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Vinicios "ViniDev" Coelho
Vinicios "ViniDev" Coelho

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Falta de querência: o que está faltando em muitos profissionais iniciantes de tecnologia

O maior problema de muita gente que está se formando em tecnologia não é falta de curso, linguagem ou inteligência artificial.

É falta de querência.

E não, este não é um guia de como arrumar emprego ou passar em processo seletivo. Se você chegou aqui esperando uma fórmula, uma lista de passos ou uma dica milagrosa, provavelmente parou na leitura errada.

Não existe caminho curto ou mais fácil para chegar onde você imagina que quer chegar.

Depois de ser professor durante um ano e alguns meses, e agora ter fechado um semestre completo como docente no curso de Engenharia da Computação, notei um padrão problemático em muitos alunos. E, muito provavelmente, você que está lendo este texto também tem esse problema em algum nível.

Eu resumiria isso em uma definição:

Falta de querência.

Mas veja bem: falta de querência não é apenas falta de vontade ou de proatividade. É falta de interesse genuíno em entender o problema, o impacto e o motivo por trás daquilo que você está fazendo.

Além de professor, eu também sou desenvolvedor e coordeno um time. Então, tenho contato com recém-formados que já chegaram ao mercado e com pessoas que ainda estão procurando a primeira oportunidade.

E fica claro que o maior problema hoje não está apenas em dominar lógica ou alguma linguagem. Lógica continua sendo importante, e conhecer ferramentas também.

Mas, nos níveis iniciais, a inteligência artificial já consegue ajudar muita gente a escrever código, corrigir erros, montar estruturas e acelerar entregas. É aí que começamos a enxergar o que realmente falta.

Seja sincero: quando você pensa em entregar alguma task ou fazer um trabalho na faculdade, você já parou para pensar no porquê de estar fazendo aquilo?

Esse porquê precisa ir além do código, além da task e além de “porque o professor pediu”.

E é aí que entra o primeiro ponto da querência:

O incômodo.

Sim, o incômodo.

Por que eu estou fazendo esse CRUD? Que tipo de problema esse CRUD resolve? O usuário final vai, de fato, ter algum benefício com isso?

Porque criar um CRUD não é apenas criar uma tabela, montar uma rota, fazer um formulário e colocar um botão de excluir.

Quem está apenas executando pensa: “Preciso cadastrar, editar, listar e excluir usuários.”

Mas alguém com querência começa a perguntar:

“Quem pode excluir um usuário?”

“Esse usuário possui informações vinculadas no sistema?”

“Excluir significa apagar para sempre ou apenas desativar?”

“O que acontece se esse usuário for responsável por registros importantes?”

Percebe a diferença?

O código pode até ser parecido no final, mas o nível de entendimento sobre o problema é completamente diferente.

E ter esse tipo de incômodo vai além de apenas responder porquês. A partir daí, você desenvolve uma mentalidade proativa para qualquer coisa que faça.

Você começa a se perguntar:

“Tá, mas essa task que estou fazendo, como ela se encaixa no contexto de todo o software?”

“Se meu sistema cresce muito verticalmente, eu deveria mesmo deixar chamadas síncronas no meu código?”

“Essa integração precisa acontecer na hora ou eu poderia processar isso em fila?”

“Se essa funcionalidade falhar, o usuário perde algo importante?”

Esse é o tipo de mentalidade que só nós, da área, podemos ter. Porque, se você apenas executa instruções sem entender contexto, fica difícil demonstrar o valor que só um profissional consciente consegue entregar.

E isso também vale para a faculdade.

Quando seu professor pede um sistema de biblioteca, por exemplo, não é apenas para você treinar if, for, funções ou banco de dados. É uma oportunidade para pensar:

“Quem vai usar esse sistema?”

“O mesmo livro pode ser emprestado para duas pessoas ao mesmo tempo?”

“O que acontece quando o aluno atrasa uma devolução?”

“Como eu vou registrar o histórico desse empréstimo?”

A atividade pode ter sido passada para praticar uma linguagem ou um conceito específico. Mas, se você enxergar apenas o exercício, vai entregar somente o exercício.

Agora, se você enxergar o problema por trás dele, começa a desenvolver visão de produto, visão de negócio e visão de engenharia.

Tenham querência.

Procurem saber o porquê, o como e o quando. Não sejam exclusivamente operadores de IA.

A inteligência artificial consegue gerar uma função em segundos. Consegue corrigir um erro, sugerir uma estrutura, escrever uma query e até montar uma aplicação inicial.

Mas ela não sabe, sozinha, se aquela função deveria existir. Ela não sabe se aquela solução resolve o problema certo.

Ela não sabe se aquela decisão vai gerar lentidão, risco, custo, retrabalho ou uma experiência ruim para quem usa o sistema.

É por isso que você precisa usar aquilo que coloca você um passo à frente de qualquer IA:

O poder da abstração.

Perguntem, indaguem, se incomodem. Comecem a ir atrás dos porquês.

“Por que caralhos o professor está me ensinando fila e pilha em estrutura de dados?”

Porque fila e pilha não existem apenas para cair em prova.

Pilha está por trás do botão de voltar no navegador, do desfazer e refazer em ferramentas de edição e até da forma como funções são organizadas durante a execução de um programa.

Fila aparece em atendimento, processamento de pedidos, envio de e-mails, notificações, sistemas de pagamento, processamento de mensagens e aplicações que precisam lidar com muitas tarefas sem travar o usuário.

Quando você entende o conceito, deixa de decorar conteúdo para prova e começa a enxergar tecnologia no mundo real.

E o déficit dessa postura tem sido extremamente comum.

Eu sei que a vida é puxada. É difícil. Mas entenda: para ter valor, você precisa fazer sacrifícios.

Nossa profissão hoje não é mais apenas batucar código.

Eu entendo que isso é algo que algumas pessoas têm por natureza. Mas qualquer um consegue desenvolver.

Basta adicionar essa postura sempre. Depois de um tempo, ela se torna automática.

Por fim, gostaria de citar Clóvis de Barros Filho, que transmite essa mensagem de uma forma genial e engraçada:

“E o brio?!”

É exatamente isso.

Eu espero que este texto chegue até você de alguma forma e que você perceba que precisa trabalhar isso. Porque, se você desenvolver essa postura, estará um passo mais próximo da tão sonhada vaga.

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