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Anderson Leite
Anderson Leite

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"IA" não é só para quem escreve código

Parte 2: como o resto de nós pode usá-la a sério

No primeiro artigo falei para programadores. Falei de terminais, de CLAUDE.md, de workflows de SDLC. E a mensagem no fim acabou por ser "isto é só para pessoal técnico."

É sim, é verdade, no contexto daquele artigo. E é também exatamente o problema que quero atacar agora.

Porque a parte mais importante daquele artigo NÃO era o Claude Code: Era uma ideia por baixo dele que não tem nada de técnico, e que serve igualmente bem um leque alargado de profissões, desde um advogado passando por um contabilista, um gestor de pessoas, um médico e indo até profissões completamente opostas como um personal trainer ou um profissional de marketing e publicidade. Este artigo é sobre essa ideia. E sobre as ferramentas que a tornam prática para quem nunca vai abrir um terminal na vida.

A linha que separa quem tira valor da IA de quem só tira ruído em respostas genéricas

Vou começar pela conclusão, porque é a coisa mais importante que interessa reter:

A diferença entre quem tira valor da IA e quem só recebe respostas genéricas não é competência técnica. É se a pessoa trata os seus próprios documentos e o seu próprio contexto como a matéria-prima.

Repara no padrão: No primeiro artigo, o CLAUDE.md funcionava porque dava ao agente o contexto acumulado do teu projeto: A arquitetura, as convenções, as lições aprendidas. Não era um chat em branco de cada vez. Era memória hand selected, com curadoria.

Isto não é uma ideia de programação, é a ideia central. Porque vamos ter sempre dois grupos de utilizadores para ferramentas de IA:

  • Quem cola uma pergunta vaga no ChatGPT e reza recebe uma resposta média, tirada de uma média da internet
  • Quem dá à ferramenta os seus contratos, os seus relatórios, as suas notas de reunião, os seus processos, recebe uma resposta ancorada na sua realidade.

A primeira pessoa está a usar a IA como um oráculo. A segunda está a usá-la como uma extensão do seu próprio trabalho, e este artigo pretende te transformar em uma pessoa do segundo grupo (caso você ainda esteja no primeiro).

Quase todas as ferramentas que vou mostrar a seguir partilham exatamente esta característica: São construídas à volta do teu material, não à volta de um prompt genial. Guarda isto na cabeça enquanto lês, isto tem que ser o fio condutor.

Uma nota antes de continuar: Nada disto substitui o teu julgamento. Estas ferramentas aceleram-te, mas a responsabilidade pelo resultado continua a ser tua. Isto vale para código e vale a dobrar para um parecer jurídico, um fecho de contas ou uma decisão clínica.


A ponte entre os dois artigos: O Claude Code, mas sem o terminal

Antes de saltar para as ferramentas de cada profissão, vale a pena fechar o arco com o artigo anterior, porque a Anthropic construiu literalmente essa ponte.

Chama-se Claude Cowork. A forma mais honesta de o descrever é: É o que o pessoal de IT tem no Claude Code para o resto do teu trabalho. A mesma arquitetura de agentes que mostrei no primeiro artigo, a capacidade de ler os teus ficheiros, trabalhar em cima deles e devolver um resultado acabado, mas sem terminal e sem uma única linha de código. Vive na aplicação de desktop do Claude: Apontas o Claude a uma pasta com os teus documentos, dás-lhe um objetivo em vez de uma pergunta, e ele executa as etapas.

A própria Anthropic diz que o público que mais precisa disto não são programadores: São analistas, equipas de operações, profissionais de jurídico e de finanças, gente que trabalha com documentos e ficheiros todos os dias e preferia gastar o tempo nas decisões de fundo em vez do trabalho de montagem. Há inclusive agentes verticais construídos pela Anthropic para trabalho jurídico (revisão de contratos, pesquisa de jurisprudência, verificação de citações) e financeiro (análise de resultados, reconciliação, relatórios).

