No fim de agosto falei em público pela primeira vez. Foi no estande da Dati no Startup Summit 2026, em Florianópolis: duas rodadas, uma na quarta e outra na quinta, com um telão ao lado mostrando o Amazon Bedrock rodando ao vivo e a plateia de fone, como é o formato de palestra em estande.
E a palestra não era minha.
"Preço por token não é preço" nasceu com o Bruno Vilardi Bueno, meu colega no Dati Labs, que a apresentou pela primeira vez no webinar da Dati, em junho. Deck, duas demos, roteiro e um apêndice com as perguntas que sempre aparecem. Eu peguei esse material, estudei até entender cada número, rodei as demos na minha própria conta e levei para o público.
Este texto é sobre o que acontece nesse meio do caminho.
Uma palestra que só uma pessoa dá
Se o Bruno estivesse de férias ou em outro cliente na semana do Summit, aquele conteúdo simplesmente não teria ido para o estande. Um ativo que depende de uma pessoa específica para ser entregue é um gargalo com slide bonito.
O Palla, que lidera o Dati Labs, escreveu sobre o detalhe que decide se um radar de tecnologia vive ou morre. O radar morre quando ninguém alimenta. Uma palestra morre pelo mesmo mecanismo por outro caminho, quando ninguém além do autor consegue entregá-la. Nos dois casos o artefato continua lá, bonito, e mesmo assim não sobrevive ao primeiro conflito de agenda.
Levar a palestra do Bruno ao Summit foi, na prática, o primeiro teste disso no Dati Labs.
O que o Bruno me entregou
O pacote tinha quatro peças: o deck, duas demos, o roteiro e um apêndice com as perguntas que sempre aparecem.
O apêndice é a peça rara. A maioria dos repasses entrega o deck e para por aí. Ter escrito "quanto tempo leva medir isso", "provisionado sai mais barato?" e "e se eu trocar de modelo depois?" com a resposta pronta foi o que me deu confiança para abrir espaço para perguntas nas duas rodadas.
Externalizar é metade do movimento
O Palla também escreveu sobre por que a IA removeu a obrigatoriedade da colaboração e sobre o risco de cada pessoa virar herói de um pedaço do trabalho. Ele usa a espiral do conhecimento de Nonaka e Takeuchi para explicar por que escrever um documento não basta. Externalizar é metade do movimento. A outra metade é alguém internalizar aquilo, transformar de volta em repertório próprio, e a espiral só gira se as duas acontecerem.
Foi exatamente isso que aconteceu aqui, e eu só percebi depois.
O que internalizar custou
Internalizar é mais chato do que parece. No meu caso foi rodar as duas demos na minha conta até os números serem meus, refazer a conta do agente no papel para entender de onde vinha, e ler a documentação de service tiers e de batch inference para saber responder por que batch não serve para agente antes de alguém perguntar.
Nada disso é decorar o deck. Na hora de apresentar eu não estava repetindo o Bruno, estava explicando uma coisa que eu entendia, com o mapa que ele desenhou.
E foi durante essa parte que apareceu o número que não estava no material.
O número que não estava no deck
Antes de qualquer slide, uma demo: a mesma frase em português enviada para oito modelos no Bedrock. O prompt é idêntico em todas as chamadas e o que muda é só o identificador do modelo. Onze palavras viram 22 tokens em um modelo e 36 em outro, 64% de diferença para a mesma entrada, e nenhum preço entrou nessa conta ainda.
Quando rodei essa demo na minha conta, em agosto, o catálogo já não era o mesmo de junho. Rodei de novo incluindo a família nova da Anthropic e o número mudou: a mesma frase que dava 32 tokens na família 4.6 deu 40 na família 5.
Mesmo fornecedor, mesma tabela de preço por token, 25% a mais de tokens de entrada.
Isso não estava no deck do Bruno. O número apareceu porque alguém pegou o material, rodou de novo e olhou o resultado.
Foi também o ponto que mais pegou o público nas duas rodadas. A comparação entre oito modelos diferentes as pessoas aceitam rápido, porque é intuitivo que Llama, Amazon Nova e Claude recortem texto de jeitos diferentes. Trocar de versão dentro da mesma família parece uma operação neutra para o custo, e não é. Você atualiza o identificador do modelo, não mexe em uma linha de código, e a fatura do mês seguinte vem diferente.
Nas duas rodadas essa foi a parte em que as pessoas paravam de olhar o telão e começavam a anotar.
O que isso diz sobre repasse
Se eu tivesse decorado o deck, teria apresentado os oito modelos de junho e ninguém teria percebido nada. O material teria sobrevivido intacto e teria envelhecido em silêncio.
A diferença entre as duas coisas foi uma tarde rodando as demos.
É esse o argumento da espiral, na prática. Um repasse que funciona devolve mais material do que recebeu, e o sinal de que alguém internalizou de verdade é justamente aparecer uma informação nova que o autor não tinha.
O que a próxima pessoa vai precisar
O material do Bruno era muito bom e ainda assim tinha uma lacuna que só aparece quando outra pessoa pega. Essa lacuna virou item de checklist, e o checklist é o que eu entrego para quem for dar essa palestra depois de mim:
- Deck e roteiro. O óbvio, e o único que a maioria dos repasses cobre.
- Demos que rodam numa conta que não é a do autor, com model access, região e profile documentados. Demo que só roda na máquina de quem escreveu não é repassável.
- Apêndice das perguntas recorrentes, com a resposta pronta. É o que permite abrir para perguntas sem medo.
- Data de validade nos números. "Medido em junho de 2026, com estes model IDs." Todo número de demo de IA tem prazo e nenhum deck avisa qual é.
- Tempo por bloco e o que cortar quando o horário aperta. Em estande o horário sempre aperta.
- Meia hora de conversa com o autor. Nenhum documento substitui, e é a parte mais barata do pacote.
O item da data de validade é o meu. Os outros cinco eu aprendi recebendo.
E tem uma instrução que vale mais que o checklist inteiro: a demo precisa ser rodada de novo, não relida. É rodando que você descobre o que mudou desde que o material foi escrito, e é isso que separa apresentar de repetir.
O teste passou
Hoje a palestra mora em duas cabeças e o material está pronto para uma terceira. Era esse o teste. Se um ativo do Dati Labs troca de mão sem perder qualidade, e ainda volta com um número a mais do que tinha, ele pode ir para os outros times da Dati. É para lá que ele vai agora.
O conteúdo técnico da palestra, a conta inteira com os números, merece um texto próprio, e é o próximo que eu escrevo.
Créditos
"Preço por token não é preço" é do Bruno Vilardi Bueno.
O Dati Labs é a área de AI & Modernization da Dati, liderada pelo Marcelo Palladino.
O Startup Summit 2026 aconteceu de 26 a 28 de agosto, em Florianópolis. Obrigado a quem parou no estande para ouvir.

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