Finicky, que eu usava pra rotear link lá, é open source e só existe pra macOS.
A diferença é o tamanho do que você precisa entregar. No Mac, compartilhar quer dizer virar app: empacotar, assinar, notarizar, escrever instalação, sustentar um site. No Omarchy é um repositório com um manifesto, que cai dentro de uma barra que todo mundo já roda. Uma pede um projeto inteiro em volta, a outra pede um git push.
E o Windows, que eu nem tento
Não uso Windows há mais de quinze anos, tirando abrir pra jogar um CS no Faceit. Quando pensei em publicar o McLovin lá, era certificado de desenvolvedor, assinatura, e a mesma burocracia de publicar em loja. Pra um programa que roteia link. Desanimei antes de começar, e com o pessoal saindo do Windows 11 essa diferença de atrito vira porta de entrada.
Tem o outro lado, que pesa igual. Quando a Microsoft anunciou o Recall, ficou no ar que o sistema ia observar tudo que você faz na sua própria máquina. No Mac eu já sentia uma versão mais discreta disso: muita coisa rodando por trás que eu não sei o que é nem pra onde manda. O usuário comum não vê e provavelmente nunca vai ver. Eu sei que tá lá, e me incomoda.
No Omarchy tudo que vem instalado é open source. A diferença é que dá pra auditar o que sai da sua máquina, e a resposta pra "o que é esse processo aqui" existe em algum lugar que você pode ler. Já escrevi sobre isso quando contei do daemon que o Chrome instala calado no macOS.
São os dois lados da mesma porta: quando o sistema é legível, você consegue mexer nele e consegue ver o que ele faz. Quando é opaco, você só pode aceitar.
Qualquer um pode fazer melhor que o meu
E vai fazer. Com IA hoje, alguém chega, olha o meu plugin, acha ruim e escreve um melhor até o fim de semana.
Isso não me incomoda, é literalmente o objetivo. O que importa não é o meu plugin ganhar. É o incômodo ser resolvido, de preferência por quem usa aquilo todo dia.
Quem tá segurando o diretório
O omarchyplugins.com é um projeto independente do HANCORE. É ele que está pondo tempo dele pra organizar isso, ler código e aprovar o que entra.

O selo de verificado não se dá sozinho: alguém leu o código antes
Ter alguém revisando plugin de estranho é o que separa um diretório de uma pasta de links. Meu plugin passou por ali antes de aparecer pra você, e isso é trabalho de alguém.
Finalizando
O plugin está no diretório, o código está aberto sob MIT, e a instalação é um comando.
Mas não é sobre o meu plugin. Faz quinze anos que eu não uso Windows e mais de um que uso Omarchy, e nunca vi o ciclo entre se incomodar e consertar ser tão curto. Um fone da Apple funcionando de verdade fora da Apple, escrito em menos de um dia. Um amigo com quatro plugins entre o jantar e o café. Trezentos plugins em cinco dias, escritos por gente que só queria que a própria máquina fosse um pouco melhor.
As coisas estão ficando diferentes, e a parte boa é que dá pra entrar hoje mesmo. Se tem um incômodo pequeno te perseguindo há meses, ele agora cabe numa noite, e o resultado não precisa ficar guardado na sua máquina.
Fontes:
- mclovin no diretório de plugins
- omarchy-mclovin no GitHub
- McLovin (Rust)
- omarchy-pods, o plugin de AirPods do GM
- Omarchy
Publicado originalmente em guilherme44.com.

Top comments (0)