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Luan Andryl
Luan Andryl

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Vamos falar de IA. Mas de outro lugar.

Tem uma conversa sobre IA que eu não vejo acontecendo. A discussão honesta do dia a dia, o efeito real da ferramenta no trabalho, o que muda e o que não muda na arquitetura de um sistema, isso eu tenho noção e opinião formada. Mas tudo isso opera num andar de baixo. Tem um andar de cima que eu sentia que estava ali e nunca tinha conseguido enquadrar.

Li o Technofeudalism do Varoufakis no ano passado e fiquei com a coisa cozinhando no fundo da cabeça desde então. Daquela leitura que não fecha de imediato mas vai deixando ressaca. Outro dia, vagando com insônia pelo X de madrugada, esbarrei numa thread sobre a encíclica Magnifica Humanitas que o Leão XIV tinha acabado de publicar. Sou católico não praticante, e talvez por isso quis ver o que o Papa atual estava dizendo sobre IA em vez de descartar como conversa de sacristia. Li o texto na sequência, e foi a leitura do Papa que finalmente me obrigou a voltar pro grego com outros olhos.

Os dois são desconfortáveis e parciais nas suas próprias formas, mas juntos descrevem um algo que vinha me incomodando sem ter nome.

Vou tentar puxar esse fio.

O mecanismo: o que o Varoufakis viu

A tese do Varoufakis é que o capitalismo, como a gente aprendeu a descrever ele, morreu. Não acabou em revolução, não foi substituído por socialismo. Virou outra coisa. Ele chama de tecnofeudalismo, um arranjo em que o lucro principal não vem mais do mercado, vem da renda. Renda no sentido feudal, o pedágio que você paga ao senhor da terra. A diferença é que a terra agora é digital. Amazon não é mercado, é feudo. Google Search não é mercado, é feudo. Quem quer vender, anunciar, existir, paga tributo ao dono da plataforma. E os usuários, no modelo dele, são cloud serfs, servos da nuvem que produzem valor de graça (dados, conteúdo, treinamento de modelo) e devolvem ao senhor.

A descrição do mecanismo é o que importa, independente do tom político em que ela vem embrulhada. Varoufakis está dizendo que o cloud capital opera por uma lógica que não é a clássica de mercado, porque o "mercado" foi substituído pela plataforma e a plataforma é propriedade privada do senhor. Não tem competição em sentido sério dentro do feudo. E o Estado, que tradicionalmente seria a contraparte capaz de regular o capital, foi capturado financeiramente desde 2008 pela política monetária frouxa que alimentou o próprio cloud capital. O resultado é uma forma de poder econômico que escapa por baixo do regulador e por cima do consumidor ao mesmo tempo.

Isso não é a velha crítica ao capitalismo financeiro. Varoufakis está dizendo que o jogo mudou de natureza, não de intensidade. E a IA, no esquema dele, é a próxima geração de cerca, agora cercando capacidade cognitiva.

A antropologia: o que a encíclica viu

A encíclica chega no mesmo terreno por outro lado. Leão XIV escreve, com todas as letras, que antes eram os Estados que conduziam grandes inovações, mas hoje os motores são atores privados, frequentemente transnacionais, com recursos e influência maiores que muitos governos. Esse diagnóstico de poder é parecido com o do Varoufakis. O que a encíclica adiciona, e o que nenhum texto econômico consegue dar, é uma defesa específica do que está sendo ameaçado.

A doutrina social da Igreja distingue dignidade ontológica de dignidade produtiva. A primeira diz que você vale por existir, ponto. A segunda diz que você vale pelo que entrega. Esses dois conceitos coexistem sem atrito enquanto a sociedade está disposta a sustentar ambos, mas quando a infraestrutura técnica força uma escolha, a ontológica é a que cai primeiro. Sistema de score, ranqueamento algorítmico, automação seletiva, tudo isso opera presumindo que valor é função de utilidade. A encíclica ataca isso de frente, e ataca também o transhumanismo, a ideia de que a fragilidade humana é defeito a corrigir via tecnologia. Pra ela, a finitude não é bug, é traço constitutivo do que estamos defendendo.

Onde o Varoufakis chega forte, a encíclica chega fraca, e vice-versa. Varoufakis explica como o valor está sendo extraído. A encíclica explica do que estamos sendo despossuídos. Os dois precisam ser lidos juntos porque sem a parte antropológica o argumento econômico vira só queixa de distribuição, e sem a parte econômica o argumento antropológico vira lamento sem mecanismo.

