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Sobre ter cautela e talvez não pular imediatamente de galho em galho no mercado de TI

Victor Antunes
Linux sysadmin and software developer by day. Problem solver, amateur photographer, enthusiast drummer and nature lover by... well, day and night. Bad jokes user, meme maker extraordinnaire.
・6 min read

Esses dias eu me deparei com algumas discussões sobre mudanças de emprego constantes no mercado de desenvolvimento de software no Brasil.

É fato que estamos vivendo uma realidade bastante complexa no momento. Empresas gringas pagando em dólar/euro a taxas cambiais bastante favoráveis pra quem mora no Brasil. Empresas brasileiras sentindo a fuga de talentos e tendo que elevar os salários pra manter a competitividade. Claro, isso leva ao cenário de uma bolha, o que por si só já é bastante preocupante, mas pretendo tratar disso em outro momento.

Nesse post eu quero me direcionar para os iniciantes da carreira de TI. E quero ajudar a exercer um pouco de cautela. Como disse, o cenário é complexo. É 2021, afinal de contas, e se você for como eu, está sentindo há vários meses os sintomas mentais do isolamento e tudo mais que isso ocasiona. E isso impacta em nossas vidas profissionais de mais formas do que gostaríamos de acreditar.

Imagine que você já conseguiu seu primeiro emprego em TI. Talvez até o segundo. Uma Sandy/Júnior em ascensão. Talvez você até já esteja cansado(a), porque eu sei que eu estou. Você provavelmente está trabalhando com algumas tecnologias de desenvolvimento web para front ou backend. Um Javascript ou Python da vida. Você está na batalha de estudar a documentação da linguagem a fundo (leia-se: copiar códigos do StackOverflow) o dia todo a fim de resolver suas tasks. E depois vem mais outra task, e mais outra, e depois reunião, e não sei o que mais lá. E você precisa estudar, e vem outra tecnologia, e vem Cloud, Machine Learning, Deep Learning, Data Science, SRE/DevOps, Linux, Windows. E do nada ainda vem um velho te falar que bom mesmo é o Java. Cara, quem gosta de Java? Só velho gosta de Java. Tipo eu.

E aí você se pergunta: eu mudo de emprego? Tá todo mundo mudando. Eu tento ganhar melhor? Tá todo mundo ganhando. Eu vou pra um projeto com uma stack e uma empresa mais daora? Tá todo mundo indo. São perguntas válidas, e de qualquer forma, todas as pessoas que resolvem abraçar esses desafios de pular pro próximo passo são profissionais valorosos no mercado. E você também é, e continuará sendo, mesmo que não resolva sair do seu emprego ou projeto atual. Nessa peer pressure constante de sempre conseguir o melhor emprego e o melhor salário com as tecnologias mais descoladas e hypadas do momento, esquecemos que não é demérito nenhum seguirmos nosso processo em nosso próprio tempo.

Claro, todo mundo quer ganhar mais e ter um projeto mais chamativo. Mas como se esse mercado de TI já não fosse tóxico o suficiente (acredite, ele é), ainda por cima estamos em 2021. Pandemia, bicho. Tá morrendo gente pra cacilda e a gente tá vivo. O mundo inteiro tá se vacinando, enquanto a gente tá fazendo a nossa parte de ficar em casa pra tentar sobreviver e contribuir com a saúde pública. Não tem problema nenhum em deixar aquele job novo pra depois.

Mas esse também não é um post pra desencorajar quem quer mudar de emprego. É só pra dizer que tudo bem se você não quiser fazer isso agora. Sabe por quê? Porque também existem benefícios em se manter no emprego atual por mais um tempo.

Quando você é iniciante no mercado, é comum se perguntar se deveria estudar para dar conta da demanda do emprego atual, ou se deveria focar quase que única e exclusivamente em passar a trabalhar com aquilo que almeja. Ou será que ambos?

