Dia 23 de setembro de 2026, Teatro Carlos Gomes, Blumenau, Santa Catarina. O relógio marcava por volta de 11h15. Em cerca de 20 minutos uma palestrante virtual, dotada de Inteligência Artificial, iniciaria uma apresentação num palco para mais de 900 pessoas ao vivo e mais algumas milhares de pessoas estariam acompanhando a transmissão pelo YouTube.
Na noite anterior ao evento, eu, o Juan e o Palladino estávamos no palco do evento para fazer os últimos preparativos. Tudo havia funcionado perfeitamente. A palestrante virtual fez uma apresentação de aproximadamente 6 minutos, respondeu algumas perguntas e saiu de cena anunciando a minha palestra que seria feita na sequência. Mas no palco as coisas nunca saem como planejado.

Voltando a cena do dia do evento. Faltando 20 minutos para a palestrante virtual subir no palco, a conexão de internet do evento cai. E agora, o que eu faço? Eu passara os últimos dois meses construindo aquela palestrante. Por que isso tinha que acontecer justo agora? Corremos até a sala de controle, onde o Juan já estava pronto para iniciar a transmissão da palestrante. Conversamos com a equipe responsável pela transmissão do evento para encontrar uma alternativa. O uso do 5G era uma possibilidade, mas não seria possível fazer a transmissão para o YouTube. Depositei minha confiança nos meus colegas de trabalho, acreditando que eles encontrariam uma alternativa. Enquanto isso, eu corria para o backstage para combinar com a organização como seria a minha entrada no palco.
A mestre de cerimônia entraria no palco e anunciaria a próxima palestrante, ou seja, a palestrante virtual e depois me apresentaria como criador dessa palestrante e que atuaria primeiro como um intermediador das perguntas que seriam feitas a palestrante e posteriormente faria uma apresentação sobre os desafios na construção dessa mesma palestrante.
O alívio, o imprevisto previsto e o nervosismo
Quando terminamos de combinar os detalhes, faltando pouco menos de cinco minutos para o início, a assistente de palco anunciou que a internet havia voltado. Que alívio! A palestrante virtual vai funcionar. A mestre de cerimônia sobe no palco, me apresenta ao público e anuncia a entrada da palestrante virtual. Eu só fiquei aliviado quando ouvi as primeiras palavras da palestrante virtual. Mas foi só alívio mesmo, eu não consegui curtir o momento. Sim, dois meses de trabalho para sentir alívio. Eu gostaria de ter sentido regozijo, orgulho e satisfação. Mas a única coisa que senti naquele momento foi um grande alívio.
Tudo correu bem com a apresentação da palestrante virtual. Então ela entrou no modo de perguntas e respostas. Eu subi no palco para intermediar as perguntas. Enquanto eu proferia a primeira, puff... a palestrante sumiu. Enquanto eu escrevo este texto, ainda não temos uma resposta. Talvez uma oscilação na conexão com a internet? Uma falha que não foi tratada? Não sabemos. A única certeza que eu tinha naquele momento é que precisava fazer algo para contornar aquela situação.
Eu me virei para o público e emendei uma piada: acho que alguém não pagou o cachê da palestrante! Uma piada boba, mas que arrancou algumas gargalhadas. Mas não pense que isso me deixou mais leve. Eu continuava tenso. Na noite que antecedeu o evento eu mal havia dormido. Tive um pesadelo no qual tudo dava errado.
Apesar de tudo, posso garantir que tecnicamente eu estava preparado. No dia anterior ao evento, fiz dezenas de ensaios. Eu tinha o conteúdo na ponta da língua. Conhecia cada slide como a palma da minha mão. As palavras saíram e o público prestou atenção ao que foi dito. Não foi a melhor apresentação e eu tenho ciência disso. Muita coisa poderia ter sido diferente. Minha movimentação no palco, a interação com o público, a entonação na voz, entre outras coisas. Mas o conteúdo estava entregue e a mensagem foi passada: mostrar para o público que a palestrante só funcionou como deveria ter funcionado porque os seus limites foram bem estabelecidos.
Depois que a tempestade passou eu tive tempo para refletir sobre tudo que aconteceu naquele dia 23 de setembro e com a ajuda do Palladino concluí que a apresentação foi um sucesso. Sim, um sucesso! Sucesso não significa que tudo deve sair como o planejado. Sucesso não é sobre alcançar a perfeição, mas sim sobre atingir objetivos. E o objetivo foi atingido.