Repara que isto é exatamente o mesmo princípio outra vez: O Cowork só é útil porque trabalha em cima dos teus ficheiros locais. É o CLAUDE.md sem o .md. Um aviso de segurança que é honesto dar: Antes de começar, como o agente mexe diretamente nos teus ficheiros, faz uma cópia de segurança antes de o deixares trabalhar numa pasta importante, e revê o que ele fez. A autonomia é a vantagem e é também o risco.


Para quem vive em documentos: RH, jurídico, contabilidade, consultoria

Se o teu trabalho é essencialmente ler muita coisa, sintetizar, e produzir texto fiável a partir disso, há uma ferramenta que foi literalmente desenhada para o teu caso: o NotebookLM, da Google.

A premissa é o oposto de um chatbot genérico. O NotebookLM só responde a partir das fontes que tu lhe dás. Carregas PDFs, Google Docs, páginas web até vídeos do YouTube, e a partir daí ele responde, resume e cita, sempre em cima do teu material e não de uma média da internet. Para quem trabalha com informação sensível, o ponto que muda tudo é este: A Google afirma, que os dados que carregas não são usados para treinar os modelos.

O que isto destrava, na prática:

Recursos Humanos. Carregas as políticas internas, o manual do colaborador, a legislação laboral aplicável. Passas a poder perguntar "quantos dias de licença parental se aplicam neste caso concreto?" e receber uma resposta com a citação exata da fonte. Podes gerar um resumo em áudio de uma política nova para partilhar com a equipa, porque o NotebookLM transforma documentos numa conversa entre dois apresentadores, útil para quem prefere ouvir a ler.

Jurídico. O caso é quase óbvio: Carregas um contrato de 80 páginas ou um dossiê de vários documentos, e usas o NotebookLM para localizar cláusulas, comparar versões e fazer o primeiro rastreio. O ponto crítico, e escrevo isto a negrito de propósito: O output é o teu ponto de PARTIDA, nunca o teu produto final. A ferramenta pode interpretar mal uma nuance, e numa peça jurídica isso custa caro. Ela poupa-te o trabalho de garimpo; não te dispensa de ler.

Contabilidade e finanças. Aqui entra outro tipo de ferramenta. O Skywork.ai posiciona-se como uma espécie de "Office com IA": Agentes especializados que geram documentos, apresentações e, o que interessa a esta área: Folhas de cálculo, sempre com investigação e citação das fontes. Tal como o NotebookLM, constrói a partir de uma base de conhecimento que tu carregas, e a versão desktop chega a processar ficheiros localmente, o que responde a preocupações de privacidade. Um aviso honesto, porque não te quero vender fumo: Algumas avaliações da app referem cobranças agressivas e planos premium caros (aqui tens a tabela comparativa entre os planos e o que cada um oferece). Experimenta o plano gratuito com calma antes de meteres cartão - Eu tenho usado esporadicamente a ferramenta e o plano gratuito tem me atendido bem. Para muito do trabalho de finanças, o Claude Cowork da secção anterior com o plugin finance faz o mesmo tipo de tarefa (reconciliações, análise de variações, relatórios) diretamente nos teus ficheiros.

E agora, dando um passo atrás: De onde vem a matéria-prima? Muitas vezes o teu contexto pode nascer numa reunião, e ninguém gosta de ser o único a tomar notas em vez de participar. É aqui que entra o Fireflies.ai: Liga-se às tuas chamadas no Zoom, Teams ou Google Meet (são as plataformas em que já o testei), grava, transcreve e resume automaticamente, com deteção de quem falou e lista de ações no fim. O resultado é, outra vez, matéria-prima tua: Uma transcrição que podes depois carregar no NotebookLM ou dar ao Cowork. Do ponto de vista de privacidade, a Fireflies indica que segue os principais padrões (SOC 2, GDPR com alojamento na UE, HIPAA com acordo e política de não usar os teus dados para treinar modelos). Mas há um aviso que te dou a sério, sobretudo se és de jurídico ou de RH: A ferramenta entra na reunião como um participante que grava, e em várias jurisdições gravar pessoas, ainda por cima capturando características de voz, exige consentimento informado de todos os presentes. Há inclusive litígios em curso exatamente sobre este ponto. A regra é simples: Avisa e obtém consentimento antes de a ligar, em especial em entrevistas de candidatos ou reuniões sensíveis. A tecnologia é ótima; a responsabilidade de a usar bem é tua.

