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Matheus de Camargo Marques
Matheus de Camargo Marques

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O real plano de Flávio Bolsonaro: transformar o Brasil inteiro no Rio de Janeiro

O real plano de Flávio Bolsonaro: transformar o Brasil inteiro no Rio de Janeiro

A trajetória do senador Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro não é um acidente biográfico. É o alicerce de um projeto que agora se projeta para o país: levar ao plano federal o modelo de captura do Estado, violência e governança paralela que as milícias impuseram a vastas áreas do Rio.


As origens: eleito com o crime organizado

Flávio Bolsonaro começou a vida pública aos 21 anos, em 2000, eleito vereador no Rio de Janeiro. Segundo o presidente Lula, ele chegou ao primeiro cargo eletivo “já apoiado pelo crime organizado do Rio de Janeiro, pelos milicianos, e nunca mais parou”. Essa não é uma acusação isolada: é o ponto de partida de uma trajetória que, em cada etapa, revela a simbiose entre poder político formal e poder paralelo das milícias cariocas.

O jornal britânico The Guardian, em reportagem sobre a disputa presidencial de 2026, afirmou que Flávio tem “ligações com membros das máfias paramilitares do Rio”. A descrição não é retórica: é a síntese de um histórico documentado por investigações, decisões judiciais e reportagens ao longo de mais de duas décadas.


A atuação na Alerj: o voto que selou o pacto

A CPI das Milícias e os dois votos contra

Em 2008, quando a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro instalou a CPI das Milícias — presidida pelo então deputado Marcelo Freixo —, Flávio Bolsonaro foi um dos dois únicos deputados a votar contra a investigação. O outro foi Chiquinho Brazão, hoje condenado como mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

Freixo, que foi relator da CPI, recorda o episódio como definidor: “Todos os deputados foram a favor da CPI, menos dois: Chiquinho Brazão, hoje condenado como mandante do assassinato da ex-vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, e o filho do Jair, o 01, Flávio Bolsonaro”.

Ao se opor à CPI, Flávio sinalizou claramente a quem servia seu mandato. Essa omissão deliberada permitiu que as milícias se expandissem sem o escrutínio do legislativo estadual, consolidando seu poder territorial e econômico no Rio. Como analisou a Revista Fórum, Flávio “sempre esteve, como sua família, ligado à milícia e ao crime no Rio de Janeiro”.

A Medalha Tiradentes para o chefe do Escritório do Crime

O caso mais emblemático da relação institucionalizada de Flávio com o crime organizado é o de Adriano da Nóbrega, ex-policial militar e chefe do “Escritório do Crime” — uma central de assassinatos das milícias cariocas, responsável, entre outros crimes, pela execução de Marielle Franco.

Flávio Bolsonaro concedeu a Adriano a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria do estado do Rio de Janeiro. O detalhe que agrava o episódio: a homenagem foi entregue em 2005, quando Adriano estava preso preventivamente acusado de homicídio. Flávio e Jair Bolsonaro o visitaram na prisão para entregar a medalha. Em 2003, Flávio já havia prestado outra homenagem a Adriano.

Adriano da Nóbrega foi morto em 2020, durante operação da Polícia Militar da Bahia, após passar mais de um ano foragido. O senador, em sabatina, chegou a chamá-lo de “injustiçado”, omitindo que a medalha foi entregue quando o miliciano já estava preso.

Mãe e esposa do miliciano empregadas no gabinete

A relação não parou na homenagem. Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, mãe e esposa de Adriano, trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj até 2018. O Ministério Público do Rio as incluiu na investigação sobre o esquema de “rachadinhas”.

Os investigadores apontaram que Danielle repassou ao menos R$ 150 mil ao ex-assessor Fabrício Queiroz, com R$ 115 mil transferidos por contas controladas por Adriano da Nóbrega. A integração entre o gabinete parlamentar e a estrutura financeira do miliciano era, portanto, direta e documentada.


O esquema das “rachadinhas”: o gabinete como central de desvio

O gabinete de Flávio na Alerj foi o centro de um esquema de “rachadinhas” — desvio de salários de assessores fantasmas — que, segundo o Ministério Público do Rio, teve ramificações diretas com grupos milicianos. Parte dos assessores envolvidos possuía ligações com essas organizações criminosas.

Fabrício Queiroz, ex-assessor e personagem central do caso, concentrava em sua conta bancária valores transferidos por servidores comissionados ligados ao então deputado estadual. Relatórios financeiros da Alerj e registros funcionais corroboram o padrão. O caso resultou em denúncia por organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro.

Em 2026, a quatro dias do primeiro turno, Queiroz voltou a pedir votos para Flávio, enquanto o Ministério Público do Rio analisava representação para reabrir a investigação. O episódio mostra que o esquema não é passado: suas ramificações continuam operando.


Emendas parlamentares: o dinheiro público financiando o crime

Já no Senado, Flávio Bolsonaro direcionou emendas parlamentares para projetos de fachada que, segundo investigações, serviram para financiar a milícia. Uma apuração do UOL rastreou o destino de mais de R$ 300 milhões em emendas de Flávio desde 2020 e encontrou pagamentos a entidades com irregularidades graves.