O paralelo que eu reconheço do meu balcão

Eu trabalho com infraestrutura pra mercado financeiro. Construo, todo dia, parte da máquina que intermedia fluxos de capital e cobra spread por dentro deles. Reconheço o padrão do tecnofeudalismo quando vejo, porque é primo do que eu construo. Mas tem uma diferença entre os dois primos que merece atenção, e ela ajuda a explicar por que esse arranjo novo é pior que o que veio antes.

O mercado financeiro intermedia capital que já existia. O banco não criou o dinheiro, organizou e movimentou ele cobrando taxa pelo serviço. O cloud capital fez algo diferente. Ele criou um insumo novo (capacidade cognitiva escalada por trás de uma API) e já nasceu dono dele. Não está intermediando um recurso existente, está cercando um recurso que antes era distribuído (capacidade de raciocínio) e transformando em produto rentável. Quem já desenhou sistema multi-tenant entende como assimetria informacional vira vantagem estrutural, e esse arranjo é exatamente isso operando em escala civilizacional.

A diferença entre intermediar e criar-e-cercar tem consequência prática. Mercado financeiro pode ser regulado, mal ou bem, porque o regulador entende o que está sendo intermediado e onde estão os fluxos. O cloud capital opera em terreno onde o regulador ainda não sabe o que está sendo cercado, quanto isso vale, ou quem deveria ter direito ao quê. O resultado é uma assimetria informacional gigante entre o senhor da plataforma e qualquer instituição que poderia equilibrar a coisa. Não é teoria, é o que se vê quando Microsoft, Google e OpenAI negociam contratos plurianuais com governos enquanto reguladores europeus tropeçam tentando definir o que é um "modelo de IA de alto risco". O jogo está sendo jogado em escala e velocidade que a institucionalidade não acompanha.

O dev sentado no Cursor às 9 da manhã

Onde isso me toca como engenheiro, especificamente?

Faz tempo que eu defendo que a IA é multiplicador, não substituto. Que ataca complexidade acidental e deixa a essencial intacta, no sentido do Brooks. Que o gargalo migrou de escrever código pra entender sistema. Continuo achando que tudo isso é verdade. Mas as duas leituras me fizeram ver uma camada que eu não estava endereçando.

A complexidade essencial continua sendo minha. Quando eu projeto um sistema, quando decido o que modelar, onde colocar a fronteira, como isolar contexto entre tenants, isso continua sendo trabalho meu, e a IA não faz isso por mim. Só que a complexidade acidental, que a IA agora resolve com competência crescente, foi cercada. Tem dono. Tem pedágio. Eu pago por mês pra acessar o multiplicador. Meu time paga. Minha empresa paga. E quem cobra o pedágio é dono não só da ferramenta, mas da infraestrutura cognitiva que torna meu trabalho viável no ritmo atual.

A bifurcação clássica, engenheiros de sistema de um lado, operadores de IA do outro, ganha uma camada nova vista assim. Não é só que um é substituível e o outro não. É que ambos são inquilinos do mesmo cloud capital. Quem usa IA com julgamento técnico só consegue exercer esse julgamento na velocidade exigida pelo mercado porque aluga infraestrutura de quem possui o capital cognitivo. A gente discute substituição quando o jogo real é arrendamento.

A objeção que eu não consigo responder

A objeção mais funda à minha leitura é esta: e se a IA atual ficar tão boa que torne o engenheiro descartável, independente de quem é dono da infraestrutura? Esse argumento eu não consigo responder, e não vou fingir que consigo. Pode ser que sim. Pode ser que dessa vez a história quebre o padrão de sessenta anos de previsões furadas sobre o fim da programação. Não tenho como saber, e quem te disser que tem está vendendo curso ou ação.

O que eu posso fazer é trazer pra mesa como eu vejo o problema do meu lugar, agora, com a informação que eu tenho. E o que eu vejo é o seguinte. As gerações anteriores de ferramenta atacavam complexidade acidental dentro de um arranjo de poder estável. CASE tool foi vendido por fornecedor de software empresarial pra empresa que mantinha o time de programadores no mesmo prédio. A renda era cobrada, mas o jogo continuava sendo o mesmo. O que muda agora não é só a capacidade da ferramenta. É que a ferramenta vem acoplada a um arranjo de poder que não tem precedente comparável. A diferença qualitativa que importa pra mim não está no token, está em quem é dono da fábrica de token.

