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Essa foi a dúvida que me levou a encontrar um dos meus maiores gargalos na minha evolução pessoal e profissional. Eu tinha a ideia de que quanto mais eu estudasse, melhores seriam os meus resultados. Estava parcialmente certo. O método que eu usava me fazia acumular muito conhecimento. Entretanto, eu não conseguia transformar isso em capacidade para resolver problemas reais, e isso me travou por anos.
Com o objetivo de me tornar um grande engenheiro de software, desde que tive contato com a primeira linha de código, eu passei a estudar por muitas horas sobre o tema. No começo, gastei diversas horas de estudo para aprender o básico de algumas linguagens de programação. Mas depois que direcionei minhas forças para uma única linguagem, evoluí o estudo para outros temas. Passei a ler e ouvir sobre OOP, código limpo, DDD, arquitetura, entre outros.
Seja através de blog posts, artigos, podcasts, vídeos, cursos ou livros, eu consumia constantemente conteúdo sobre programação. Por conta disso, sempre me considerei muito estudioso. Sempre estive em contato com as tecnologias e práticas mais discutidas, ou no “hype“, de cada momento.
Estar em constante descoberta de novos termos, tecnologias e práticas, me permitiu ser destaque nas minhas primeiras experiências profissionais. Eu tinha conhecimento da existência de diversas coisas que a maioria não tinha, mesmo que eu não tivesse experiência com a grande maior parte delas. Isso acabou reforçando o hábito que eu tinha de sempre buscar aprender sobre novas coisas, mesmo que não as colocasse em prática.
Eu tinha a premissa de que precisava passar muitas horas estudando, pois precisava ter conhecimento (saber da existência) da maior quantidade de tópicos possíveis, suportada pela ideia de que o mercado estaria disposto a pagar tanto quanto mais conhecimento alguém tivesse. Com isso, eu passei anos entretido no estudo de temas sempre novos, tentando conhecer a maior quantidade de tópicos que eu podia, mesmo sem praticar concretamente o que estudava.
O problema é que, quando esse conhecimento precisava sair da teoria e entrar na prática, eu travava. Bastava aparecer um problema real no trabalho para toda aquela sensação de estar preparado desaparecer. Eu lembrava que já tinha visto algo parecido em algum artigo, livro ou palestra, mas não conseguia transformar aquela lembrança em uma solução concreta. Era como se eu tivesse uma biblioteca inteira na cabeça, mas não soubesse em qual estante procurar quando realmente precisava de um livro.
Isso fazia eu me questionar: “Será que não estou estudando o suficiente?“. Com isso, eu passava mais e mais horas estudando da mesma forma, com uma sensação de insuficiência e incapacidade cada vez maior.
Com o tempo, comecei a perceber que o problema não era falta de estudo. Pelo contrário: eu estudava demais. O problema era que quase todo o meu esforço estava concentrado em adquirir novos conhecimentos, e muito pouco em transformar esses conhecimentos em habilidade. Eu acumulava conceitos, mas não construía repertório. Sabia explicar uma tecnologia, mas não tinha confiança para utilizá-la diante de um problema novo.
Quando não existe um problema para resolver, o cérebro tende a tratar aquele conhecimento como algo de baixa prioridade. Afinal, ele nunca precisou ser utilizado. Por isso, meses depois, eu lembrava que já tinha estudado determinado assunto, mas não conseguia aplicá-lo quando realmente precisava.
De fato, o “estudo exploratório“ me permitiu ter conhecimento da existência de diversas coisas. Entretanto, o meu entendimento sobre cada uma delas era muito superficial. É como se o meu conhecimento fosse uma poça larga e rasa, que possui metros de diâmetro, mas nem alguns milímetros de profundidade. Eu conhecia a teoria, mas não era capaz de resolver problemas com ela.
Foi aí que eu entendi: eu enxergava o estudo como o objetivo final, e não como um meio para se alcançar algo. Eu escolhia o próximo tema porque havia sido recomendado, a próxima tecnologia porque estava em alta ou o próximo curso porque parecia interessante. Raramente existia um problema concreto que justificasse aquele aprendizado. Estudava por que achava que devia estudar.
Eu entendi que conhecimento é diferente de capacidade. A capacidade nasce quando o conhecimento é colocado à prova. Quando você precisa tomar decisões, cometer erros, lidar com restrições e adaptar aquilo que estudou à realidade. É nesse processo que a teoria deixa de ser informação e passa a fazer parte do seu repertório.
Depois de entender isso, precisei mudar completamente a forma como estudava. Em vez de escolher um tema porque ele parecia interessante, passei a começar por um problema que eu ainda não sabia resolver. Só então eu estudava o conhecimento necessário para atacar aquele problema.
Se eu queria aprender testes automatizados, não assistia dezenas de horas de conteúdo sobre o assunto. Eu construía uma aplicação e tentava testá-la. Quando surgia uma dificuldade, estudava exatamente aquele ponto. Depois voltava para o código. Repetia esse ciclo até conseguir resolver o problema sozinho.
Aos poucos, o estudo deixou de ser uma atividade isolada e passou a fazer parte do processo de construção de capacidade. A teoria passou a responder perguntas que surgiam durante a prática, em vez de antecipar perguntas que talvez nunca existissem.
Hoje, quando quero aprender alguma coisa, a primeira pergunta que faço não é "o que devo estudar?", mas "qual problema eu quero ser capaz de resolver?". A clareza da resposta para essa pergunta determina o que vale a pena estudar, o nível de profundidade necessário e, principalmente, como vou colocar aquele conhecimento em prática.
Essa mudança de pensamento aumentou muito o retorno dos meus estudos, passei a resolver mais problemas e cada vez maiores, colocando em prática o que aprendia. Além disso, essa mudança me tornou capaz de tomar melhores decisões no dia a dia.
Resumindo o que eu entendo hoje:
Não estude para saber mais. Estude para resolver problemas que hoje você ainda não consegue resolver.
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