O denominador comum destes casos é o mesmo do CLAUDE.md: Contexto curado e persistente ganha sempre a um chat em branco. Não estás a perguntar "o que sabes sobre isto?", estás a perguntar "o que dizem os meus documentos sobre isto?".


Para quem precisa de mostrar, não só de dizer: Marketing, produto, quem tem uma ideia

Há um segundo grupo de trabalho onde a IA já é muito forte: transformar uma ideia numa coisa visual e concreta. Aqui vivem duas ferramentas que quero posicionar com cuidado, porque são frequentemente mal recomendadas.

Google Stitch. Sê exigente com esta: O Stitch faz uma coisa muito bem, e é desenhar interfaces de aplicações, ecrãs de app, dashboards, páginas web, com exportação de código. Não faz apresentações, nem materiais de marketing, nem gráficos para redes sociais. Se és product manager, founder, UX/UI ou simplesmente tens uma ideia de uma ferramenta interna e queres ver como ficaria, descreves o fluxo em linguagem natural e ele gera vários ecrãs coerentes entre si. Se és de marketing e queres uma newsletter bonita, o Stitch é a ferramenta errada; não a uses só porque toda a gente fala dela.

Claude Design. Da Anthropic, é o parceiro certo para o que o Stitch não faz, e é aqui que o profissional de marketing e publicidade ganha mais. Serve para trabalho visual mais amplo: Protótipos, slides, one-pagers, materiais de marca, páginas de destino, visuais de campanha. Descreves o que precisas, ele cria uma primeira versão numa tela ao lado do chat, e refinas a conversar. Exporta para PDF, PowerPoint e Canva. O detalhe que o liga ao fio condutor deste artigo: durante a configuração, ele lê os teus ficheiros de marca (ou o teu código, se existir) e passa a aplicar as tuas cores, tipografia e componentes automaticamente. Outra vez: constrói a partir do teu material. Um marketer pode gerar variações de uma campanha on-brand em minutos e depois passá-las a um designer para o polimento; um fundador faz o mesmo com um deck de investidores.

Uma nota técnica que evita frustração: o Claude não gera imagens, áudio nem vídeo de forma nativa. O Claude Design faz layout, estrutura e design a partir de código e dos teus recursos, não fotografias inventadas do zero. Para o acabamento visual e edição colaborativa, a ponte natural é o Canva, para onde ele exporta.

A regra prática para este grupo: usa estas ferramentas para o primeiro rascunho e para explorar variações depressa, não para a entrega final de cliente. São excelentes a matar a página em branco. Não são substitutas do olho de um profissional para o acabamento.


Para quem trabalha com pessoas e conhecimento: medicina, formação, treino

Este é o grupo onde vou ser mais cauteloso, e peço-te que leias a cautela como parte do conselho, não como rodapé.

Medicina, e onde traçar a linha. Deixa-me ser direto sobre o que não deves fazer antes de falar do que podes: não colas dados de doentes identificáveis em ferramentas de consumo, e não usas nenhuma destas ferramentas para diagnóstico. Ponto final. Dito isto, há usos legítimos e valiosos na periferia do ato clínico. Um médico pode usar o NotebookLM para se manter a par de literatura: carregas os papers de uma área, geras um resumo em áudio, e ouves no carro a caminho do trabalho. Pode servir para preparar materiais de educação do doente em linguagem acessível, ou para digerir guidelines longas. O trabalho administrativo, como cartas, resumos de processos internos e formação de equipa, é onde o ganho é grande e o risco é baixo.

Formação e educação. Aqui o NotebookLM brilha sem asteriscos. Transforma o teu material de origem em quizzes, flashcards, mapas mentais e, nos planos pagos, em vídeos explicativos com narração e visuais. Um formador pode pegar num manual denso e gerar várias versões: uma em áudio para quem prefere ouvir, um mapa mental para quem pensa visualmente, um quiz para consolidar. E como tudo assenta nas mesmas fontes, a informação mantém-se consistente entre formatos.