Então o que eu trago não é certeza de que dessa vez não é diferente. É outra leitura do que está sendo diferente. Pode ser que o engenheiro suma. Mas se sumir, não vai ser porque a ferramenta ficou inteligente. Vai ser porque o arranjo decidiu que era mais barato sem ele. São causas distintas com implicações distintas, e o tempo dirá qual cenário se confirma. Eu só não acho que o vocabulário atual da conversa pública ajude alguém a ver direito qualquer um dos dois.

Babel e o que o open source tem a dizer

A encíclica usa duas imagens bíblicas que valem a pena puxar com refração própria. Babel é o projeto da uniformidade. Leão XIV usa como metáfora teológica, mas como engenheiro eu leio em chave de arquitetura. A IA atual é a monocultura tecnológica mais agressiva que a indústria já viu. Uma arquitetura dominante (transformer), três ou quatro labs com modelos de fronteira, mesmo paradigma de scaling, mesmos benchmarks, mesma direção. Quando uma indústria inteira converge nesse grau, a história mostra que o resultado não é robustez, é fragilidade sistêmica. Mainframe vs PC, monolito vs microsserviços, broadcast vs streaming, todas essas transições começaram quando a monocultura anterior se esgotou.

A outra imagem é Neemias reconstruindo os muros de Jerusalém. Volta do exílio, vê a cidade em ruínas, em vez de impor solução de cima, distribui trechos do muro entre famílias, grupos, ofícios. Cada um cuida do seu, o todo emerge da coordenação. Em chave técnica, isso descreve uma federação de modelos especializados rodando em hardware distribuído, com pesos inspecionáveis e governança plural. Não é utopia, é a direção pra onde o open source já está caminhando.

Os modelos chineses, os modelos pequenos rodando local, as variantes especializadas, isso não é nicho. É a única estratégia visível que escapa do tecnofeudalismo da forma como ele está sendo montado. Quando o token chegar perto de zero, e ele vai chegar, a vantagem competitiva volta a estar onde sempre esteve, no julgamento, no contexto, no entendimento de domínio que ninguém terceiriza. Mas pra isso ser saída de fato e não só promessa, a infraestrutura cognitiva precisa ser plural. Modelos rodando em hardware que você controla, em redes que você opera, com pesos que você pode inspecionar. Senão é só trocar o senhor feudal por outro.

Onde isso me deixa

A IA continua sendo multiplicador real do meu trabalho. O Brooks continua certo sobre complexidade essencial. A profissão continua se destilando em vez de desaparecer. Tudo que eu sempre defendi sobre isso vale.

O que muda é onde eu estou olhando. Estava olhando a ferramenta no nível da minha mesa. Varoufakis e Leão XIV, cada um do seu lado, me obrigaram a olhar pro nível acima, o de quem é dono da infraestrutura que torna a ferramenta possível, e do que isso faz com instituições que eu até então tomava como dadas.

Aí eu tenho opinião, não certeza. Acho que open source é a única aposta que mantém engenheiro como engenheiro e não como inquilino de capital cognitivo alheio. Acho que contexto de domínio (aquilo que vive na cabeça das pessoas e raramente em sistema) vira o ativo mais valioso justamente porque é o único que o cloud capital não consegue cercar. E acho que essa conversa precisa parar de ser feita no vocabulário do marketing das empresas que estão vendendo o problema como solução.

Vou continuar usando Claude Code amanhã às nove da manhã, e o time inteiro também. Não porque acho que é a melhor saída, mas porque enquanto pagar pelo token resolver no curto prazo, nenhum C-level vai destinar budget pra explorar alternativa. O cerco do cloud capital não está sendo segurado pela ausência de saída técnica, está sendo segurado pela ausência de incentivo corporativo pra procurar uma. Essa é a parte que me incomoda mais e que eu não vejo a indústria querendo encarar.


Antítese honesta: uma IA me ajudou a produzir e revisar esse texto. Entrou no processo de escrita do mesmo jeito que entra no processo de código. Não muda o argumento, e talvez até o reforce. Mas vale o registro, principalmente num post sobre arrendamento cognitivo.

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