Entre os beneficiários estão:

  • O Instituto de Medicina e Projeto (IMP), enquadrado pela Receita Federal como “inexistente de fato” e investigado pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio. Recebeu R$ 666 mil em agosto de 2025, provenientes de emenda destinada à saúde de Mesquita (RJ).

  • As empresas Glágio do Brasil (R$ 569 mil) e Inbra-Tecnologia (R$ 1,1 milhão), ambas alvo de operação da Polícia Federal por suspeita de cartel em licitações.

  • O Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP), já apontado em reportagem anterior por irregularidades na destinação de R$ 200 mil para um projeto esportivo em Taquara, no Rio.

Há ainda um elemento que conecta as emendas diretamente ao crime organizado. Segundo mensagens reveladas pelo Estadão, Robson Calixto, o miliciano conhecido como “Peixe”, condenado no caso do assassinato de Marielle Franco, tratou da liberação de emendas de Flávio Bolsonaro diretamente com uma assessora do senador.

O dinheiro público, portanto, em vez de chegar a projetos sociais legítimos, foi canalizado para estruturas criminosas. Como sintetizou o Intercept, “o senador lidera um projeto de extrema direita que ameaça aparelhar o STF, libertar o pai e subordinar o país a Donald Trump”.


Aliados no crime: o Comando Vermelho no coração do poder

O histórico de aliados políticos de Flávio reforça o projeto miliciano. Seu principal aliado no Rio, Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj e candidato da família Bolsonaro ao governo do Rio, foi preso e tornou-se réu no STF por ligação com o Comando Vermelho.

A Primeira Turma do STF, por unanimidade, recebeu a denúncia contra Bacellar, o ex-deputado TH Joias e o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, todos já presos. São acusados de obstruir investigação ao vazar informações sigilosas da Operação Zargun, que mirava o Comando Vermelho. A Polícia Federal apontou Bacellar como operador político do Comando Vermelho no Rio de Janeiro.

Flávio chegou a reclamar publicamente que Bacellar foi impedido de assumir o governo do Rio. Como denunciou Freixo, “Bacellar não assumiu porque tem ligações com o Comando Vermelho e está preso”.

Não é um caso isolado. Flávio indicou para secretarias do governo do Rio pessoas que foram posteriormente presas por ligações com o Comando Vermelho. A integração entre o projeto político de Flávio e as duas maiores organizações criminosas do Rio — milícias e Comando Vermelho — é, portanto, estrutural, não circumstancial.


O plano nacional: o Rio como laboratório, o Brasil como projeto

O que Flávio apresenta como “plano de segurança” é, na prática, a projeção nacional do modelo que ele ajudou a consolidar no Rio. Seu programa propõe declarar facções criminosas e milícias como organizações narcoterroristas, criar uma “tropa de elite” das Forças Armadas para patrulhar fronteiras e reduzir a maioridade penal para 14 anos.

A retórica é de endurecimento. Mas o histórico revela o oposto: um projeto que enfraquece o Estado e fortalece as milícias. A proposta de reduzir o tamanho do Estado e cortar impostos para os ricos resultaria, objetivamente, no enfraquecimento das polícias e no crescimento das milícias em todo o país.

O próprio Flávio sintetizou o plano ao afirmar que pretende reproduzir as políticas econômicas do argentino Javier Milei e as forças de segurança do salvadorenho Nayib Bukele. O modelo Bukele — de encarceramento em massa e suspensão de garantias — é apresentado como solução, mas ignora que, no Rio, o modelo que Flávio ajudou a construir é o da convivência com o crime organizado, não do combate a ele.

A análise do Intercept é precisa: “propostas concretas não são o cerne da sua campanha”. O cerne é o projeto de poder: levar para o plano federal o modelo de captura do Estado, violência e governança paralela que as milícias impuseram ao Rio.


Conclusão: o Rio como laboratório, o Brasil como projeto

A trajetória de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro não é uma história de desvios individuais ou alianças circunstanciais. É a história de como um projeto de poder se construiu em simbiose com as milícias:

  • Do apoio eleitoral inicial aos 21 anos, já com o crime organizado.
  • Da oposição à CPI das Milícias em 2008, ao lado do futuro mandante do assassinato de Marielle Franco.
  • Da Medalha Tiradentes a Adriano da Nóbrega — entregue na prisão — ao emprego de sua mãe e esposa no gabinete.
  • Do esquema de rachadinhas com assessores ligados a milicianos ao repasse de R$ 115 mil de contas do miliciano para Fabrício Queiroz.
  • Das emendas parlamentares direcionadas a ONGs fantasmas e institutos de milicianos à negociação direta com Robson Calixto, o “Peixe”, condenado pelo assassinato de Marielle.
  • Da prisão de Rodrigo Bacellar, apontado como operador político do Comando Vermelho, à indicação de aliados ligados ao tráfico para cargos públicos.

O título “transformar o Brasil inteiro no Rio de Janeiro” não é uma hipérbole. É a descrição precisa do que o histórico de Flávio Bolsonaro revela: a intenção de levar para o plano federal o modelo de captura do Estado, violência e governança paralela que as milícias impuseram a vastas áreas do Rio.

O Rio foi o laboratório. O Brasil é o projeto.

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