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Enock Gomes Neto
Enock Gomes Neto

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TV 3.0: Como o Brasil está reconstruindo a TV aberta sobre uma pilha IP

Muita gente enxerga a TV aberta como uma tecnologia pronta, quase parada no tempo. Não é. O Brasil está desenhando agora a próxima geração do seu sistema de TV terrestre, e a parte interessante para quem é engenheiro é como ela está sendo montada: uma plataforma centrada em IP que junta, com bastante pragmatismo, as melhores peças de padrões diferentes.

Eu trabalho com TV 3.0, então escrevi aqui a introdução que eu queria ter tido na primeira vez que me perguntaram "espera, TV não é só... TV?".

O que temos hoje

O sistema atual de TV Digital do Brasil é o SBTVD (ou ISDB-Tb), uma evolução do padrão japonês ISDB-T. Dois pontos importam para entender o que vem depois.

A transmissão usa uma camada física de radiodifusão dedicada: robusta, feita para antena e para recepção em movimento. Já a interatividade roda sobre o Ginga, o middleware presente em milhões de TVs e set-top boxes no Brasil e na América Latina. É o Ginga que permite a uma emissora entregar um aplicativo junto com o vídeo.

O sistema funciona bem, mas foi pensado antes de streaming, 4K, HDR e segunda tela virarem o básico esperado. É essa distância que a TV 3.0 encurta.

O que é a TV 3.0

A TV 3.0 é o sistema de TV terrestre de próxima geração definido pelo Fórum SBTVD por meio de uma chamada aberta de propostas. Em vez de adotar um padrão estrangeiro inteiro, o Fórum avaliou cada componente separadamente e montou a pilha peça por peça. O resultado é incomum e, na minha opinião, bastante pragmático:

Camada Escolha da TV 3.0
Física (radiodifusão) Camada física do ATSC 3.0
Transporte Baseado em IP (ROUTE/DASH)
Codificação de vídeo VVC (H.266)
Áudio MPEG-H 3D Audio
Aplicação / interatividade Ginga, evoluído

O ponto que costuma surpreender: o Brasil manteve o Ginga na camada de aplicação, mas adotou a camada física do ATSC 3.0 (do sistema norte-americano) para a transmissão e colocou o IP no centro de tudo.

A ideia central: tudo vira IP

Aqui está o que mais interessa a quem desenvolve. Na TV 3.0, o transporte é basicamente IP entregue pelo ar. O broadcast deixa de ser um canal fechado e opaco e passa a se comportar como a internet.

Na prática:

  • O conteúdo trafega como IP usando ROUTE/DASH, o mesmo DASH do streaming que você já conhece.
  • Como tudo é IP, o aparelho combina radiodifusão e banda larga sem costura. O 4K pode chegar pela antena enquanto o conteúdo personalizado ou sob demanda vem pela internet de casa, e para o usuário é uma experiência só.
  • Codecs modernos (VVC no vídeo, MPEG-H no áudio) fazem 4K/8K, HDR e áudio imersivo caberem no espectro disponível.

Broadcast e web deixam de ser dois mundos separados. Eles se encontram no meio do caminho.

Por que isso importa

Imagem e som melhores são o argumento óbvio: 4K, HDR, áudio imersivo. Mas a arquitetura abre espaço para mais do que isso.

Dá para ter experiências híbridas, com a TV ao vivo enriquecida por conteúdo sincronizado que vem pela internet. A interatividade passa a ser central, e não um extra: com o Ginga e tecnologias web, uma emissora pode entregar um app junto do sinal, de recursos de acessibilidade a ângulos extras de câmera e informação em tempo real. E nada disso abre mão do alcance. A TV aberta ainda chega a lares que o streaming sozinho não alcança, e a TV 3.0 moderniza esse alcance em vez de substituí-lo.

Para um país do tamanho do Brasil, levar recursos de internet para a TV de antena gratuita não é pouca coisa.

Por que é interessante de construir

Do ponto de vista de engenharia, a TV 3.0 fica num cruzamento raro: sistemas embarcados (roda em hardware limitado de TV e set-top box), multimídia (codecs, streaming, sincronismo) e desenvolvimento web (a camada interativa). É comum passar a manhã em C/C++ e Linux de baixo nível e a tarde pensando em HTML, DASH e comportamento de aplicativo. Poucas plataformas exigem essa amplitude.

O que vem pela frente

A TV 3.0 está saindo da fase de especificação e testes de campo rumo à implantação. Quando chegar, a TV da sala vai estar rodando uma pilha IP, codecs modernos e um ambiente de aplicativos, bem mais perto de uma plataforma web do que da televisão analógica de onde ela veio.

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