Personal trainers e nutricionistas. O caso é o de sempre, aplicado a um novo contexto: carregas os teus protocolos, a tua metodologia, as tuas fontes de referência, e usas a IA para gerar materiais para clientes (planos explicativos, conteúdos educativos, respostas a dúvidas frequentes) que soam a ti e seguem a tua abordagem, em vez de conselhos genéricos da internet. A mesma cautela dos outros casos aplica-se: a ferramenta redige, tu validas.


Um bónus que foge ao tema (e é por isso que o ponho à parte)

Todas as ferramentas até aqui seguem o mesmo princípio: trabalham a partir do teu material. Esta próxima não segue, e é honesto dizê-lo. Mas resolve um atrito real que muita gente sente com a IA, por isso vale a menção.

Chama-se Superwhisper. Não é uma ferramenta de conteúdo, é ditado por voz que corre no teu Mac ou iPhone e transcreve o que dizes, com boa qualidade, dentro de qualquer aplicação, incluindo a caixa de texto de qualquer IA. Porque é que isto interessa? Porque um dos motivos pelos quais as pessoas dão prompts curtos e maus à IA é que escrever um prompt longo e detalhado a teclar é maçador. A falar, dás contexto muito mais rico em muito menos tempo. Descreves o problema todo em voz alta, com nuance, e recebes uma resposta à altura, em vez do habitual pedido telegráfico que gera uma resposta telegráfica. É uma daquelas ferramentas que parecem pequenas até as usares uma semana e não conseguires voltar atrás.


Uma palavra sobre custos, para não te iludir

O primeiro artigo tinha uma frase que hoje já não repetiria: a de que estas coisas são gratuitas. A realidade em 2026 é mais matizada.

O NotebookLM tem um plano gratuito genuinamente útil: dá para 100 blocos de notas, 50 fontes cada, e um número diário de perguntas e de resumos em áudio que chega para experimentares a sério se a ferramenta encaixa no teu trabalho. Mas as funcionalidades mais vistosas, como os vídeos explicativos, ficam em planos pagos (o Plus está incluído no Google One AI Premium, a rondar os 20 dólares por mês). O Claude Design e o Claude Cowork estão incluídos nos planos pagos do Claude, sem custo à parte, mas consomem do mesmo limite de uso que o resto (e tarefas de agente gastam mais depressa do que um chat normal). O Skywork, como avisei, tem planos premium caros.

A recomendação é sóbria: começa pelo plano gratuito de qualquer uma destas ferramentas, testa-a num problema real do teu dia-a-dia, e só pagas quando já sabes que o valor está lá. Não assines nada com base num vídeo de demonstração.


O método, que é o que fica

Repara que este artigo não te deu uma lista de ferramentas para decorares. Deu-te um princípio, e usou as ferramentas como prova dele.

Se ficares com uma única frase, que seja a mesma do primeiro artigo, só que traduzida para fora do mundo do código:

Deixa de tratar a IA como um oráculo a quem fazes perguntas. Começa a tratá-la como algo que trabalha em cima do teu material.

O programador faz isto com um CLAUDE.md. O advogado faz com os seus contratos. O gestor de pessoas com as suas políticas. O contabilista com os seus dados. O marketer com os seus recursos de marca. O formador com o seu manual. O personal trainer com a sua metodologia. A ferramenta muda; o hábito é o mesmo. E é esse hábito, não a fluência técnica, que separa quem em 2026 vai usar a IA a seu favor de quem vai continuar a colar coisas num chat e a rezar.

O ruído sobre IA não vai abrandar, mas agora tens um critério para o atravessar: isto trabalha a partir do meu contexto, ou só me dá uma média da internet? Se for a primeira, vale o teu tempo. Se for a segunda, provavelmente não.


Este é o segundo de dois artigos. O primeiro, focado em programadores e no Claude Code, pode ser lido aqui.

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