Quando você é dev, você controla a qualidade do que sai das suas mãos. Se algo vai pra produção com seu nome, você garante que tá do jeito que você quer.
Quando você vira Head, isso muda. Você não entrega mais código. Você entrega times que entregam código.
E isso dói.
O desespero de ver "diferente"
No começo, eu olhava as entregas e ficava desesperado. Via um PR e pensava "eu teria feito diferente". Via uma arquitetura e pensava "não era assim que eu faria".
A tentação era meter o dedo em tudo. Microgerenciar cada decisão, cada IF, cada nome de variável.
Cheguei a fazer isso. Não escala. Você vira gargalo, o time para de pensar sozinho, e você não consegue fazer seu trabalho de verdade.
Deixar o time aprender
Teve PR que eu vi débito técnico. Nada crítico, mas débito claro. Deixei. Queria ver se o time ia perceber sozinho.
Percebeu. Corrigiu no sprint seguinte. Sem eu precisar falar nada.
Claro que tem coisa e coisa. Se fosse algo crítico, eu teria intervindo. Mas parte de escalar é saber onde dá pra deixar o time aprender sozinho.
Seu papel é criar o sistema. Não é operar o sistema.
Como a gente fez na Monest 💜
Pra escalar qualidade sem microgerenciar, a gente criou camadas de proteção:
Automação. Lint, tipagem, padrões de código. Se dá pra automatizar, a máquina cobra.
AI como guardiã. Dezenas de guidelines alimentam um agente interno. A mesma AI revisa PRs e O approve dela é obrigatório. Se você programa com AI, ela já faz no padrão Monest.
RFC antes, ADR depois. Feature grande passa por RFC no GitHub, aprovada por Tech Lead. Depois da entrega, ADR documenta as decisões. A AI tem contexto do começo ao fim.
Documentação que respira. Pilares de engenharia no Notion. E um documento que todo mundo conhece: "O que um dev na Monest faz bem?!". Soft-skills, hard-skills, expectativas claras. Dev, Tech Lead, Data Engineer, cada função tem o seu.
Rituais e cultura. Engineering All-Hands, Post-Mortems, Tech Talks internas. Nada disso funciona se o time não compra a ideia. A cultura é a última linha de defesa.
A surpresa
Quando você constrói esse sistema e essa cultura, uma coisa inesperada acontece.
Você para de ver entregas "diferentes". Você começa a ver entregas melhores do que você faria.
Hoje tenho lideranças técnicas e engenheiros entregando muito melhor do que eu faria.
Seu papel é garantir que a barra de qualidade seja alta. O time faz o resto. E te supera.
A lição
Meu papel não é mais entregar código. É construir o sistema que permite 40+ pessoas entregarem no nível que a Monest precisa.
Se eu ainda quisesse controlar cada linha, a gente ainda seria 12.
Esse é o sexto post de uma série sobre lições que aprendi no meu primeiro ano como Head de Tecnologia. Semana que vem tem mais.
Top comments (0)