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Guilherme Yamakawa de Oliveira
Guilherme Yamakawa de Oliveira

Posted on • Originally published at guilherme44.com

[PT-BR] Pela terceira vez, o Google enfia coisa no seu PC sem perguntar

Se você usa o Chrome, tem 4GB de modelo de IA na sua máquina que você nunca pediu. E não é a primeira vez que o Google faz isso, é a terceira. O pesquisador Alexander Hanff publicou o relatório em 4 de maio de 2026. O arquivo se chama weights.bin, fica em OptGuideOnDeviceModel dentro do diretório do Chrome, e é o Gemini Nano. Sem aviso, sem checkbox. Se você descobrir e apagar, o Chrome baixa de novo no próximo restart.

A primeira reação aqui foi de déjà vu, não de surpresa. Em dezembro de 2020 o Loren Brichter (@lorenb no X, o cara do "pull to refresh" e do Tweetie, cliente que o Twitter comprou em 2010 pra virar o app oficial do iPhone) publicou o chromeisbad.com, um site de uma página explicando como o Keystone, o updater do Google Chrome no Mac, ficava rodando em background deixando o sistema lento mesmo com o Chrome fechado. A reclamação dele veio onze anos depois da Wired publicar "Google Software Update Tool is evil" sobre o mesmo Keystone, quando ele apareceu enfiado no Google Earth coletando dados de hardware e baixando coisas em background sem avisar. O remédio que o Brichter indicou foi escrever instruções pra desinstalar Chrome e Keystone na mão, e recomendar Safari, Brave, Vivaldi, Opera no lugar.

O que o Hanff descobriu

A descoberta dele é mais detalhada que a do Brichter em 2020. O Hanff cruzou logs de filesystem do macOS (.fseventsd), o Local State do Chrome, feature flags e logs do GoogleUpdater pra montar uma cadeia de evidências de quatro pontas. No perfil de teste dele, o weights.bin apareceu em 24 de abril de 2026 às 16:38:54 e levou 14 minutos e 28 segundos pra terminar de baixar. Silenciosamente. Cada perfil de Chrome roda esse processo de novo.

A versão afetada é a Chrome 147 e seguintes. O modelo serve pra features como "Help me write" (composição de texto), detecção local de scam e APIs que sites podem chamar (Summarizer API, Translator API, Prompt API).

A parte que dá raiva

Aquele botão chamativo de "AI Mode" que apareceu no omnibox do Chrome, que parece ser a feature visível de IA do browser, não usa o modelo local. As consultas digitadas ali vão pra cloud do Google. Ou seja: o usuário paga 4GB de download e 4GB de espaço em disco por um modelo que não roda quando ele clica no botão de IA do browser. O custo fica com o usuário, o uso fica com o Google.

Em escala

Hanff fez as contas: 0,24 kWh por dispositivo pra baixar e instalar, 0,06 kg de CO2e por dispositivo. Em 1 bilhão de instalações, são 240 GWh e 60 mil toneladas de CO2e, equivalente à emissão anual de cerca de 13 mil carros europeus. E com a União Europeia em cima do GDPR, da ePrivacy Directive (o Artigo 5(3) proíbe armazenar dados no dispositivo do usuário sem consentimento prévio) e da CSRD (a diretiva europeia de reporte de sustentabilidade), a chance de virar caso jurídico é alta.

Como tirar isso da sua máquina

O Google adicionou em fevereiro de 2026 a opção pra desabilitar:

  • Chrome Settings > System > "Turn On-device AI on or off", se a opção já apareceu pra você.
  • Caminho alternativo: digite chrome://flags na barra de endereço, busque por "optimization guide on device" e marque como "Disabled". Reinicie o Chrome.

Lembrando que apagar o weights.bin na unha não basta. Sem desabilitar a flag, o Chrome baixa de novo.

O que faço no meu dia a dia

Não uso o Chrome como browser principal há tempos. Escrevi semana passada sobre roteamento de links, e no setup que descrevo lá os browsers que abrem cada link são Chromium-based ou Firefox-based (Brave, Vivaldi, Edge, Opera, Helium), não o Chrome do Google em si. Os mesmos nomes, que o Brichter recomendou em 2020, continuam servindo bem em 2026.

A regra que adotei é simples. Não dá pra confiar num programa que decide instalar 4GB de IA, ou um daemon updater em background, sem te perguntar. O que tá em jogo não é só espaço em disco, é o controle sobre o que o seu computador faz quando você não tá olhando.

E lá vamos nós pela terceira vez

Em 2009 a Wired publicou que o Keystone era evil quando o Google enfiou ele junto com o Google Earth. Em 2020 o Brichter publicou o chromeisbad porque o mesmo Keystone tava dentro do Chrome. Agora em 2026 o Hanff mostrou que são 4GB de IA, instalados do mesmo jeito. Entre essas datas o Google só ficou maior, e a forma de empurrar coisa no PC dos outros sem perguntar não mudou.

Eu uso o Brave, e recomendo usar qualquer outro browser, menos o Google Chrome.

Fontes


Publicado originalmente em guilherme44.com.

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