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O Fahrenheit 451 da TI: questionando pesquisas salariais

Henrique Lobo Weissmann (Kico)
Progr(amo), logo existo. Fundador da itexto.
・5 min read

Texto escrito em 2013

Recentemente topei com uma pesquisa salarial na área de desenvolvimento de software que me fez lembrar de um filme do François Truffault chamado Fahrenheit 451 (baseado no livro homônimo de Ray Bradbury). A pergunta que me faço é a seguinte: será que não estamos simplificando demais o humano?

O que me chamou a atenção foi o critério principal da pesquisa que cito abaixo:

Diferencial:   a nossa pesquisa leva em conta não somente o cargo ou função, mas principalmente a tecnologia que o profissional conhece.

No livro de Ray Bradbury, em um futuro indeterminado os livros são proibidos e os bombeiros desempenham o papel de proteger a humanidade da "perigosa"  palavra escrita queimando livros (as pessoas vivem em casas "a prova de fogo" e não se lembram da época em que bombeiros combatiam incêndios). Para salvar a cultura existem espalhados pelo mundo seres subversivos conhecidos como "pessoas livro" (book people) que basicamente adotam o nome de um livro de sua preferência, o decoram e em seguida queimam para evitar que sejam pegos pela polícia. E assim vão transmitindo esta cultura verbalmente de pai para filho com a esperança de um dia esta lei senil tornar-se inválida e os livros voltarem a ser impressos.

A cena que me veio à cabeça quando topei com a pesquisa foi a que exponho abaixo em que o protagonista, Guy Montag (ex-bombeiro) é apresentado à "República de Platão", "Orgulho e Preconceito de Jane Austin", "O Príncipe de Maquiavel" e diversas outras pessoas-livro.

(link para o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=0sHcFlFmJ60)

Me vi no papel de Montag conhecendo o "Java Jr", "Perl Sr", "Visual Basic Pleno", "Clipper Sr", "Senhora Ruby" e muitos outros naquele mesmo bosque. Todos maravilhosos especialistas incapazes de conhecer qualquer coisa que esteja fora da sua área de especialização. Me pergunto como seria o filho da "Madame C" com "Sr. Ruby"? Seria este um mestiço simpático?

Neste delírio pude perceber também que há castas bastante rígidas e muitas vezes cruéis dado que aparentemente o especialista é especialista em apenas um ramo: pobre do experiente Sr. Clipper, ganha R$ 2811,00 enquanto o serelepe  Java Júnior começando sua vida já ganha de cara R$ 2529,00. Promissor este garoto!

Mas não fique triste Sr. Clipper, uma vez que você tenha tanta experiência acumulada, pode passar a ganhar mais que o Mr. Java: basta mudar de área, pois tal como observado pela pesquisa, normalmente uma carreira possuí o seguinte desenvolvimento que cito abaixo:

De uma forma geral, a carreira profissional em determinada função segue a seguinte sequência: estagiário : trainee : auxiliar/assistente : tecnico/analista : supervisor/coordenador : gerente

Basta que você ao se tornar bom na coisa, como excelente técnico, passe a ser algo completamente diferente e novo para você: supervisor/coordenador e quem sabe gerente! Foda-se que seja algo totalmente distinto e diferente daquilo que domina!

E aí eu acordei

BURN Programador X, BURN! BURN Programador X, BURN!

Acordei suando frio e para meu espanto percebi que era verdade. É novamente a questão do desperdício humano que mencionei no post anterior. Realmente observo isto em entrevistas de emprego nas quais sou caracterizado como programador (Java, Groovy, Grails, qualquer coisa).

(curiosamente só vejo o nome "arquiteto" na prática servindo para denotar programadores muito experientes pelos relatos que recebo)

Será que este tipo de classificação não é penosa para o empregador também? Digo: a partir do momento em que contrato alguém pensando ser um especialista em X, será que não estou acidentalmente me cegando para as outras possibilidades do indivíduo?

E quando vejo a progressão profissional apresentada, sabem o que me choca? Todo mundo diz que na nossa área é uma luta para obter boa mão de obra técnica. Se é tão difícil assim, por que quando o sujeito fica bom nós o obrigamos a ir para uma área completamente diferente (gerência, coordenação, humanas) daquela na qual finalmente passou a dominar? Será que não seria mais interessante garantir o crescimento técnico do indivíduo ao invés de simplesmente zerar sua experiência?

Alguns poderiam dizer: "ah, mas o cara tem de se atualizar". É verdade, não há dúvidas sobre isto. No entanto o que observo com esta classificação do mercado é que ela novamente ignora o fato de que pessoas podem aprender.

O que proponho então

A mentalidade desta pesquisa já está cristalizada na cabeça de diversos gestores. Cabe a nós dar o grito. Que tal se você parasse de se apresentar como "Programador Java", e sim como "Programador", "Desenvolvedor" ou qualquer nome da moda que surja no futuro? Afinal de contas você consegue aprender outras linguagens e plataformas, certo? Se não meu amigo, busque a felicidade mudando de área.

Outra: valorize sua experiência passada. Você faz mais do que simplesmente programar na linguagem X ou ambiente Y, certo? Que tal dizer que também adoraria experimentar coisas diferentes ahn? E ainda mais importante: que tal começar a pensar nos critérios que este tipo de pesquisa apresenta ao invés de simplesmente aceitar de cara?

E ainda mais importante: evite o determinismo linguístico. Quando você se caracteriza como programador X, seu mundo passa a ser visto apenas pelas lentes de X. Quatro anos atrás escrevi sobre isto neste blog. Programação poliglota não é modinha mas questão de sobrevivência. Sempre foi mesmo antes de ter este nome hipster.

Sinto muito, mas acredito que precisamos questionar melhor estas pesquisas salariais ao invés de aceitá-las assim tão rápido.

PS: dúvida maldosa

Sou muito bom em pelo menos umas cinco linguagens. Será que meu salário deveria ser a soma dos plenos de cada uma delas?

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