Você já passou uma tarde inteira configurando um projeto novo, escolhendo a stack, criando o repositório, estruturando as pastas e sentiu que estava voando? Aquela sensação de que dessa vez vai ser diferente, que essa ideia é boa demais pra morrer na gaveta? Eu também. O problema é que dois dias depois eu estava fazendo exatamente a mesma coisa, só que com outra ideia.
Se você se identificou, esse artigo é pra você. Não porque eu tenho a solução mágica, mas porque finalmente entendi o mecanismo por trás disso. E entender já muda muita coisa.
Table of contents
- O prazer de começar
- O momento em que tudo desmorona
- O objeto brilhante
- A culpa que ninguém fala
- Não é preguiça. É neurologia.
- Conclusão
O prazer de começar
Tem algo muito específico que acontece quando você começa um projeto novo.
O problema ainda não existe de verdade. Tudo é possibilidade. Você ainda não encontrou o bug impossível de reproduzir, ainda não percebeu que a arquitetura que escolheu não escala, ainda não chegou na parte chata de fazer o CRUD de usuário pela décima vez na vida.
Nessa fase, o cérebro libera dopamina. Bastante. A antecipação de uma recompensa futura ativa os mesmos circuitos que uma conquista real. Ou seja: só de imaginar o projeto funcionando, você já sente parte da recompensa.
Isso explica o prazer visceral do setup. Escolher o nome do repositório, montar a estrutura de pastas, escrever o README antes de ter uma linha de código que funciona... tudo isso alimenta aquela sensação.
O problema? É que ela passa.
O momento em que tudo desmorona
Existe um ponto específico em todo projeto onde a magia some. Eu chamo de o vale do tédio.
É quando você já sabe o que precisa fazer, mas o trabalho deixou de ser estimulante. As decisões arquiteturais foram tomadas. O setup tá pronto. Agora é só... executar. Implementar a feature chata. Escrever o teste. Lidar com o caso que você não previu.
Para a maioria das pessoas, esse momento é desconfortável mas passável. Você empurra, entrega, segue.
Para alguns cérebros, incluindo o meu, esse momento é quase fisicamente doloroso. Não é falta de vontade. É que o sistema de recompensa do cérebro simplesmente não libera o combustível necessário pra continuar uma tarefa que deixou de ser nova.
E aí começa o ciclo de autos sabotagem mais clássico do mundo do dev:
"Antes de continuar, vou refatorar essa parte aqui."
"Preciso repensar a arquitetura antes de avançar."
"Deixa eu criar um boilerplate melhor pra usar nos próximos projetos."
Você não está sendo preguiçoso. Você está inconscientemente procurando a dopamina do recomeço dentro do próprio projeto.
O objeto brilhante
E então aparece. Uma ideia nova.
Pode ser um problema que você viu no trabalho, uma conversa no Twitter, um repositório no GitHub que te inspirou. De repente, aquela ideia nova parece muito mais interessante do que o projeto que você abandonou no vale do tédio.
E ela realmente é, pelo mesmo motivo que o projeto anterior era interessante no início. Ela ainda não tem o peso da implementação. Ainda não tem os bugs, as decisões difíceis, o trabalho repetitivo.
Esse fenômeno tem um nome informal: Síndrome do Objeto Brilhante. E ele é mais intenso em cérebros que têm dificuldade de regular dopamina naturalmente.
O que acontece na prática? O projeto antigo não morre oficialmente. Ele só vai pra uma pasta chamada projetos/ e fica lá, acumulando poeira junto com outros oito projetos que passaram pelo mesmo ciclo.
A culpa que ninguém fala
Aqui está a parte que eu não via ninguém discutir: a culpa.
Porque quando você abandona um projeto, você não apenas perde o projeto. Você coleciona evidência contra si mesmo.
"Eu nunca termino nada."
"Eu começo cheio de energia e nunca entrego."
"Por que eu deveria começar esse projeto se vou abandonar igual aos outros?"
E essa narrativa é perigosa por dois motivos.
Primeiro, porque ela não é completamente verdadeira. Você provavelmente termina muita coisa, no trabalho, em tarefas com prazo real, em situações onde tem alguém esperando. O problema não é terminar em si. É terminar coisas que dependem 100% da sua motivação interna, sem deadline, sem stakeholder, sem pressão externa.
Segundo, você começa a acreditar que não é capaz de terminar, então para de tentar de verdade, e aí realmente não termina. O ciclo se fecha.
Não é preguiça. É neurologia.
Vou ser direto: se você se reconheceu em tudo que eu escrevi acima, há uma chance real de que seu cérebro simplesmente funciona de um jeito diferente da média.
Tem um tipo de cérebro que odeia repetição mas ama coisa nova. Não é fraqueza, é como ele funciona. O problema é que todo projeto tem uma fase nova e uma fase chata — e esse cérebro simplesmente apaga na segunda.
Não é falta de disciplina. É que o combustível que o seu cérebro usa pra manter o foco não funciona igual ao de todo mundo.
A diferença entre entender isso e não entender é enorme. Quando você não entende, você passa anos se achando preguiçoso, incompetente, incapaz de terminar o que começa e quando entende você começa a fazer perguntas diferentes:
"Como eu estruturo esse projeto pra ter recompensas menores e mais frequentes?"
"Como eu crio pressão externa pra compensar a falta de pressão interna?"
"Qual é o menor projeto possível que ainda entrega valor?"
Não são perguntas fáceis de responder. Mas são as perguntas certas.
Conclusão
Eu ainda começo projetos demais. Provavelmente sempre vou começar. Mas aprendi a parar de tratar isso como um defeito de caráter e passei a tratar como uma característica que precisa de estratégia.
O problema nunca foi a quantidade de projetos que eu começo. Foi a narrativa que eu construí em volta dos que eu não terminei.
Se você chegou até aqui e se reconheceu em alguma parte desse texto: você não está sozinho. E você provavelmente é melhor em começar coisas do que 90% das pessoas. Isso não é pouco, é uma habilidade real, que só precisa de direção.
O próximo projeto vai começar. A questão é o que você vai fazer diferente dessa vez.
Escrito por alguém que tem pelo menos dez pastas projetos/ abertas no VS Code agora mesmo.
Top comments (2)
hahahaha Ótimo artigo @yuri_souza_87bf486a4674b6 acho que o que nos empurra a sermos "acumuladores de projetos" é justamente o mesmo tipo de pensamento de quem acumula caixas de eletrônicos: posso não ter terminado, mas em algum momento eu vou precisar e vai estar aqui.
Tenho tratado com um pouco mais de carinho, mas te confesso que venho ate reduzindo o esforço, tenho feito uma dump list, e escrito todos os motivos pra eu começar, tudo que eu julguei como referência. Talvez eu pudesse ate vender algumas ideias kk
Exato! O negócio que as vezes se torna muitos projetos, e acaba se tornando uma "casa" cheia demais kkkk