Os limites que garantiram o sucesso
No palco eu falei sobre os limites que foram colocados na palestrante virtual e como esses limites que garantiram o seu sucesso no palco. O primeiro limite foi o conhecimento. A palestrante virtual não falou nada além daquilo que havia sido planejado. Antes dela subir no palco os slides e roteiro foram planejados. Ela não inventou nenhum fato novo.
O segundo limite era o alcance desse conhecimento. Por questões de arquitetura, sobre as quais falarei num blog post futuro, a palestrante virtual não poderia conhecer o roteiro inteiro da apresentação. Ela só conhecia o conteúdo do slide que estava sendo exibido naquele instante.
O terceiro limite era a improvisação, ou melhor, quanto espaço ela tinha para improvisar. No início da palestra ela fez uma auto apresentação, sem roteiro pré-definido. Entre uma troca e outra de slide ela fez uma brincadeira com base no conteúdo do slide que havia sido apresentado. Esses aspectos acrescentaram um quê de naturalidade na palestrante virtual.
O quarto, último limite e o mais importante: as pessoas no fluxo. Durante o projeto concluímos que a palestrante possui muitas possibilidades de falhar. A arquitetura é complexa e repleta de componentes. Há muitos pontos de falha possíveis. Sim, nós observamos as melhores práticas de arquitetura e implementamos mecanismos de resiliência. Mas haviam situações que só poderiam ser contornadas por um ser humano.
Lá na mesa de controle do evento estava o Juan, observando o painel de controle da palestrante virtual. Nesse painel havia um grande botão de pânico. O Juan acionaria esse botão ao menor sinal de falha da palestrante. E muita coisa poderia dar errado. A Inteligência Artificial do modelo de voz poderia alucinar, o fornecedor do avatar da palestrante poderia sair do ar, a conexão com a internet poderia desestabilizar. E neste cenário, numa apresentação ao vivo, nem mesmo uma arquitetura resiliente poderia nos salvar.
O plano já estava traçado para o pior dos cenários. Eu subiria ao palco e continuaria a apresentação do ponto que a palestrante virtual parou. Isso mesmo que você leu. É o humano tomando o lugar da máquina e não o contrário. Isso não é alentador?
A experiência no palco
Esta não foi a primeira vez que fiz uma apresentação pública. Mas foi a primeira vez que me apresentei para um grande público e num grande palco. O nervosismo foi inevitável. Mas eu tento olhar pelo lado positivo. Quando sentimos aquele frio na barriga antes de um evento, significa que aquele momento é importante. É isso que nos faz humanos e nos faz sentir que estamos vivos!
Certa vez eu aprendi que uma comunicação efetiva não se resume a uma boa oratória. Na verdade, não é sobre isso, mas sobre saber transmitir uma ideia ou um conhecimento. Não importa como você faz, se a mensagem chega no destino e o destinatário entendeu essa mensagem, então você se comunicou com sucesso. E foi isso que tentei fazer, transmitir o conhecimento.
Modéstia a parte, num aspecto eu me saí muito bem. Eu não li os slides. E devo isso às dicas do Palladino. Eu já assisti muitas palestras e sei o quão decepcionante é ouvir um palestrante que apenas lê o que está escrito nos slides. O público quer extrair algo do palestrante. O espectador precisa sentir que levou algo do palestrante para casa.
Ah, e eu não posso deixar de falar dos slides da apresentação que ficaram muito bonitos. Fruto do trabalho do time de marketing da Dati. Bons slides fazem muita diferença numa apresentação. E não é apenas sobre beleza, é sobre coesão, organização e dosagem de informação. Quando há muita informação, o espectador precisa escolher entre ouvir o palestrante e ler o conteúdo.
Nem tudo saiu como planejado, mas o sucesso foi alcançado. E o sucesso não é apenas meu. É fruto do trabalho em equipe do Dati Labs, o time de IA e Modernização da Dati. Também deixo registrado meu agradecimento à Senior que nos proporcionou o desafio de construir a palestrante e também de subir no palco do Seniortec.
Mas essa história começa muito antes do dia 23 de setembro de 2026. Começa em julho do mesmo ano. Porém, os detalhes serão revelados nos próximos blog posts. Aguarde!



Top comments (2)
Queda de internet 20 minutos antes é o pesadelo clássico de quem apresenta com demo remota. Dá pra perguntar: vocês tinham a palestra gravada como fallback offline, ou o plano B era só trocar para o 5G e torcer?
Olá Ivan! Obrigado pelo comentário.
Nós tínhamos uma gravação da apresentação. Mas o vídeo era uma gravação da tela do meu computador. Visualmente não ficaria legal. A verdade é que não pensamos em deixar um vídeo pronto para esta situação. Fica como aprendizado para as próximas apresentações.
O plano B era trocar para o 5G e torcer 😅