Idealmente? Claro que ambos. O máximo de coisas que você puder estudar. Um pouco de tudo, mas sempre lembrando que não somos máquinas e não podemos ser especialistas em todas as tecnologias já inventadas. Escolham uma ou duas, talvez três, e se informem sobre outras da forma que puderem. Não tentem abarcar tão cedo o mundo com as duas mãos. Vocês são iniciantes, afinal de contas. Ainda têm muito tempo pela frente para quebrarem cabeça com mil stacks complexas, para ficarem putos, para se decepcionarem e para escreverem posts que nem esse dando dicas pra quem tá começando.

Ok, idealmente ambos. Mas e na prática? Ora, na prática você vai ter que escolher se está infeliz com seu emprego atual a ponto de precisar mudar imediatamente, ou se está feliz o suficiente para aguentar essas tasks relativamente chatas enquanto consegue experiência e confiança o suficiente para, num futuro não tão distante, ir em busca de um objetivo maior.

Caso você opte por ficar onde está por mais um pouco de tempo, eis algo que, em minha humilde opinião, costuma passar despercebido por muitas pessoas em começo de carreira. Quando estudamos para dar conta do nosso serviço atual, mesmo que estejamos de olho em outros jobs, temos uma chance de assumir e executar responsabilidades até o fim de um projeto. A satisfação que obtemos ao recebermos uma responsabilidade e conseguirmos atender aquilo que nos foi pedido é bastante gratificante. Esse tipo de sensação costuma nos dar uma motivação grande para continuarmos estudando e almejando desafios maiores, sejam eles projetos mais complexos ou vagas de emprego mais atraentes.

Eu tenho a leve impressão de que essa responsabilidade às vezes não é levada à sério quando a mentalidade é pular de um emprego para outro visando apenas o salário. Comumente esquecemos que não somos profissionais tão especiais quanto gostamos de pensar. Somos parte de uma classe trabalhadora, e possuímos alguns tipos de habilidades. Vendemos essas habilidades em troca de um salário no fim do mês e procuramos nos aperfeiçoar constantemente para nos mantermos atualizados a respeito das inovações do mercado. Nada mais que isso. No final das contas, somos contratados para resolver problemas e assumir responsabilidades, e se nossa reputação é de deixar as pessoas envolvidas no projeto de mãos abanando, estamos sabotando nosso nome no mercado. E nosso nome, meus caros e minhas caras, é muito, muito valioso. Certamente valioso demais para arriscarmos ao deixar um cliente ou chefe no perrengue sem parar para considerar a situação de forma clara e objetiva. Claro, há casos e casos. Mas vocês entenderam o argumento. Analisem e tenham calma. Meçam seus prós e contras. Talvez continuar no seu emprego atual seja mais valioso no longo prazo. Talvez seu chefe seja um escroto que não merece mais um segundo do seu esforço. Talvez daqui a dois meses você se depare com uma vaga ótima e decida que está na sua hora de mudar. Só não aja sem pensar. A gente sabe que jovem gosta de tomar decisões precipitadas, mas é da sua carreira profissional que estamos falando. Ela merece uma boa ponderação.

(Claro, estamos excluindo abusos e assédios aqui. Em caso de assédio, corra. Se necessário, não hesite em tomar medidas legais.)

Como último argumento desse artigo relativamente longo, gostaria de dizer que, ao contrário do que muita gente te faz querer pensar, trocar de emprego não é sempre tão simples assim. Envolve alguns entraves, demoras para receber respostas, desafios técnicos maçantes e recruiters chatos e às vezes até mesmo abusivos. Não temos como afirmar a probabilidade dessas coisas acontecerem durante seu processo seletivo, mas infelizmente há relatos o suficiente para que passemos a levar esses fatores em consideração. De qualquer forma, nesses tempos de isolamento, precisamos ficar atentos a como isto tudo influencia em nossa saúde mental. Essas buscas por salários e desafios maiores podem nos afetar de maneiras inesperadas. Sem falar que muitas vezes a empresa não é aquilo que tinha na propaganda, e a vaga acaba se mostrando ser bem arrombada. Ou seja, novamente, vá devagar e tome o seu tempo.

Por fim, agradeço a você que chegou até aqui, principalmente levando em conta que dev não lê. Essa não é uma tentativa de te desencorajar. É uma tentativa de te fazer refletir e ter cautela.

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